Dilemas: Qual cor combina com a minha casa?

A escolha da cor das paredes, dos móveis e de tudo que compõe uma casa depende mais de nós e dos nossos humores do que das normas ditadas pela moda

Texto: Chris Campos Lettering: Tiago Gouvêa

Qual cor combina com a minha casa? | <i>Crédito: Divulgação/Vida Simples Digital
Qual cor combina com a minha casa? | Crédito: Divulgação/Vida Simples Digital

A escolha da cor das paredes, dos móveis e de tudo que compõe uma casa depende mais de nós e dos nossos humores do que das normas ditadas pela moda. É preciso se questionar sobre qual tom tem a ver com seu momento atual, com a sua história, sua alma. Do branco ao vermelho, qualquer escolha é possível desde que ela o represente
 

Para responder à pergunta que abre este texto é preciso fazer outra primeiro: qual cor combina mais com a minha vida hoje? Sim, porque nem sempre somos amarelos de alma ou conseguimos enfrentar o vermelho de uma paixão. Azul da cor do mar? Pode ser. Mas só se eu quiser brincar de férias na praia mesmo estando com os pés bem fincados no asfalto da cidade grande. A escolha de uma, de duas, de várias ou de quase nenhuma cor para emoldurar nosso cenário cotidiano nem sempre é óbvia. É preciso sentir o chamado da cor, sabe como? Estar aberto à possibilidade festiva de encarar uma cozinha pink ou aos arrepios sensoriais despertados por um quarto maravilhoso pintado de azul-escuro, quase preto. Mas importante mesmo é sempre tomar um caminho. Escolher uma trilha que leve para dentro da sua casa um pouco mais de cor e, consequentemente, de amor, alegria, entusiasmo, calma, leveza, concentração, talvez? Cada cor tem conexão direta com uma série de experiências ou associações. Um determinado tom de amarelo pode remeter à cozinha da casa da sua mãe ou a um par de botas que você tinha quando era bem pequenino e que o acompanhou em algumas aventuras ao longo da infância. Mas as cores também têm um significado universal. O vermelho para seduzir, o branco para indicar pureza, o luto do preto... Entender essas associações provocadas pelas cores é uma maneira de entender a nós mesmos e uma arma poderosa na hora de indicar para os outros quem somos. Ou seja: a cor tem muito a ver com quem você é. Por que então não experimentar novas sensações, impressões e descobertas que ela pode proporcionar?

