Um novo começo

Às vezes tenho a impressão de que não estou fazendo a mesma coisa, e sim sempre começando algo novo, mesmo que seja a mesma tarefa, no mesmo lugar

Eugenio Mussak

Eu me sentia muito bem por ter começado de novo e ter vencido as evidências em contrário | <i>Crédito: iStock
Eu me sentia muito bem por ter começado de novo e ter vencido as evidências em contrário | Crédito: iStock

Em 40 anos de carreira musical, o engenheiro químico (pode?) Ivan Lins produziu maravilhas como Madalena, O Amor É Meu País e Abre Alas. Como acontece com todos os poetas e compositores, ele tocou cada pessoa de modo diferente. Em meu caso, foi a música Começar de Novo, que Ivan compôs em parceria com Vitor Martins em 1979.

Foi naquele ano que fiz uma das muitas mudanças em minha vida, indo morar em Florianópolis (SC), para onde eu já viajava semanalmente para dar aulas em um curso pré-vestibular do qual era sócio. Como aquela sede exigia mais atenção, mudei minha residência oficial para a ilha. Lembro-me bem de estar atravessando a ponte Hercílio Luz, que ainda funcionava (foi interditada em 1982), quando do rádio do carro começou a sair a voz rouca da Simone dizendo: "Começar de novo e contar comigo/ Vai valer a pena ter amanhecido/ Ter me rebelado, ter me debatido/ Ter me machucado, ter sobrevivido...".

Foi um momento mágico, pois, apesar de bastante jovem, eu já vinha de uma experiência de vida cheia de mudanças e recomeços. Quando menino, morei na Argentina, onde meu pai tinha negócios. A revolução militar e a crise econômica que se instalaram naquele país fizeram a família retornar ao Brasil totalmente sem recursos, de um dia para outro.

Eu tinha 10 anos, e enfrentei, pela primeira vez, a ideia do começar de novo. Acho que foi o pior dos recomeços, pois me sentia à deriva, tinha perdido todas as referências. Lembro que quando ia à escola levava comigo, além dos cadernos e do lanche, revolta, vergonha e dificuldade de comunicação - até então minha língua tinha sido outra. Ainda por cima tive de enfrentar a intolerância e implicância dos terríveis pré-adolescentes do colégio (hoje isso seria chamado de bullying). Nessa ocasião eu só podia contar comigo, mais ninguém.

Uma década e meia depois, lá estava eu, com um diploma de médico, um negócio próprio, um livro publicado, casado e com dois filhos. Talvez por isso, quando Simone disse "Ter virado a mesa, ter me conhecido/ Ter virado o barco, ter me socorrido", parecia que estava falando só comigo.

Eu me sentia muito bem por ter começado de novo e ter vencido as evidências em contrário. Foi a primeira vez que tive a convicção de que uma mudança radical pode ser fonte de sofrimento enquanto está acontecendo, mas depois transformar-se em uma maravilhosa oportunidade para se criar uma vida melhor. É quase uma lei cósmica.

Mas o começar de novo não se transforma em um sentimento de inconstância, de falta de raízes?

A impermanência é uma das marcas de nosso tempo. Tudo muda rápido, e quem aceita essa realidade e consegue exercitar sua capacidade de adaptação já sai com vantagens. De certa forma, quando acordamos na manhã de cada dia, começamos de novo nossa vida. Às vezes começamos pouca coisa de novo, e damos continuidade ao que já fazíamos, mantendo a rotina e construindo estabilidade. Mas às vezes acordamos de manhã e estamos em um novo lugar, ou iniciamos em um novo emprego, ou viramos a cabeça e vemos uma nova pessoa no travesseiro ao lado. Sempre começamos de novo, o que varia é a intensidade.

Naquele ano eu estava começando de novo muita coisa. Tinha me formado em medicina, mas não havia chegado a exercer, pois, na ocasião, eu já era dono de uma escola que crescia. Mas, como começar de novo é comigo mesmo, 15 anos depois resolvi dar-me o direito de experimentar a profissão de médico, e lá fui eu voltar a estudar, aplicando tempo e recursos aos livros de medicina, alguns para recordar, outros para entender a evolução dos anos. Apesar de ser médico, foi mais um começar de novo.

