Dieta gostosa

Assuma a responsabilidade pelo que você come e deguste o resultado de suas escolhas

Leandro Quintanilha

A dieta não tem que ter esse peso desanimador | <i>Crédito: Vida Simples Digital
A dieta não tem que ter esse peso desanimador | Crédito: Vida Simples Digital

Talvez você conheça (ou seja) uma dessas raras pessoas que naturalmente comem pouco – mas será que conhece alguém que não goste de comer? Hum, não sei se existe. A gente não come só para saciar necessidades fisiológicas, mas também porque é uma delícia. E, desde cedo, todo mundo aprende que comida se serve com emoções. Criança malcriada fica sem sobremesa, quem se comporta ganha um doce. Por isso a idéia de fazer dieta pode levá-lo logo a pensar em fome, sacrifício, punição. Está no nosso imaginário: a palavra dieta já vem relacionada a uma folha de alface acompanhada de uma fatia de queijo branco – nada apetitoso.
  Acontece que a dieta não tem que ter esse peso desanimador. Porque a dieta ideal é aquela que leva em conta seus gostos e inclui uma ampla variedade de alimentos com calorias e nutrientes suficientes para uma boa saúde. Pense bem: controlar o peso, preocupar-se com o valor nutricional dos alimentos e mesmo ter vaidade são sinais de boa auto-estima. Com informação, você pára de reproduzir, sem pensar, hábitos alimentares herdados da família ou impostos pela publicidade. Quando, claro, isso é vivido com tranqüilidade. A palavra dieta, hoje tão estigmatizada, significava originalmente “modo de vida”. Entre os médicos gregos da Antiguidade, o vocábulo díaita servia para todos os hábitos do dia-a-dia: comer, beber, dormir, namorar, exercitar-se e até pensar. Por essa óptica, dieta é um jeito de viver. Então, fazer dieta é só um jeito de cuidar da vida.

Dieta da não-dieta

Em começo de ano, muita gente faz dieta numa tentativa apressada (e culpada) de se livrar dos excessos cometidos nas férias e nas festas de de­­zem­­bro. Ou dos quilinhos acumulados em anos de descaso com a alimentação. E acaba abusando de dietas da moda, shakes, simpatias. Mas a pressa é inimiga da manutenção. Perder peso de forma definitiva é um aprendizado e requer tempo. É preciso reduzir gradualmente a quantidade de calorias do cardápio e inserir, também pouco a pouco, atividades físicas. Metas ambiciosas de vários quilos eliminados por semana podem até funcionar num primeiro momento. Mas, sem educação alimentar, o indivíduo se coloca em risco, não tem suas metas mantidas a longo prazo e assim tende a perder a motivação para uma nova tentativa.
  “Durante uma dieta muito restritiva, o organismo se adapta a funcionar com pouca comida”, explica Daniel Bandoni, nutricionista da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. “É um mecanismo fisiológico – quando a pessoa retoma a alimentação normal, o corpo entende que é necessário armazenar energia.” Assim, além de ser muito radical, o faminto volta a acumular o peso inicial e pode engordar mais.
  As calorias são nosso combustível, resultado da transformação dos alimentos em energia pelo organismo. Ao ser executada, qualquer ação do corpo consome certa quantidade de calorias. Você está queimando calorias neste exato momento, mesmo que esteja lendo a vida simples estendido numa rede. Porque seu coração, seus pulmões e seu cérebro estão em plena atividade, obrigado.
 Até piscar os olhos gasta calorias. A questão é que, se você consome 2 mil delas por dia e só gasta 1500, seu corpo começa a estocar o excedente em forma de gordura. O endocrinologista Alfredo Halpern, chefe do grupo de obesidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, criou em 1970 um método que facilita essa conta, publicado no livro A Dieta dos Pontos. Ele atribuiu uma pontuação a centenas de alimentos consumidos hoje. Um pão francês, por exemplo, equivale a 40 pontos. Assim, se seu limite diário for de 500 pontos, fica mais fácil saber o que um pãozinho representa. “É um sistema para que o indivíduo aprenda a controlar o que vai comer”, diz o médico. “Eu, particularmente, não gosto muito da palavra dieta. Prefiro autocontrole.”

