Dilemas: cabeça quente

Tudo bem tomar uma decisão com a cabeça quente?

Cabeça quente | <i>Crédito: Vida Simples Digital
Cabeça quente | Crédito: Vida Simples Digital

Vivemos uma cultura em que manter a calma, diante de qualquer situação estressante ou irritante, é a alternativa mais equilibrada. Ficar tranquilo e embotar suas emoções diante de situações incômodas talvez não seja a solução – e explodir sempre também não. O que vale é se manter consciente, seja lá qual for a sua reação.

 

Não é de estranhar que, às vezes, a gente perca a calma dando um vexame público e piorando uma situação já difícil. Parece que a maravilhosa imagem de alguém que permanece calmo enquanto tem seu trabalho interrompido pela quinta ligação do telemarketing numa única manhã se esfacelou. Não seria ótimo respirar compaixão quando o elevador para no andar e o rapaz segura a porta, toda manhã, e todos ali dentro precisam esperar o filho dele correr de volta ao apartamento para procurar a lição de casa? Além disso, a vida seria linda se o chefe parasse de mudar as regras, de equipe e de ideia sobre quais são as prioridades a cada seis meses! Não é surpreendente explodirmos às vezes. Um lado nosso pode já ter abraçado a ideia atual de que devemos permanecer calmos. A tendência cultural atual pende muito para que as pessoas mantenham o equilíbrio emocional e pensem positivo, mas e se eu tiver “sangue quente”? A maioria de nós nasceu no Brasil, não no Tibete ou no Butão. Qual é o valor de “manter a calma” se já explodi? Para completar, muitas mudanças têm acontecido nos últimos anos – em todos os níveis da sociedade brasileira. É muito fácil cair no hábito de ser cada vez mais impaciente e esquentado. A pressão interna aumenta ainda mais se, por acaso, recebo um pagamento mensal que reflete, em parte, meu profissionalismo e minha capacidade de manter tudo sob controle em momentos de estresse. Meu chefe, por outro lado, pode não ter dificuldade alguma em perder a calma quando más notícias estão circulando. A boa notícia é que a ciência parece ter encontrado uma solução para esses infortúnios. No futuro próximo, dizem que planetas distantes se tornarão habitáveis para que as pessoas vivam a milhões de quilômetros daqui. Então poderemos ver as naves se encherem com aqueles que não concordam com nosso jeito, depois de ganharem uma passagem só de ida. Esse cenário também não dará certo no longo prazo: quem escolherá quem vai? Nossa capacidade de tomar boas decisões fica desconfortavelmente entre a cruz e a espada e, provavelmente para todos nós, nossas próprias emoções atrapalham a tranquilidade. Alguns recorrem à religião para orientação. A mensagem nela pode, frequentemente, julgar a raiva e perturbações emocionais como incômodas, erradas e levar a um futuro muito sombrio. Junte a isso os diversos gurus espirituais orientais que nos pedem para meditar, mas que, nos últimos anos, foram rejeitados pelos discípulos pelo péssimo temperamento e táticas de poder. Podemos saber que precisamos ser mais inteligentes emocionalmente e conhecer a ideia de que é possível expressar a raiva de maneiras limpas e úteis, mas como? Por que não liberar a raiva, expressá-la e arrumar a bagunça depois, com uma garrafa de vinho? Segundo pesquisas americanas, os millennials (aqueles entre 18 e 33 anos) são, de longe, os mais estressados. Entretanto, de acordo com esses estudos, eles tendem a optar, com frequência, por estratégias evasivas ou escapistas quando enfrentam o estresse. Em média, preferem lidar com isso usando redes sociais, vendo TV e ouvindo música. Dá para culpá-los? No curto prazo, são soluções boas. Ao mesmo tempo, minha experiência, após 15 anos conduzindo programas de redução de estresse com base no mindfulness (atenção plena), mostra que há cada vez mais jovens indo a esses cursos, procurando ir fundo em sua experiência para ter soluções mais autênticas. Mesmo