Supere o trauma de um roubo

Ser roubado provoca emoções intensas, como medo, raiva e desesperança. Aprenda a transformar esse acontecimento desagradável em uma oportunidade de crescimento

Silvia Amélia

Ninguém quer mudar para pior | <i>Crédito: iStock
Ninguém quer mudar para pior | Crédito: iStock

A designer Bruna Caldeira, 30 anos, dormia quando um ladrão arrombou a janela de sua casa, em Belo Horizonte. De manhã, ela percebeu que o computador, com tudo o que fez em oito anos de trabalho, fora levado. Também sumiram outros aparelhos e um HD externo, em que guardava fotografias e o backup de todos seus arquivos. "Meu mundo caiu", recorda-se.

Em São Paulo, o escritório do colecionador de quadrinhos Antônio José da Silva, 64, o Tom Zé, foi invadido e 7 mil revistas raríssimas, colecionadas ao longo de 40 anos, levadas.

Bruna e Tom Zé ainda estão se recuperando emocionalmente. Eles não perderam apenas objetos de valor financeiro, mas carregados de amor e dedicação. "Vários dos exemplares eram únicos", lamenta Tom Zé. Ou seja, não podem ser comprados novamente, assim como o trabalho e as memórias de Bruna.

A Pesquisa Nacional de Vitimização, divulgada pelo Ministério da Justiça, aponta que 21% dos brasileiros sofreram algum tipo de violência no último ano. Furtos e roubos, somados, são o principal crime. Em algumas pessoas, a falta do objeto furtado desencadeia uma tristeza semelhante ao luto, e a sensação de ter a vida ameaçada em um assalto pode permanecer por muito tempo. Esse sofrimento é conhecido como Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Segundo a psicóloga Cláudia Sodré Vieira, o drama pode levar uma pessoa até a mudar sua personalidade. "Passa a ser alguém mais amargo, pessimista, pavio curto e até violento", explica.

Ninguém quer mudar para pior. Por isso, apresentamos a seguir um passo a passo para minimizar os estragos que um assalto pode provocar na sua vida. Cabeça e coração tranquilos valem mais do que qualquer objeto perdido.

Parte I - Analise o que aconteceu

Reaja só depois

Assim que estiver em local seguro, se sentir vontade, grite, corra, xingue, lute ferozmente com o travesseiro. Extravase tudo o que gostaria de ter feito durante o assalto. A tática (que lembra as terapias de psicodrama, em que os pacientes simulam situações e discutem sobre elas com o terapeuta) ajuda a gastar a adrenalina despejada em alta quantidade no seu sangue devido ao medo que sentiu no momento do roubo. Esse neurotransmissor, desde a época das cavernas, prepara o homem para fugir ou lutar em uma situação perigosa. Diante de um mamute ou outro animal gigante, enfrentar ou se escafeder era o que realmente devia ser feito. E foi o que garantiu a sobrevivência da espécie humana. Mas, hoje, lutar ou correr são duas péssimas escolhas diante de alguém armado e também cheio de adrenalina.

Chore no ombro

Encontrar um amigo pode evitar danos maiores à sua saúde mental. "É importante a vítima se sentir, nesse momento, plenamente acolhida por alguém que compreenda seu sofrimento", diz a psicóloga Claudia Sodré Vieira. Evite, claro, pessoas que vão fazer perguntas infinitas, culpar você ou mesmo minimizar o problema dizendo que "ao menos você não morreu". Pode chorar. Mas só o conforto do colo de um amigo não é o bastante. Mesmo que seja difícil, converse sobre o que aconteceu. Conte tudo a alguém de confiança. Não tocar no assunto não vai fazer você esquecer aquele momento. Ao contrário, falar para um bom ouvinte ajuda a racionalizar sobre o que de fato aconteceu. E isso evita que um medo generalizado se instale. A companhia de um grande amigo pode ser bem importante no próximo passo.

Tome providências

Cancele cartões e linha de celular e avise o seguro do carro. Em todos os casos, faça um boletim de ocorrência. Não importa se o roubo aconteceu com ou sem violência, ou se foi um furto (você nem viu o ladrão). Mesmo que não tenha esperança de recuperar o objeto roubado, registre o BO ¿ que em vários Estados pode ser feito pela internet, na página da Secretaria de Segurança. "Notificar um assalto ajuda a polícia a formar estatísticas mais próximas da realidade sobre onde e como acontecem os roubos. Isso melhora as estratégias da segurança pública no geral", diz a delegada Giuliana Rodrigues, do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), de São Paulo. Se o seu celular (objeto mais furtado no País) foi levado, aproveite para já avisar os amigos pelas redes sociais e pedir que mandem novamente seus números.

