O despertar da colaboração

Quando colocamos a mão na massa e o outro corresponde, percebemos o sentido de cada passo dado e o início de uma nova caminhada. Fica claro que o processo, no qual todos ganham, vale mais que o fim

Izabel Duva Rapoport/ Eddie Terzi

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“vou fazer em frente à minha casa um bonito passeio para os pedestres. Para que os pedestres possam fazer um bonito passeio em frente à minha casa.” Em Curitiba, onde vive o poeta Paulo Valim, autor dessas palavras, a calçada leva o nome de passeio. Essa é uma poesia simples, singela, mas que nos sugere uma profunda reflexão. Afinal, o que seria dos seus caminhos sem o cuidado e a generosidade dos vizinhos? A resposta até pode variar, mas inevitavelmente gira em torno da importância da ajuda mútua e da colaboração entre as pessoas que moram ao seu redor. Esse conceito nasceu nos primórdios da humanidade, quando descobrimos que juntos podíamos mais, mas a ideia acabou perdendo força no início do século 20, com o crescimento das metrópoles. “O fim das relações sociais entre vizinhos transformou o acolhimento em exclusão e o interesse pelo outro, que vive na porta ao lado, em negligência”, acredita Izabella Ceccato, profissional da área de comunicação e de sustentabilidade que se especializou no tema da colaboração. As calçadas, abandonadas, foram recebendo grades e muros cada vez mais altos, limitando a nossa visão e deixando  a atmosfera da cidade mais individualista, onde cada um de nós passou a viver em um mundo particular. Um mundo que parece não se importar muito com a compaixão e a empatia entre os que compartilham a mesma rua ou bairro. Pegar um utensílio emprestado, tomar carona com o vizinho ou até pequenas gentilezas, tão comuns nas vilas do passado, são agora atitudes escassas. E o resultado a gente encontra no dia a dia: o sentimento de competição, de exclusão e até de preconceito entre as pessoas. Sim! Seus vizinhos podem estar tão desprotegidos quanto solitários e é provável que você nem tenha conhecimento disso. Afinal, desde cedo somos conduzidos para vencer e ganhar, sempre em relações comparativas. Ou seja, vencer alguém e ganhar de alguém, sem criar uma dinâmica de crescimento ou de ganho coletivo. Essa lógica, em que “um ganha e o outro perde”, parece desconsiderar também o fato de que, na competição, há poucos ganhadores e muitos perdedores – gerando sérias consequências no todo e a percepção de que não vivemos sós. Daí vem a pergunta: será que para ter um vencedor é preciso mesmo ter um perdedor?
Um lado positivo dessa história é que, com a ajuda da tecnologia, a quilometragem da vizinhança colaborativa só vem aumentando. Um exemplo disso é o aplicativo Tem Açúcar?, uma iniciativa criada em 2014 para ajudar as pessoas a economizar dinheiro, consumir de maneira consciente e resgatar o costume de bater na porta do vizinho para pedir socorro – só que tudo online, através de um aplicativo que conecta quem tem o que emprestar e quem está precisando daquilo. Hoje são 82 mil usuários em 12.500 bairros brasileiros. “O vizinho é nossa relação mais próxima, e trazer de volta esse vínculo, em grande escala, pode gerar uma mudança de mentalidade muito poderosa. Afinal, a abundância está nas relações entre as pessoas, e não no que elas têm”, diz a fundadora Camila Carvalho. Assim como o Tem Açúcar?, outros projetos com base na colaboração foram criados nos últimos anos, disseminando essa cultura e tomando grandes proporções mundo afora. No entanto, é verdade que o pretexto da “falta de recurso” ainda se faz presente e bloqueia algumas realizações em rede. Mas também é fato que já existe muita gente comprovando que colaborar é simples e batalhando para derrubar qualquer barreira, transformar a nossa incerteza em confiança e mostrar que, na colaboração, cada ação tem seu valor para o todo. A tecnologia, claro, traz ferramentas que facilitam esse movimento, mas é a ligação entre as pessoas que resgata a essência da “vida de vizinhança” e, sobretudo, colhe o principal fruto da colaboração: o valor do potencial humano.

