A felicidade mora nas relações

Os laços que mantemos com os amigos, a família e a comunidade nos tornam mais alegres e saudáveis. A psicóloga canadense Susan Pinker estuda o poder das conexões sociais sobre nós

Débora Zanelato

A felicidade mora nas relações | <i>Crédito: Divulgação/Vida Simples Digital
A felicidade mora nas relações | Crédito: Divulgação/Vida Simples Digital

Encontrar os amigos com regularidade, estar perto da família ou mesmo cultivar breves conversas com o vizinho enquanto levamos o cachorro para passear pode nos trazer mais alegria e mais saúde do que a gente imagina. Na conversa com a psicóloga canadense Susan Pinker sobre o poder que as conexões sociais têm de nos trazer pertencimento e qualidade de vida não há como não se impressionar; isolamento social, ela me diz, é mais perigoso que fumar, ser hipertenso ou nunca praticar atividade física. Em época de tanta conectividade — afinal, o WhatsApp apita a todo instante, no Instagram curtimos e seguimos a vida de tanta gente —, ela diz que uma conversa olho no olho ainda é essencial. Um abraço, insubstituível. Depois de anos de pesquisa, inclusive nos vilarejos da Sardenha, cheios de pessoas centenárias, Susan colocou no papel todas essas 
descobertas e publicou The Village Effect: Why Face to Face Contact Matters, ainda sem tradução no Brasil. Ela esteve por aqui para divulgar essas ideias a convide do Fronteiras do Pensamento e também tem viajado o mundo para falar que o que mais importa são mesmo as relações.  

Você diz que isolamento social é um problema de saúde. Desde quando isso tem acontecido?
Isolamento social sempre foi um problema porque homens são animais feitos para se desenvolverem e conviverem juntos. Há 10 mil anos vivemos em grupos, e a pior punição possível é excluir um dos membros. Ainda hoje, quando uma turma quer fazer alguém sofrer, ela o exclui. Nas escolas, não sentam na mesma mesa. Então a exclusão afeta nosso corpo, nosso cérebro, e, agora, vivemos um momento em que as pessoas estão vivendo muito mais sozinhas que 40 
anos atrás. Seja por trabalho, seja por estudo, mais gente tem se visto só. E isso influencia nosso risco de estresse e até de ter depressão. 

Viver só faz mal à saúde em muitos aspectos?
Sim. Ao longo dos anos essa solidão traz um impacto à saúde. Por exemplo, se você se sente sozinha ou vive sozinha, ou passa muito tempo só, você tem 30% mais chances de morrer em comparação com pessoas com uma vida social ativa. É mais perigoso estar isolado e se sentir sozinho que fumar diariamente um maço de cigarros, ou nunca praticar atividade física. Ou mesmo que ter hipertensão e não tomar remédios. Pessoas que se comprometem a estar com outras aumentam sua expectativa de vida. 

De que tipo de relações estamos falando: vizinhos, família, amigos...?
Dois tipos diferentes: seus amigos próximos e família, e pessoas da comunidade. É preciso ter ao menos três pessoas com as quais podemos contar em momentos difíceis, pessoas para quem você pode ligar pedindo ajuda. Essa era a média nos anos 1980, por exemplo; hoje, são duas ou menos. Estamos nos tornando mais solitários. Uma coisa que me surpreendeu é que precisamos de pessoas que achamos não precisar. Conversas com a vizinhança enquanto leva seu cachorro para passear, ou com colegas da igreja, do trabalho voluntário, do time de futebol também são muito importantes. Ter contato com uma diversidade de pessoas é muito benéfico. 

Inclusive pequenas conversas com gente desconhecida, por exemplo?
Sim! Eu nunca estive no Brasil antes, estou aqui há quase uma semana. E o que eu já percebi é que aqui não se tem receio em falar com estranhos. Então, se você está em um restaurante, no ponto de ônibus, no avião, essas conversas acontecem. E elas são muito importantes! Mesmo que você nem veja essas pessoas novamente. São importantes porque nos ajudam a relaxar, e porque essa variedade de visões diferentes, idades, classes sociais, referências culturais também faz a diferença. Em um momento em que as pessoas estão cada vez mais polarizadas, ter esse contato é muito valioso. Ajuda a proteger o nosso sistema biológico. E tem o benefício da interação, de se sentir de certa maneira aceito. Eu estava no avião indo de Porto Alegre para o Rio de Janeiro. E sentei entre duas pessoas. Minha intenção era aproveitar aquela hora para trabalhar, mas não foi o que aconteceu. Essas pessoas queriam conversar. E, no final do voo, nós estávamos amigas. É revigorante. Mas acho também que a violência tem deixado as pessoas com receio de manter esse contato. Sair nas ruas e falar com estranhos é algo que não fazemos nem tanto por falta de interesse, mas por não sentirmos que é seguro.