Siga em frente

É normal se sentir paralisado por umas 72 horas após o roubo. E triste por cerca de um mês. Mas faça um esforço para continuar. A designer Bruna tinha uma entrevista de trabalho marcada para o dia em que o seu computador foi levado. "Mesmo muito abalada, resolvi ir, e só essa atitude já fez com que eu me sentisse mais forte." Tom Zé chegou a cogitar abandonar o hobby que tanto adora. Mas já voltou a comprar revistas para a sua coleção. "Aprendi a não deixar a tristeza tomar conta de mim." Por fim, pare de pensar nisso. Como? Faça uma análise do que aconteceu: como foi a situação, se foi um descuido ou não. Isso vai ajudá-lo a perceber que o ocorrido não irá se repetir a qualquer momento. Depois disso, pare de pensar nessa história. Se for preciso, peça aos amigos e à família que não toquem no assunto. »

Parte II - Transforme sua emoção

Busque ajuda

Se o medo de passar de novo pela mesma situação de violência não deixa você em paz, é preciso terapia. Pode ser Transtorno do Estresse Pós-Traumático ¿ doença desencadeada após uma situação real de ameaça à vida. Comum em quem presencia uma guerra e também em vítimas de assaltos. Outros males para que a pessoa já tinha predisposição, como depressão e outros transtornos, também podem se desenvolver após o estresse agudo. Quanto antes procurar ajuda, melhor. "Em geral, as pessoas só buscam tratamento quando suas vidas já desmoronaram", afirma Cláudia Sodré. O isolamento social e o abuso de álcool são alguns dos péssimos recursos que muita gente usa para se proteger das más lembranças. "A violência vira um marco na vida da pessoa e ela passa a ser outra a partir de então."

Tenha fé

O teólogo maurício souza, professor do curso de Teologia da Universidade Mackenzie, teve o carro roubado quando ainda pagava as prestações. Para piorar, o seguro se recusou a cobrir o prejuízo. Ele e a mulher começaram a conversar sobre o que de pior poderia ter acontecido. Lembraram-se dos cheques que tinham na carteira e não foram roubados, e principalmente da vida que não perderam. Por fim, decidiram ter fé e "entregar nas mãos de Deus". A seguradora voltou atrás e pagou parte do valor. "A fé é uma convicção pessoal, mas afirmo que ela é um instrumento poderoso que ajuda a suportar situações difíceis, a não ficar remoendo perdas e ter a consciência em paz", diz. Maurício acredita que poderia ser uma pessoa pior se não tivesse passado por isso. "Poderia ter outro sentimento, ser alguém que conta cada centavo."

Perdoe seu ladrão

Bruna, após o roubo, tinha surtos de raiva em que esmurrava a mesa a cada vez que precisava de um arquivo que estava em seu antigo computador. "Sentia um ímpeto de me vingar", lembra. Até que se tocou que insistir nisso a estava prejudicando mais do que o roubo. Ela decidiu, então, perdoar quem lhe causou tanto mal. E fez uma página chamada Perdoe o Seu Ladrão, no Facebook, para divulgar a ideia. "De forma alguma defendo a impunidade. Só quero que as pessoas enfrentem essas situações sem perder o amor. Acredito que sentimentos ruins influenciam a nossa saúde", diz. O teólogo Maurício e a mulher intensificaram a sua fé fazendo orações para os ladrões que roubaram seu carro. "Para que respondessem pelo crime que cometeram e parassem com a prática. Mas que não tivessem suas vidas ceifadas pela polícia", pondera.

Faça uma releitura

Algo bom pode acontecer depois que paramos de reclamar. "Às vezes, o carro roubado é motivo para começar a se exercitar, andando mais a pé. Os arquivos perdidos podem ser um convite a repensar e melhorar trabalhos que estavam prontos", comenta a monja Coen. O budismo acredita que todas as coisas são transitórias e que o apego material é, portanto, fonte de sofrimento. Coen lembra que muitas pessoas a partir de um evento de violência se engajam em uma causa coletiva. "Elas fazem da sua vida uma campanha para que outros não sofram o mesmo. Podemos usar nossa energia para o bem do eu-maior, que é toda a sociedade." Mesmo sem se engajar, você pode cultivar a ética ao não comprar um produto barato que evidentemente é fruto de roubo. "Agir de forma correta e não guardar rancor ¿ assim, tornamos o mundo menos violento."

12/05/2017 - 16:09

Conecte-se

Revista Vida Simples