Um homem, muitas vidas

É sempre possível reinventar a vida, trilhar novos rumos e descobrir mais e mais encruzilhadas

Diana Corso

Quantas vidas ele teve? Todas as que quis | <i>Crédito: iStock
Quantas vidas ele teve? Todas as que quis | Crédito: iStock

Quantas vezes deixamos de rea­lizar algum anseio por achar que é tarde para recomeçar ou transformar nossa vida? Encruzilhadas, opções estão sempre aparecendo, mas falta coragem. Muitas vezes sou procurada para ajudar nessas curvas de destino. A teoria me diz que é possível, mas nada como uma história verdadeira para acreditar.

Para o primogênito de um ferroviário, a universidade oferecia poucas opções: médico, advogado, engenheiro. Naquela época, arquiteto e psicólogo não eram destinos plausíveis. Estudou engenharia, militou em tempos de repressão. Apaixonou-se por uma mineira, companheira de política, e, perseguidos, tiveram que sumir. Foram parar no interior. Mas as aspirações estéticas e ideológicas contaminavam o pragmatismo do engenheiro civil. Projetou formas inéditas e com elas desenhou o campus da universidade onde leciona até hoje, o museu antropológico, casas. Era arquiteto, educador e político. Basta? Para ele, não. Guloso de novidades, foi analisar-se. Apaixonou-se novamente, dessa vez pelo caminho aberto por Freud. Nada o impediu de voltar para a mesma universidade onde é professor, cursou psicologia, estuda psicanálise. Já tinha quase 60 quando se formou e hoje tornou-se psicanalista. Provavelmente seus pacientes têm oportunidade de projetar para suas vidas formas tão criativas quanto as que ele encontrou.

Quantas vidas ele teve? Todas as que quis. Talvez, relativo à vocação, possa se aquietar, pois um psicanalista vive muitas vidas além da sua. Quem clinica é testemunha e promotor de viradas surpreendentes ou, ao contrário, de situações em que se reencontra o eixo anterior, que parecia perdido.

Ele não é meu paciente, é meu tio, e graças a ele não tenho dúvida de que a vocação é algo muito maior que um conjunto de dons. Aprendi que o norte são desejos inesperados, inexplicáveis, e sobre a tenacidade em realizá-los.

Se para um homem cujas opções cabiam nos dedos de uma mão a vida abriu-se em leque, imagine hoje! Além das mais inusitadas profissões possíveis, o jovem sabe que as oportunidades e vivências o transformarão de modo imprevisível. Outrora, poucos ousavam sonhar, descobrir novidades em si mesmo. Mas não há por que se apoquentar, podemos nos inspirar nessa e em tantas histórias assim. Para seu pai, chefe de estação, os caminhos seguiam os trilhos, não havia como nem por que descarrilhar. O filho, pioneiro de um tempo de roteiros indeterminados, descobriu o número infinito de linhas com que se pode projetar e percorrer a própria existência. Uma história e tanto, que hoje pode ser a de qualquer um. b

Diana Corso encontrou na escrita uma surpresa do destino. www.marioedianacorso.com

13/01/2017 - 15:20

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Revista Vida Simples