Cemitério de carros

A beleza e a poesia que existe quando paramos para observar a passagem do tempo, nos automóveis e em nós

Henry Milléo

Cemitério de carros | <i>Crédito: Henry Milleo
Cemitério de carros | Crédito: Henry Milleo

O tempo é cruel. Não há nada que — de uma forma ou de outra — não seja mudado por ele. E eu sempre gostei de admirar essa passagem do tempo e o quanto e como as coisas vão se transformando nesses intervalos. Na cidade onde nasci, Piraí do Sul, interior do Paraná, existem alguns terrenos nos quais os carros são colocados para ficarem ali e, com o passar dos anos, serem esquecidos. Para mim, um ferro-velho é um cemitério onde jazem seres de metal. Nesses lugares, automóveis criados para encurtar distâncias e percorrer caminhos, para serem símbolo de liberdade e também de status, um dia descansam estáticos, como navios naufragados. Caminhar entre eles evoca um silêncio. É como andar entre túmulos. Instintivamente adotamos um ar solene, respeitoso e silencioso. Talvez porque entendamos a ação que o tempo causa em tudo que existe e, de certa forma, nos assemelhemos àquelas estruturas de metal consumidas pelo passar dos dias, com a ferrugem tomando conta de suas peles e o pó se acumulando em suas carcaças dispostas aleatoriamente no local onde seu último suspiro lhes permitiu repousar. Esse ferro-velho, em especial, é um lugar que sempre me chamou a atenção. Ele existe desde a minha infância. Quando eu passava, caminhando, gostava de subir no muro e ficar espiando as kombis e outros carros. Mas nunca havia entrado e me aproximado. Tinha um certo receio. Era um lugar que me instigava mas me assustava na mesma proporção. Porém, recentemente, quando passei novamente pela cidade onde nasci e cresci, decidi ir até lá e conversar com o dono do local. E ele me permitiu entrar e fotografar, perceber a vida e a morte do outro lado do portão. Muitos dos carros estão no terreno desde a minha meninice, como as kombis que ganham tons e mais tons de ferrugem sobrepostos. Então fica sempre essa questão de haver tantas marcas em mim quanto nos carros.

HENRY MILLÉO é fotógrafo e hoje vive na capital Curitiba. Para conhecê-lo mais: www.henrymilleo.com.br

29/01/2018 - 14:02

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