Você diz que o contato olho no olho é muito importante. Por quê?
Porque os olhos expressam emoção e também interesse. Então estamos conversando e sou olhada nos olhos, inconscientemente sinto que você está interessada em mim, no que estou falando. E não é só o olhar, mas o jeito que responde a mim fisicamente, a entonação. São sinais que dizem que o falante é importante. Então isso nos traz o sentimento de sermos valorizados e as relações se aprofundam. E, quando alguém te olha nos olhos, isso também traz o sentimento de que você pode confiar nessa pessoa. Imagine que você está conversando comigo, mas eu estou olhando para o lado. O senso de que pode confi ar em mim fica abalado. Somos capazes de ler as emoções através dos olhos, nem precisamos do rosto todo. Em ligações por Skype ou Facetime, isso é um problema, porque não há contato visual. A câmera está no topo. Então você olha para a pessoa na tela, mas ela não está olhando para você, vocês não estão se olhando. Não há contato olho no olho. A tecnologia nos ajuda a falar, mas a comunicação não é só sobre o conteúdo, existem outros aspectos implícitos em uma conversa. 

E quando a internet é a única forma de comunicação entre amigos que moram longe? Ela não é importante?
Ela é  bem importante, e é um jeito de manter o relacionamento vivo até que se possa ver a pessoa novamente. Então você tem essas pessoas, você as conhece. Voce não está conversando com estranhos. Vocês já tem um relacionamento à parte 
disso. Então a internet ajuda a sustentar isso. Mas é importante que vocês se vejam em um determinado tempo, senão a amizade pode morrer. É como uma planta, que precisa de água, senão morre. Contato é necessário para que as coisas continuem. O legal da internet é que ela faz essa intermediação, só que não serve para repor certas coisas. Se você não pode ver, é uma boa ajuda. Mas não substitui o contato pessoal. Porque a relação não é só sobre o conteúdo do que se diz, também tem o aspecto da presença. É muito mais difícil de transmitir confi ança, empatia e solidariedade através da internet. Se alguém está sofrendo de depressão, uma conversa pela internet muitas vezes não vai ser sufi ciente, mais efi caz que um abraço, por exemplo. O contato físico é essencial, a mensagem que eu transmito face a face, a presença, a sensação de ter alguém ali por você.

Quais efeitos negativos, por exemplo, de manter só relações virtuais?
Acho que há um certo abuso, por exemplo, por parte de pessoas sem habilidades sociais. Elas preferem se comunicar pela internet porque não precisam olhar nos olhos, demonstrar empatia, não precisam ler emoções. É mais fácil porque só precisam digitar. Então é muito comum, ao conhecer uma pessoa depois de teclar com ela, notar que ela é totalmente diferente. E de maneira geral a internet nos dá outra sensação. Por exemplo, eu não sou alta, e já encontrei pessoas que me conheciam pela internet e fi caram surpresas ao verem que sou baixinha. Disseram “Nunca pensei que você fosse tão pequena”. Por quê? Provavelmente porque elas veem minhas opiniões tão fortes, meus posicionamentos, e imaginam alguém fi sicamente assim também. Temos diferentes expectativas através das redes. E é por isso, por exemplo, que aplicativos de paquera podem trazer boas surpresas, mas também podem ser bem mentirosos. Outro desafi o é expressar emoções, e sermos lidos da mesma forma com que escrevemos. Nossas próprias emoções infl uenciam o jeito com que certo conteúdo nos afeta. Às vezes você nem está sendo rude, mas, se quem lê interpreta a partir desse sentimento, a comunicação tem um conflito. 

