Um ano sem comprar roupa

Passar todo esse período sem adquirir uma única camiseta, calça ou acessório, além de economizar, pode ser uma oportunidade para aprender sobre o que é realmente essencial

Texto: Camila Carnielli Foto: Rogerio Pallatta Arte: Bruna Bischoff e Tiago Gouvêa

Um ano sem comprar roupa | <i>Crédito: Vida Simples Digital
Um ano sem comprar roupa | Crédito: Vida Simples Digital

Sair de casa demandava coragem. Era preciso cavar todas as peças emboladas no guarda-roupa. Eu ficava aflita quando recebia um convite para um evento e me sentia desamparada ao me olhar no espelho dentro de uma estampa de bicho. Não fazia nenhum sentido perder tanto tempo e energia, e ainda sentir frustração na hora de escolher o que usar. Se o que vestimos é a expressão de quem somos ou quem queremos demonstrar ser, não seria possível transformar aquele momento em alegria e satisfação? Senti que precisava resolver o impasse do “com que roupa eu vou” de uma vez por todas, e a maneira mais óbvia era parar de trazer coisas novas para o armário e fazer escolhas conscientes. A primeira coisa que me chamou a atenção foi que eu tinha muitas peças mas nada parecia comigo, nem mesmo as blusas básicas de algodão recém-compradas. Ao longo 
da vida acumulei muitas roupas. Algumas eu comprava por impulso, esquecendo que uma saia, por exemplo, é parte de uma composição. E, assim, quando chegava em casa, não havia acessórios que combinassem com ela. Outras foram adquiridas pela sensação de oportunidade imperdível: dia de megaliquidação ou aqueles casos em que uma pessoa alta como eu finalmente encontra uma calça comprida (e paga, sem nem olhar a estampa). Por vezes era a pressão mesmo: ambiente descolado com música alta, papo de vendedora, um desconto se eu levasse uma peça a mais. Havia itens que nem lembro como foram parar nos cabides, como uma calça boca de sino bordada de paetês, um vestido de bojo roxo e um par de meias finas vermelhas no joelho, que estavam conservadas em um canto do guarda-roupa havia mais de 15 anos. Quando as encontrei, senti que elas 
representavam a pessoa que já fui ou a que gostaria de ser: “Vai que um dia eu preciso, vai que um dia eu tenho esse estilo…”.

Não comprar
Como se já não fosse o bastante, meu perfil acumulador teve outra contribuição: morar por alguns anos nos Estados Unidos. Lá era o paraíso da facilidade de consumo. Eu acabava consumindo por diversão  — passear no shopping era um lazer, e voltar com sacolas cheias era parte do programa. O trabalho vinha depois para fazer tudo caber nos cabides e nas gavetas. De volta a Vitória, Espírito Santo, minha cidade natal, senti vontade de me livrar daquilo que já não era a minha cara. Seria impossível refletir sobre minha identidade sem repensar no guarda-roupa. Foi aí que tracei um objetivo claro do que eu queria: não comprar roupas, nem sapatos, bolsas, acessórios e maquiagens. Coloquei a data de um ano e contei para os amigos. Assim, eles me ajudariam a manter o foco e eu tinha um compromisso a mais de manter a palavra. O segundo passo importante foi não me expor à tentação e parar de entrar em lojas. Não fazia sentido passear em shopping se eu não fosse gastar. Eu sabia que dar a desculpa de ver vitrine seria uma pegadinha e então eu buscava outras opções de lazer, como ir à praia, tomar um café com os amigos ou fazer uma leitura. Além de evitar a ansiedade e impulsos, descobri novos lugares na cidade, estreitei laços de amizade, fiquei mais em contato com a natureza e senti mais controle das emoções. Algum tempo se passou e percebi que só parar de comprar não causaria o impacto que eu esperava. Eu continuava com as gavetas lotadas de saias indianas e camisetas com frases sem sentido, mas optava sempre por outros looks. Eu sabia que não usaria tudo o que eu tinha durante um ano e era mais consciente permitir que outras pessoas fizessem um melhor uso daquilo. Já havia tentado desocupar as gavetas antes, sem sucesso. Então me convenci de que o caminho era o do desapego. Tirei um dia para atacar o armário e separei as peças por tipo (blusas, bermudas, vestidos etc.). Eu provava cada uma e dividia em pilhas por “destinos”: doar, oferecer às amigas, vender e reformar. Nesse processo foi importante ter em mente quando eu tinha usado aquele item pela última vez, com quais outros ele combinava e em quais situações eu realmente usaria de acordo com minha rotina. No fim do dia, eu estava aliviada por saber que aquilo que saía teria um destino certo e que finalmente seria usado por outras pessoas: adeus colares de tricô, vestidos que marcam o umbigo e cintos de elástico de um palmo! Me libertei de mais de 200 peças e, ao final dessa limpeza, me senti leve. Fiquei apenas com as peças de cores frias, cortes mais retos e tecidos lisos confortáveis.