assim, eles são minoria. Eu diria que, quando somos mais jovens, é mais fácil tentar se desligar do estresse ou até ter orgulho de explosões de raiva. No entanto, uma vez a cada 33 anos (de acordo com os estudos americanos), as coisas parecem mudar. Essa tendência se encaixa com minha vivência em meus cursos. Ser quem somos, humanos, nos coloca em contato com nossa instabilidade inerente várias vezes. Você pode optar por se distrair, mas a vida é intensa. Se você está realmente vivendo, terá de enfrentar as perguntas inevitáveis que ela apresenta. Uma delas é: vale ou não a pena tomar uma decisão com a cabeça quente? No dia a dia, somos forçados a encarar o que estamos fazendo conosco e com os outros, antes, durante e depois de perder a calma. Quando sentimos os efeitos palpáveis de nos mantermos como escravos de nossas reações automáticas, se as considerarmos chacoalhões inerentes da vida, começaremos a ficar cada vez mais conscientes. Para o ser humano médio, isso parece demorar um pouco. No Brasil, a maioria das pessoas que faz cursos dedicados a lidar com estresse em geral tem mais de 30 anos. Com isso, aprendi que, emocionalmente, agimos como aqueles que desmaiaram em algum momento do passado e, agora, chegando à meia-idade, estão recobrando os sentidos. Depois de um tempo, alguns de nós parecem se cansar de fugir da situação real. Toda vez que explodo será mais fácil, para mim, explodir da próxima vez. Não é um ensino religioso, é a verdade! As pessoas mais motivadas que conheço nesses cursos são movidas por uma sensação de que deve haver algo dentro de nós maior e melhor do que simplesmente repetir esses mesmos padrões emocionais. Isso não é algo intelectual. Elas já se conscientizaram do que está acontecendo e querem saber mais. Sentir que você está à mercê de seus hábitos impulsivos não é muito satisfatório quando se tem 30 e poucos anos. Se você já tem o hábito de perder o controle em situações estressantes, não adianta pensar que um novo curso, um livro ou um guru irão libertá-lo disso. No futuro próximo, é provável que sinta raiva de novo. Então, se quiser saber se vale ou não a pena tomar uma decisão com a cabeça quente, tente algo: dê seis meses a si mesmo. Em vez de tentar não explodir ou agradar o chefe, vá em frente: exploda! Só que, dessa vez, faça isso de forma consciente. Participe do processo: início, meio e fim. Sinta, pela primeira vez, como é você explodindo – na fonte e enquanto isso acontece. Não observe de fora, como se fosse um astronauta. Isso é o que os psicólogos chamam de dissociação e vem com alguns efeitos colaterais desagradáveis. Sinta tudo, de dentro para fora. Pergunte a si mesmo quando está no olho do furacão: consigo ver o que está acontecendo de forma objetiva? Fique assim e continue investigando sua capacidade de ver o que está ocorrendo – até a chateação passar. Faça isso durante seis meses, todos os dias, gradualmente ganhando cada vez mais autoconsciência enquanto perde as estribeiras. Dedique-se a saber mais sobre si mesmo. Não há, de verdade, uma resposta simples. Assim, sugiro que você viva a questão.

A série dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”.  A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.

A the school of life explora questões fundamentais da vida em torno de temas como trabalho, amor, sociedade, família, cultura e autoconhecimento. Foi fundada em Londres, em 2008, e chegou por aqui em 2013. Atualmente, há aulas regulares em São Paulo e no Rio. Para saber mais: theschooloflife.com/saopaulo.

Stephen Little é físico, budista ordenado, especialista em atenção plena  e diretor de aprendizagem na The School of Life no Brasil, onde dá aulas de mindfulness. É uma das pessoas responsáveis pela introdução do método por aqui e tem se dedicado à pesquisa e consultoria na área há mais de 20 anos.

03/11/2017 - 11:19

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