Tempo certo
Existe um tempo certo para cada cor existir na sua casa. Se em uma década estamos ultrassociáveis, cercados de amigos e de festas, em outra podemos estar mais inclinados ao sossego, à introspecção, à quietude. É claro que cenários tão diversos em nossa vida pedem cores também diferentes. O que não muda é o fato de as cores serem poderosos elementos na hora de mudar o clima de uma habitação. Não por acaso morremos de amores por alguns tons, enquanto repudiamos outros com todas as forças. Tem quem goste de todas elas, verdade… Mas gostar não significa necessariamente deixar-se dominar pela influência de um determinado tom. E mais: sair colorindo móveis e paredes com ele. Para que a cor tenha uma influência sobre o seu modo de vida e atue poderosamente dentro de seus próprios domínios é preciso ousar. Sair da caixa e experimentar. É, principalmente, topar o desafio de errar, às vezes gloriosamente, para uma hora acertar na mosca. Eleger o tom mais inspirador da sua paleta de cores pessoal para embalar a história que mais o representa no seu atual momento de vida. Quem tentou essa pretensa ousadia, garanto, não se arrependeu. Tive dois modelos de avós que influenciaram muito a minha maneira de encarar as cores dentro de casa. Bancando a terapeuta de mim mesma, arrisco dizer que por causa delas (ou de suas casas) é que iniciei um caso de amor com o morar, com o refúgio, com o ninho — ou qualquer outro nome que defina a casa que escolhemos para chamar de nossa —, e que vai além do colorido. A avó número 1 era a diva do lar em pessoa, senhora absoluta de uma casa dos anos 1950 com duas rampas de acesso decoradas com cascalhos cerâmicos nas cores branca e preta. Ao atravessar a porta de entrada, a viagem pelo universo colorido que ela escolheu, com atenção máxima em cada detalhe, tinha continuidade. Passávamos pelo azul-celeste da sala de visitas, enfeitada com cortinas de listras do mesmo tom das paredes e misturadas a um tom mágico de amarelo-mostarda. A cozinha tinha armários com margaridas amarelo-ovo sobre um fundo turquesa e uma bancada de mármore de quase 3 metros de um branco tão intenso que era preciso desviar o olhar em dias ensolarados demais. Na ala íntima da casa, a festa das cores seguia em quartos pincelados de verde-água, rosa-antigo, amarelo bem clarinho e azul (sim, rolava uma questão com o azul naquela casa). O banheiro das moças era rosa e preto; o dos rapazes, verde-água misturado a um mosaico de pedrinhas de mármore que lembrava o chão de algum riacho da Chapada Diamantina — e aqui vale uma comparação: quando estive, no passado,  na Chapada Diamantina, na Bahia, achei que o chão de pedrinhas do riacho de águas transparentes era muito parecido com o banheiro do meu avô. Uma questão de respeito à ordem dos acontecimentos… A avó número 2 vivia em um apartamento moderno em que a única cor que permaneceu nas paredes ao longo de mais de três décadas foi um tom muito claro de bege, quase branco. Os móveis eram neutros. As cortinas, igualmente brancas. O máximo da ousadia era o espelho que duplicava as dimensões de uma sala de jantar tamanho-padrão. Não tinha muita cor ali, mas tinha um carpete verde-musgo bem interessante. A poltrona listradinha de marrom, amarelo e branco também tinha seu charme. Mas o que eu gostava mesmo era do brilho dos lustres de cristal, que, na ausência de cor, traziam luz de sobra para as duas salas da moradia. O resultado dessa mescla de referências trazidas da infância foi adaptado de diversas maneiras ao longo das muitas trocas de casa que já fiz na vida. Já vivi um momento almodovariano, com paredes coloridas contrastando com portas e batentes também pintados em tons fortes (culpa da avó número 1, suspeito…). Já fui Amélie Poulain por um tempo, com as cores do filme circulando livremente pelos ambientes de um apartamento em que fui bastante feliz. Mais recentemente fui nórdica sem limites (influência da avó número 2, certeza), e a casa cercada de verde por todos os lados permaneceu branca, espartana por um par de anos. A única cor que se via era a das plantas avistadas pelo janelão da sala de estar. Neste momento estou na zona de transição, como dizem por aí. Ainda restam ambientes quase nórdicos em casa. Mas, aos poucos, as paredes foram coloridas por objetos sortidos exibidos como se estivessem em uma galeria de arte. Também abri espaço para um pouco de cor e posso dizer que a cozinha de paredes rosa-chiclete não me deixa esquecer minha essência festiva, de pessoa que gosta de estar rodeada de gente, preferencialmente entre gargalhadas e comida gostosa. Ah! E os lustres de cristal da minha avó número 2, com suas contas desprovidas de cor, irradiam luz no meu quarto que resiste branquinho, mas que já pede cor há um tempo. É bem provável que me entregue à experiência sexy dos tons escuros desta vez. Se der tudo errado, é só pintar de branco.

A série Dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”.  A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.

A The School of Life explora questões fundamentais da vida em torno de temas como trabalho, amor, sociedade, família, cultura e autoconhecimento. Foi fundada em Londres, em 2008, e chegou por aqui em 2013. Atualmente, há aulas regulares em São Paulo e no Rio. Para saber mais: theschooloflife.com/saopaulo.

Chris Campos é jornalista criadora de sites e blogs de decoração com olhar mais delicado, autora dos livros Casa da Chris (Record), Assim Que Te Conquistei (Versar) e Almanaque das Festas Instantâneas (Memória Visual).  Na The School of Life, ela ministra a deliciosa aula A Arte de Morar.

02/03/2018 - 11:41

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