Ainda em relação a doenças, você diz que até mesmo um tratamento contra o câncer pode ser afetado pelas nossas conexões. Sim, o câncer e outras doenças. As relações são importantes durante o tratamento porque o que aprendemos recentemente é que contato social afeta os hormônios, a química que circula no cérebro, no sangue, e isso infl uencia a imunidade, o sistema imunológico. Quando eu vejo você, eu toco você, coisas acontecem em meu corpo, em meu sistema. Então isso afeta até o jeito que um tumor cresce. Se mais rápido ou menos rápido. Uma rede de apoio, de fato, ajuda a passar por situações assim.  
E como você observa isso na medicina, nos cuidados médicos? Hoje em dia é muito comum que os médicos tenham na tela do computador todos os dados sobre o paciente, mas não saibam olhar para ele. Perguntam algo, mas continuam olhando para a tela enquanto você fala. Se estou depressivo, ou tenho marcas de abuso no meu rosto porque apanhei do meu marido... o médico não vai perceber se não me olhar verdadeiramente. Ele perde parte da comunicação que é feita através da minha presença, do meu corpo. Há médicos que fazem diagnósticos errados porque estão olhando só para uma parte do corpo, ou porque escutam o que o paciente diz, mas não investigam, não fazem as perguntas certas. 

Como podemos começar a mudar o nosso entorno, a valorizar mais as relações?
É uma questão que envolve toda a sociedade, mas precisamos começar de alguma forma, e há coisas básicas que podem ser feitas. Se você está procurando por uma nova casa ou escritório, por exemplo. Muita gente se preocupa com o tamanho do lugar, a quantidade de quartos, se os armários da cozinha são novos ou velhos, quantos carros comporta a garagem. Nós nos apegamos a coisas muito concretas, mas que tal saber se a vizinhaça é gentil, se vizinhos costumam conversar entre si, se tem um lugar próximo no qual possamos nos juntar a mais gente, como um parque, uma praça? Isso afeta nossa qualidade de vida mais do que a gente imagina. Então podemos repensar, por exemplo, qual é o lugar mais desejável para viver. Existem áreas que são como bolhas. Isoladas, sem cafés, sem mercadinhos, sem vizinhança. Completamente escuras e desertas durante a noite. Você acaba vivendo em seu pequeno espaço privado. E eu entendo isso, moramos em grandes cidades, queremos mais privacidade, mas é preciso pensar que contatos sociais também são importantes para meu dia. Ao trocar ideias com mais gente, coisas boas acontecem. 

Políticos também têm papel importante para melhorar o poder das nossas relações e conexões?
Sim, é algo complexo que envolve várias frentes. Inclusive de políticos que olham para isso e enxergam que é importante. É preciso que se destine verba para melhorar o planejamento das cidades. Departamentos municipais precisam cuidar para que tenhamos centros que sejam seguros, em que haja policiamento, e que a polícia não seja corrupta, que vejamos nela alguém em quem confiar. Isso também ajuda nos relacionamentos, porque não ter senso de confiança ou a quem pedir ajuda caso precisemos nos impede de estar em locais públicos. Aquelas áreas construídas nas calçadas, chamadas parklets, são muito interessantes. São lugares na cidade onde as pessoas podem ficar. Porque hoje vejo que se usam restaurantes para fazer isso. Então não são mais lugares em que você vai para comer, pagar e ir embora. Aqui não, as pessoas continuam nas mesas para terem onde conversar. E isso porque não se sentem seguras em outras partes. Então nos restaurantes estão pessoas lendo, grupos fazendo reuniões de trabalho, amigos jogando conversa fora. As pessoas acabam ficando em locais privados, pois é onde elas se sentem mais seguras. As cidades acabaram construindo isso. Então os políticos precisam prover infraestrutura para que uma mudança possa acontecer. 

E em relação ao uso da internet, principalmente em casa?
Podemos limitar o tempo que as crianças passam nas telas. Não permitir que elas fiquem no celular enquanto comem, ou que levem os aparelhos para a cama. É bem difícil controlar isso, inclusive porque nós mesmos temos esse hábito. Ou seja, é mau para meu filho, mas para mim, não... Só que no Vale do Silício, por exemplo, os líderes da tecnologia não permitem que os filhos passem tanto tempo na internet. Constroem casas supertecnológicas e milionárias, mas têm controle do acesso à internet. Assim, ninguém fica online depois de um determinado horário. Por quê? Porque eles sabem que, não só para as crianças mas para eles também, aquilo é viciante, é prejudicial. 

27/02/2018 - 10:55

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