Minha fase de médico foi de grande aprendizado. Entrar em contato com o sofrimento, conhecer a pessoa que está por trás da máscara dos cargos e das convenções sociais, perceber que não se medica o corpo sem se medicar também a alma foram grandes descobertas. Só que algo revirava em meu espírito a cada consulta, e a cada fim de expediente eu me convencia de que minha vocação não estava ali no consultório e sim na sala de aula, no convívio com alunos, na fabulosa galáxia de buscas e encontros que acontecem no universo da educação. Eu precisava voltar. E começar de novo. Depois de cinco anos dedicados ao mundo de Hipócrates, voltei a Sócrates.

Em meados da década de 1990, surgia no mundo uma nova tendência, a educação corporativa. Eu precisava conhecer aquilo. O que significava mais uma vez voltar a estudar, entender o funcionamento das grandes empresas, suas necessidades e desejos, suas qualidades e defeitos. Durante o MBA percebi meus olhos brilhando de novo com as possibilidades que surgiam. Estava recomeçando mais uma vez, agora com bem mais de 40 anos. Mas a idade não importava. O que interessava era a descoberta, a aventura, o risco calculado, as possibilidades infinitas que a vida mais uma vez colocava diante de meus pés.

Começar de novo não é cada vez mais difícil, já que buscamos conforto?

Lembro como se fosse hoje. Em março de 1998 eu desembarquei no aeroporto de Guarulhos vindo dos Estados Unidos, onde tinha passado um tempo estudando, trabalhando e me preparando para a nova fase, em que eu me dedicaria a ser um educador corporativo. Na verdade, eu tinha me proposto um autoexílio, algo a que hoje está na moda chamar de sabático. Eu sabia que, para começar essa nova carreira, eu tinha que sair do conforto da Curitiba e passar a morar em São Paulo definitivamente. Essa perspectiva era um pouco assustadora, pois pouco conhecia a maior cidade do Brasil. Estava cheio de energia e ideias, mas também tinha o peito cheio de dúvidas e medos. Eu tinha que começar de novo e só podia contar comigo.

Ainda no avião, as primeiras luzes da manhã já iluminavam solo brasileiro. Eu olhava para a frente, mas não conseguia não respeitar o que ficou para trás. Aproveitando a passividade de um passageiro de avião, que só o que tem a fazer é apreciar a paisagem e pensar, fiz um rápido resumo da história de minha vida, e de repente me dei conta de que eu vivi, sim, em um eterno e cíclico recomeçar. Lembrei, por exemplo, que quando concluí o colégio, ainda um adolescente, resolvi conhecer o Rio de Janeiro, onde acabei por morar um ano, entendendo a ginga carioca, praticando inglês na loja em que trabalhei atendendo turistas e aprendendo a surfar em longas pranchas de madeira no Arpoador.

Passado o período no Rio, voltei a Curitiba para encarar uma faculdade. Mas, para pagar o cursinho, de onde o dinheiro? Solução: dar aulas particulares aos alunos que iam prestar o exame de admissão, uma prova que faziam os aspirantes ao Ginásio (que coisa antiga, meu Deus!). Esse foi um recomeço que marcou o resto de minha vida, pois nunca mais parei de ensinar - foi uma paixão à primeira vista que desde então jamais me abandonou. E agora estava eu voltando às origens, ainda que sem saber bem como começar. Só podia contar comigo, mas sabia que precisaria encontrar aliados, espaços que me recebessem e servissem de base de lançamento para minhas ideias. A solução foi bater em algumas portas, empresas de consultoria, faculdades.

E eu não poderia ter encontrado um aliado melhor. Foi na Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo que encontrei pessoas dispostas a ouvir minhas ideias muito particulares sobre o desenvolvimento de pessoas. "Você pode ficar por aqui e participar das aulas como ouvinte", me disseram. "Você pode participar desse projeto como assistente", foi a primeira ordem que eu acatei, alegre. E fui para a reunião carregando a pasta do notebook do coordenador do trabalho.

Eu, quase cinquentão, ex-empresário, ex-médico, ex-riquinho, estava lá, começando de novo, por baixo, como convém. Mais de uma década já se foi, muita água já passou por baixo da Hercílio Luz, nosso planetinha deu milhares de voltas, e nós continuamos começando de novo todos os dias. Sim, tenho experiência nessa área e posso afirmar: há poucas coisas mais edificantes para o caráter que começar de novo, relevando as mágoas, engolindo as lágrimas e lançando um olhar otimista para o futuro. Começar de novo é uma fantástica forma de libertação. Provavelmente a melhor de todas.

13/01/2017 - 17:56

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Revista Vida Simples