Equilíbrio no garfo

Dieta, consciência, autocontrole... Depende da perspectiva. O mais importante é que, assim, a gente pode comer de tudo. Porque a vida é imprevisível – você nunca sabe quando pode deparar com um quindim. A conta não precisa fechar com exatidão contábil a cada refeição. Nem a cada dia. Um jantar leve, explica Halpern, pode compensar um almoço exagerado. Um domingo num festival de culinária pode ser equilibrado por uma semana mais moderada. E assim vai. Quando entende o que cada alimento representa para seu corpo, você desenvolve autonomia para comer bem. Pode cometer ousadias eventuais – claro que pode! – e fazer as devidas correções na seqüência.
  Além de estabelecer priorida­des, fazer substituições inteligentes também ajuda a manter o peso e, se for o caso, a eliminar quilos excedentes. Essa foi a estratégia do empresário José Marcelo Italiano, de 47 anos, “Chamo minha dieta de troca e, assim, não sinto que como menos”, diz. Pois é, muita gente não gosta mesmo da palavra dieta. Ele trocou o açúcar por mel, a carne vermelha pelas brancas, as farinhas finas por versões integrais, o refrigerante por sucos e chás.
  José Marcelo perdeu 12 quilos de barriga, sem passar fome. “Comer continua sendo um grande prazer”, diz. Mais disposto, ele dorme melhor e pratica suas atividades físicas com mais disciplina. Reeducação alimentar é como lavar louça: parece mais chato e difícil antes de você começar.
  E comida tem tudo a ver com motivação. A serotonina é o neurotransmissor responsável por desenca­­dear no cérebro sensações agradáveis, de otimismo, prazer e bem-estar, como explica a nutricionista Sonia Tucunduva Philippi no livro A Dieta do Bom Humor. “E como é produzida a serotonina?”, pergunta a autora, em clara provocação. “Entre outros caminhos, por intermédio da... alimentação.”
  Os carboidratos complexos, presentes nas versões integrais do arroz, do macarrão e dos pães, ajudam o organismo a liberar o açúcar gradualmente, promovendo uma experiência de bem-estar prolongada. Ao deliciar um chocolate, você sente isso de uma forma mais intensa, mas esse prazer é fugaz, dura só alguns minutos.
  Os alimentos são capazes de nos deixar quimicamente mais predispostos a uma vida saudável e feliz. Mas, mal escolhidos ou em proporções inadequadas, eles se acumulam no corpo e se tornam um fator gerador de doen­ças e infelicidade. “O segredo que vale ouro é comer um pouquinho de tudo”, ensina Sonia, que adaptou, em seus trabalhos, a pirâmide nutricio­­nal ao gosto do brasileiro.
  Os carboidratos (arroz, mandioca, macarrão etc.), que nos dão ener­­gia, são a base da pirâmide – você po­de consumir de cinco a nove porções por dia. Um nível acima ficam as frutas (de três a cinco porções), os legumes e as verduras (entre quatro e cinco porções). Mais acima, nosso feijão e outras leguminosas, com uma porção, e o leite com seus derivados, em três porções. No topo, eles: doces e gorduras, com uma ou duas porções pequenas de cada. A priori, nada é proibido.

Reeducação alimentar

A publicitária Siomara Misiukas, de 39 anos, só aprendeu isso recentemente. Ela foi obesa quase a vida inteira. Em vários momentos, tomou remédios e fez dietas muito restritivas, que só proporcionavam um emagrecimento temporário e pouco saudável, com queda de cabelo e unhas fracas e danificadas.
 No ano passado, aos 96 quilos, Siomara decidiu fazer reeducação alimentar. “É a primeira vez que me sinto magra em toda minha vida”, diz. “Perdi 32 quilos e posso dizer com segurança que não sofri.” Em vez de comer muito duas vezes ao dia, ela passou a comer o necessário seis vezes.
  A reeducação alimentar é um processo de aprendizado sobre hábitos alimentares saudáveis. Não se trata de permitir determinados alimentos e proibir outros. Nem é exatamente dieta. A reeducação é acompanhada de dieta, no sentido que conhecemos, quando é necessário eliminar ou ganhar peso ou ainda evitar certos alimentos que podem colocar a saúde em risco (açúcares para diabéticos, glúten para quem tem doença celíaca etc.).

Um pouco de tudo

Para uma pessoa comum, uma alimentação saudável deve abranger cereais, carnes, leite e derivados, legumes, verduras, frutas, leguminosas e, em menor quantidade, doces e gorduras. Tudo, enfim. Sabia que até um pouquinho de colesterol é necessário? Pois é: ele compõe a membrana de todas as células do corpo e é importante para a síntese da bile e de vários hormônios – os sexuais, inclusive. Só que, em excesso, o colesterol pode entupir suas veias e causar problemas cardiovasculares. A questão é a medida.
  Como Siomara precisava perder muito peso, a dieta dela previa menos calorias que o necessário para o consumo diário do organismo. Mas o déficit era compensado pela gordura estocada no corpo. Foi com essa queima de estoque que ela emagreceu. E sem passar fome, porque Siomara se sentia saciada com uma refeição a cada três horas, hábito que também mantinha seu metabolismo acelerado.
  O metabolismo é o conjunto de transformações químicas que ocorrem dentro do organismo para mantê-lo vivo e saudável. Isso queima calorias. Refeições leves e freqüentes mantêm o metabolismo acelerado. Atividade física também. E com o metabolismo em pleno vapor você emagrece mais rápido.
  Foi assim que diagramador de livros Murilo Lopes, de 29 anos, aprendeu a lidar com seu peso. “Entendi que, se comer pouco, posso comer sempre”, diz. Ele nunca colocou no lápis quantas calorias consome diariamente, mas conseguiu emagrecer 25 quilos comendo pouco várias vezes ao dia e dando prioridade a alimentos saudáveis. A principal mudança foi trocar de restaurante. O “prato feito” do almoço deu lugar a um bufê em que pode variar a alimentação e fazer escolhas mais inteligentes.
  Quando chegou aos 95 quilos, Murilo também foi liberado pelo médico para prosseguir sozinho. É preciso respeitar a própria estrutura física. De acordo com o especialista, ele, que tem 1,83 metro de altura, pode ser considerado saudável com um ligeiro sobrepeso. Recentemente, Murilo tirou férias e se permitiu engordar alguns quilos. Tudo bem, porque agora ele está no controle. Com a retomada das atividades normais, já voltou a perder peso.
  Algumas pesquisas indicam que uma dieta extremamente pobre em calorias pode garantir o aumento da expectativa de vida. Resta saber a quem interessa uma vida excepcionalmente longa sem brigadeiros. Mas fazer dieta é saber que você sempre pode escolher. Quando você sai do ‘automático’ e assume a responsabilidade pelo que come, fica mais fácil definir o que é o ideal.
  Como no versinho de Adélia Prado, é importante ter em mente que, sem o corpo, a alma não goza. Então cuide bem de sua fonte mais imediata de prazer. E esteja certo de uma coisa: comer bem é o melhor jeito de continuar comendo com prazer.

06/04/2017 - 15:56

Conecte-se

Revista Vida Simples