Dilemas: tempo. Como equilibrar família e trabalho?

Vivemos com a sensação de que não temos tempo para nada: família, amigos ou a gente mesmo. De quebra, as tarefas profissionais se acumulam, dificultando ainda mais essa equação. Equilibrar tudo isso é possível, desde que você abra espaço para os seus reais desejos, encare as suas escolhas e olhe, com generosidade, para cada uma delas

David Baker

 Paola Viveiros | <i>Crédito: Vida Simples Digital
Paola Viveiros | Crédito: Vida Simples Digital
Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes disse que, dentro de 100 anos, todos estaríamos trabalhando 15 horas por semana. Isso porque a tecnologia se encarregaria tanto do nosso trabalho que poderíamos ter mais horas livres para o lazer e o ócio. Na prática, o que aconteceu foi o oposto. Muitas pessoas estão trabalhando 40, 50 ou até mesmo 60 horas por semana, e a tecnologia tem nos deixado plugados mesmo nos dias de folga. Dessa maneria, o trabalho tem, literalmente, assumido nossa vida. E o sonho de uma rotina mais equilibrada se tornou ainda mais distante. Eu acredito que existem duas razões para isso. Uma delas é a tecnologia por si só. Com uma conexão sempre disponível, inventamos uma ferramenta que não sabemos exatamente como usar – e facilmente ficamos ligados nela o tempo todo. Mas a outra razão é que transformamos o trabalho em algo extremamente importante para nós. Acabamos fazendo com que isso ocupe uma função muito maior do que apenas gerar uma renda. Associamos nossa identidade a isso (“eu sou um advogado”), nossa noção de sucesso (“fui promovido hoje”), nosso propósito (“o que a empresa onde trabalho faz vai mudar o mundo”) e nosso status (“faço parte da equipe dos 20”). E, fazendo isso, entregamos ao trabalho a responsabilidade pela nossa felicidade. O resultado é que quando nosso lado corporativo bate de frente com outros afazeres, ele quase sempre ganha a batalha. O escritor inglês David Whyte, que estudou o trabalho e o quanto nos dedicamos a isso, gosta de dizer que ele é apenas um dos companheiros com os quais teremos de nos relacionar ao longo da vida ou com o qual ficaremos, de alguma maneira, casados. Whyte afirma que precisamos nos relacionar com duas outras áreas importantes: o tempo com os outros – companheiro, amigos, família; e nós mesmos, que significa estarmos atentos a nossa saúde e bem-estar, sonhos e valores. Whyte é autor de The Three Marriages (Os Três Casamentos, em tradução livre). Quais seriam? O trabalho, o mundo ao redor e você mesmo. E ele diz que esses dois últimos parceiros merecem tanto amor e atenção quanto o primeiro.

Malabarismos
Quando precisamos equilibrar os diversos aspectos que estão em conflito em nossa vida, não basta, simplesmente, dar mais atenção às partes que estão sendo negligenciadas. A semana vai continuar a ter 168 horas, sendo que boa parte dessas horas serão dedicadas – ou deveriam ser – ao sono. Então, se queremos ter uma igualdade entre vida e trabalho, precisamos, no lugar de diminuir a atenção ou a importância que damos as atividades profissionais, abrir espaço para os outros dois “casamentos” entrarem. É claro que isso não será fácil. A sensação proporcionada pelo status, pelo propósito em estar ali, as diversas recompensas (materiais, inclusive), são boas razões para nos sentirmos tão atraídos por isso (e para o desemprego e a aposentadoria parecerem tão assustadores). E precisamos acolher esses sentimentos com gentileza e sensibilidade. Na The School of Life sugerimos aos alunos um exercício que ajuda a visualizar esse desequilíbrio: listar tudo aquilo que o faz sentir realmente vivo, em que você sente um enorme prazer em ser quem você é e nos seus feitos. Então, faça isso agora, em um pedaço de papel. Escreva seis ou sete momentos da sua vida em que você se sentiu cheio de energia e genuinamente feliz. Em seguida, analise essa lista e circule tudo o que estiver relacionado com o trabalho. Existirão alguns: talvez um ótimo encontro com um cliente, a ajuda que você deu para o colega que não conseguia seguir em frente com um projeto, aquela ocasião em que se doou e usou toda a sua sabedoria para resolver um problema. Esses são momentos importantes, e você tem que celebrá-los. Mas alguns dos itens citados no exercício podem vir de outras áreas da vida. Observe aqueles momentos felizes e gratos em que você estava com outras pessoas ou quando teve encontros com estranhos que, em uma simples conversa ou atitude, mudaram sua maneira de ver a vida. Circule cada um desses itens também, usando outro lápis de cor. E perca alguns minutos para celebrá-los. Por fim, alguns desses momentos devem vir do tempo com você: instantes de silêncio, lendo um livro, caminhando. Marque-os também, com uma terceira cor.

Mapa da vida
O que você acabou de fazer é um mapa, desenvolvido por David Whyte, chamado “as três partes da vida”: seu trabalho, as outras pessoas e você mesmo. Agora analise se você está dando a cada esfera o valor que tem. A probabilidade maior é que seu cérebro classifique as partes dedicadas ao trabalho acima das outras. Isso é um efeito natural da cultura em que vivemos. Mas podemos mudar isso. É possível transformar uma caminhada na praia em algo tão importante quanto o projeto que demanda muita energia. Essa mudança de foco não será fácil, já que fomos educados para acreditar que o trabalho é mais importante do que qualquer coisa. Só que não é bem assim. Ele é apenas uma parte do tanto de coisas incríveis – e igualmente importantes – que temos. É claro que, quando pensamos em reduzi-lo e passar parte desse tempo fazendo outras coisas, entramos em pânico. Você já imagina que seu chefe não vai gostar, os colegas vão olhá-lo diferente ou você vai ser demitido. Mas isso é só nossa imaginação, que é craque em promover catástrofes. Na prática, se a gente passar menos tempo no trabalho (ou trabalhando), mas fazer isso de maneira mais eficaz, alinhada com seu propósito, a qualidade do que realiza vai melhorar, e também a sua reputação. Para chegar a esse ponto, você vai ter que fazer ajustes, como conversar com seus parceiros profissionais. Mas trabalhar dessa forma pode lhe abrir muitas possibilidades não apenas no trabalho como fora dele. Na The School of Life, gostamos de fazer esta pergunta: “Estamos vivendo a vida que gostaríamos ou aquela que os outros gostariam?”. Quando se trata de trabalho, a maioria de nós vive uma vida ditada pelos outros. Essa é a parte do acordo que fazemos quando trocamos nossa capacidade de trabalho por dinheiro. Mas não são os outros que estão vivendo a nossa vida. Nós estamos. E temos o direito de trabalhar para que isso nos proporcione satisfação, recompensas e o espaço e a energia para prosperar também nas outras áreas que tornam a nossa jornada uma aventura incrível.

A Série Dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”. A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.

A The School of Life explora questões fundamentais da vida em torno de temas como trabalho, amor, sociedade, família, cultura e autoconhecimento. Foi fundada em Londres, em 2008, e chegou por aqui em 2013. Atualmente, há aulas regulares em São Paulo e no Rio. Para saber mais: theschooloflife.com/saopaulo

David Baker é jornalista, coach e consultor, além de ser professor do The School of Life em Londres. Ele também ministra aulas na unidade brasileira. Foi um dos fundadores da revista Wired, com foco em tendências e tecnologia, e escreve para algumas publicações, como Financial Times e The Guardian

28/11/2016 - 12:47

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