O útero é o nosso coração

Kareemi convida mulheres a se olharem com mais carinho, enxergando na menstruação uma importante ferramenta de autoconhecimento e amor –

Débora Zanelato

O útero é o nosso coração | <i>Crédito: Vida Simples Digital
O útero é o nosso coração | Crédito: Vida Simples Digital

“o útero é o principal receptor  das emoções femininas. É como  se ele fosse o coração da mulher”, diz Kareemi, criadora do conceito  de ginecologia emocional. Ela tem proposto um olhar mais  acolhedor para o corpo feminino através de uma sabedoria ancestral que diz que o ciclo menstrual  é uma valiosa ferramenta para o autoconhecimento. Por meio de uma observação gentil, ela acredita que as mulheres podem potencializar sua energia criativa, ter mais amor-próprio  e até evitar o surgimento  de doenças ginecológicas. 

Para a ginecologia emocional, o útero tem  relação com as emoções?
Sim, ele é o grande receptor daquilo que a mulher sente. É muito importante que tenhamos consciência de que muitos problemas ginecológicos chegam a partir de emoções. É o nosso campo emocional impactando nosso útero, que responde. Então vi muitas mulheres procurando tratamentos sem terem consciência disso. Hoje  o meu trabalho é despertar esse saber para que muitas mulheres  não precisem de intervenções. 

O que a sabedoria ancestral  diz sobre a mulher?
Nas sociedades antigas as mulheres é que eram as líderes das tribos. E isso porque elas tinham útero. Não porque geravam filhos, mas porque o ciclo menstrual é uma bússola comportamental, que traz muito conhecimento e poder para a mulher quando ela entende como ele funciona. Imagine alguém completamente conectada com  a sua natureza cíclica, conhecendo seu corpo, e conectada com a natureza externa. Ela abria a intuição e o conhecimento de uma forma incrível. Então o homem tinha um papel importante nas aldeias e a mulher é quem dava  as diretrizes do que a tribo tinha  que fazer nos próximos 28 dias.

 E isso tem uma relação com a Lua?
Sim! Quando dizem que as mulheres são de lua, elas são mesmo. E isso não é um problema. Se você conhecer a fundo o seu ciclo, você vai saber que há quatro mulheres em você durante o mês, cada uma com suas características. Na ancestralidade, a menstruação era chamada de lua, e quando a mulher ganha esse conhecimento, ela percebe as diferenças entre a lua cheia, a lua nova... E assim ela é capaz de organizar a sua semana com programas que favoreçam essa fase. Nos dias da menstruação, nosso corpo pede recolhimento. 

Como é possível adequar isso com a rotina de trabalho, casa, filhos?
Não precisamos separar as coisas, nem morar numa floresta. É possível chegar a um equilíbrio ao criar um espaço interno. Quando a mulher se conhece, é capaz de encontrar recursos dentro da sua realidade. Nos dias da menstruação, por exemplo, pode tentar dormir mais cedo, ou evitar programas sociais intensos. Pode comer algo de que gosta, se dar carinho. Hoje os trabalhos são mais flexíveis, então ela pode optar por um dia de home office ou, mesmo no escritório,  ela se preservar mais – até ficar  com o fone de ouvido já ajuda. 

E a pílula anticoncepcional?
Eu vejo que as mulheres, quando param com a pílula, mudam completamente. Não há nenhuma que não tenha sentido diferença. É importante saber que todos os sintomas que surgem depois são normais, servem para mostrar o que as bombas hormonais estavam fazendo. Mas, se a mulher bancar esses sintomas, que são temporários, ela verá que vale  a pena. Depois, ela percebe  o quão desconectada estava do  seu feminino. Até a libido muda.

Por que você diz que o ciclo menstrual é uma bússola comportamental?
O ciclo mostra muita coisa. Quando desregula, quando tem mais ou menos sangue. Ele dá sinais de como foi seu ritmo de vida. A menstruação não é só uma limpeza física. Mas emocional, energética e espiritual. Se eu tive um mês em que eu tive muito estresse, trabalhei demais, não me respeitei, não olhei pra mim, meu corpo pode precisar fazer essa faxina antes, por exemplo. 
Como a TPM pode nos ajudar? Eu digo que a TPM não deve ser vista como Tensão Pré-Menstrual, mas Tempo para Meditar. Antes de ter esse conhecimento, eu achava que na minha TPM eu ficava irritada e impaciente. Mas não! Hoje sei que a TPM traz uma característica que já é sua apenas de forma mais acentuada para você poder se ver, se olhar. E saber do que precisa cuidar no próximo ciclo. Eu vejo que as mulheres que mais sofrem de cólica, por exemplo, são as que mais odeiam menstruar. E a cólica é o útero dizendo que precisa ser olhado. É claro que não é da noite para o dia que você vai amar a sua menstruação. Mas tendo acesso  a isso a mulher vê que faz sentido. Quando tenho muita cólica, sei  que foi um mês que me exigiu ser mais competitiva, ter mais poder.  Então esse período não é de tensão (que até cria o problema!), mas  de reflexão e meditação.  

Qual a relação disso tudo com doenças ginecológicas?
Já é sabido que as emoções têm relação com nossas doenças. O que você pensa você sente. E é dado um comando para as suas células. Dentro da ginecologia emocional não existe uma cartilha dizendo o que cada doença é. Mas um caso muito comum é a síndrome dos ovários policísticos, da qual eu me curei. Vejo relação com mulheres que precism ter um comportamento muitas vezes mais masculino, que trabalham em grandes corporações, que precisam se impor, por exemplo. Ganhando mais autoconhecimento, podemos avaliar como estamos vivendo.  

E em relação à menopausa?
Percebo que os sintomas são mais ou menos intensos de acordo com  a ideia que você tem da menopausa. Se ela é tida como o fim da beleza, da fertilidade, do poder de sedução, o processo é mais difícil. Se olharmos para a história, as mulheres mais respeitadas não eram as jovens, mas as anciãs. A sociedade moderna não respeita isso, mas, se você souber desse conhecimento, pode mudar  a sua vida

31/10/2017 - 15:16

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Revista Vida Simples