Dificuldades
Quando por acaso eu passava em frente a uma vitrine em promoção, lembrava que se eu desistisse teria que começar do zero. Também pensava em tudo que já me arrependi de ter comprado, como os desconfortáveis tomara que caia. Eu pensava no dinheiro jogado fora e que valia a pena analisar estrategicamente o que adquirir depois da meta cumprida, afinal, blusas com brilho são lindas nos manequins, mas não combinam comigo. Todos esses pensamentos, junto a um grande “preciso mesmo disso?”, ficavam frescos na cabeça e logo a ânsia de comprar passou a ser rara. O desejo consumista foi substituído pela vontade de redescobrir o que vestir. Transformei calças em shorts, tirei mangas de vestidos e troquei botões. Claro que o fato de eu curtir o projeto não signifi cava que todo mundo concordasse. Havia quem não levasse a sério ou provocasse insistindo nos convites de ir ao shopping e me vendendo bijuteria e lingerie. Dizer que era por tempo determinado ajudou, porque as pessoas pareciam encarar como um pequeno experimento. Passado um ano, o desafi o foi vencido e as recompensas são muitas. Hoje é fácil escolher o que vestir, olho para o que tenho com carinho e sei que é o bastante. Conheço mais o meu estilo discreto, otimizei espaços e ganhei tempo na tarefa simples de me arrumar para sair. Até as malas para viagens (longas ou curtas) passaram a ser compactas e bem utilizadas. Estou mais consciente do que usar e planejo bem o que vou precisar. O desafi o também me ajudou a economizar dinheiro e a adquirir vários hábitos saudáveis. Passei a pedalar mais, medito quase todos os dias e parei de pintar os cabelos. Foi como se uma transformação puxasse a outra naturalmente. Eu me sentia animada para tudo que envolvesse mudança de vida. Me manter longe dos centros de comércio deixou ainda mais claro que não compramos só por necessidade, atendemos na maior parte das vezes às demandas geradas pelos sistemas de produção. Afi nal, eles nos sugerem que a felicidade depende da quantidade de coisas que temos, e que merecemos nos dar um salto alto ou uma blusinha vez ou outra porque a vida é dura. É certo que roupas e acessórios passam a imagem de quem somos e do que queremos mostrar de nós: um exemplo disso são as fotos que postamos nas redes sociais. Expressar-se é essencial, e é possível fazer isso de forma mais responsável e coerente. Estar exposta a novas formas de viver e pensar, conhecer pessoas, ler, fazer cursos, tudo infl uencia nas decisões e no estilo de vida que valorizo hoje e como encaro o consumo. E isso me ajudou a me conhecer e a ter mais determinação. Aliviei também a pressão de renovar o guarda-roupa a cada estação e redescobri o prazer nas vivências em vez das coisas. Quando percebi que tinha demais, a solução não foi buscar mais cabides, mas avaliar a necessidade de posse e o que cada um dos objetos signifi cava sobre meu passado e futuro. O caminho que encontrei para ser mais leve foi simplificar. 

CAMILA CARNIELLI é consultora em organização e gestão do tempo e está aprendendo a viver com mais leveza.

06/12/2017 - 11:06

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