Uma nova revolução?
 Nas próximas décadas a economia mundial será híbrida e um novo sistema colaborativo vai surgir para conviver com o mercado capitalista cada vez menos importante. Essa é a tese defendida pelo economista americano Jeremy Rifkin em seu último livro A Sociedade do Custo Marginal Zero: A Internet das Coisas, os Bens Comuns Colaborativos e o Eclipse do Capitalismo (M. Books). Para ele, essa transição será fruto do próprio dinamismo do sistema capitalista, que há séculos nos leva para a busca incessante por produtividade. Mas, segundo Rifkin, vai chegar um ponto no qual o custo marginal (aquele que representa a produção de uma unidade adicional de um produto ou serviço) será reduzido a praticamente zero. Como resultado, “o lucro corporativo começa a secar, os direitos de propriedade perdem força e a noção convencional de escassez econômica dá lugar à possibilidade de abundância à medida que setores inteiros da economia ingressam na internet com custo marginal zero”, descreve. O raciocínio do autor pode trazer controvérsias, mas, se pensarmos nos atuais sites e aplicativos de compartilhamento de carros e casas, por exemplo, onde o acesso é mais relevante que a posse, ou nas plataformas de financiamento coletivo, é possível perceber que a colaboração já vem transformando o modo como vivemos e enxergamos as relações econômicas. Essa, aliás, é uma tendência confirmada por uma pesquisa recente feita em 60 países pela Nielsen Company, revelando que duas em cada três pessoas estão dispostas a compartilhar ou alugar algo seu. O consumo colaborativo, baseado na reinvenção de antigos comportamentos do comércio, se relaciona com a chamada Economia Criativa. Trata-se de modelos de negócios que desenvolvem produtos ou serviços a partir do conhecimento e do potencial individual e coletivo, que geram trabalho e renda e resultados sociais, ambientais e culturais. Na última década, essa atividade cresceu 69,8% por aqui – o que mostra também uma mudança na maneira de pensar, produzir, ensinar e também de aprender.

Movimento gera movimento
 “Quando descobrimos e sentimos na pele a conexão com o todo, surge uma energia sublime, uma felicidade extrema.” Para Izabella Ceccato, algo de extraordinário já está acontecendo na nossa forma de conviver. “Mas, para mudar de verdade o mundo e deixá-lo mais ético, harmonioso e colaborativo, precisamos da ousadia de cada um de nós. E de construirmos, juntos, um novo caminho”, diz. Em 2013, ela deixou de lado a vida de executiva para fundar a Eco Rede Social, uma empresa que integra ideias e projetos de transformação social e ambiental através de atividades que inspiram e promovem a inovação e a colaboração entre as pessoas. No último ano, a rede ampliou sua força e lançou O Poder da Colaboração, evento gratuito que mostra histórias inspiradoras de pessoas que colocam em prática a vida em comunidade, na qual o trabalho coletivo é a base para impulsionar os sonhos de todos. Os vídeos com as apresentações ficam disponíveis nas redes sociais. A arquiteta Renata Minerbo Strengerowski foi uma das palestrantes. Em 2012, ela fundou o Acupuntura Urbana, um projeto que incentiva a ocupação e a transformação de locais públicos, como uma praça, a partir de ações das próprias pessoas que vão usufruir (e cuidar) daquele espaço no seu dia a dia. “O mundo está vivendo um momento em que todos querem se sentir úteis e descobrir seus propósitos – que podem ser encontrados na colaboração”, afirma Renata, que costuma envolver vários setores (comunidades, instituições, empresas e poder público) para repensar a atuação de cada um na sociedade. “O poder público já percebeu que, sozinho, não dá conta de deixar a cidade como a gente merece”, observa. Para ela, quando há pessoas nos espaços, há também realização. “Até hoje, não encontrei quem não queira o seu bairro um pouco melhor e que não faria algo para colaborar para o bem-estar de todos”, observa.

Amor em ação
Para Patrícia Stanquevisch o amor não é emoção, “é a conexão de que somos um”. Essa é a diretriz de todas as atividades que acontecem no Destino Colaborativo. Depois de passar uma  temporada na ecovila escocesa Findhorn – que mantém um centro de aprendizagem espiritual e holística, Patrícia percebeu que havia muita gente no Brasil querendo passar por vivências de autoconhecimento em comunidades sustentáveis mundo afora, mas que, por falta de dinheiro, não ia. Foi então que resolveu acolher esse pessoal para que, juntos, possam definir um destino, assumir responsabilidades, iniciar um processo de transição individual e realizar ações colaborativas que tenham como um dos objetivos a captação de recursos para a viagem em busca de uma nova consciência humana. No Destino Colaborativo, nenhuma pessoa pode colocar em risco o todo e ninguém pode ser excluído ou julgar sobre certo e errado. As regras são poucas, mas levadas a sério. “A colaboração tem compromisso individual”, diz. Quando necessário, as pessoas recebem suporte emocional para evitar desistências ou incertezas que possam surgir no decorrer do caminho. “Quando alguém se transforma, o seu entorno também muda. Tudo é um fluxo”, reflete ela, que acaba de inaugurar em São Paulo a CasAum , espaço físico do Destino Colaborativo. É difícil prever o futuro, mas uma coisa é certa: quer tornar real o seu sonho de transformar o mundo? Então encontre alguém que sonhe também. Alguém como Lucão, o poeta que só escreve sobre amor, mas diz que não escreve poesia; apenas coloca legendas na vida. “Um dia nossos sonhos vão ser tão reais que ao invés das mãos vamos nos dar as asas.”

EDDIE TERZI é artista e designer gráfico, apaixonado por quadrinhos, poesia e desenho. Publica seus trabalhos em facebook.com/terzieddie

IZABEL DUVA RAPOPORT é jornalista e acredita que as palavras também colaboram para que a gente possa viver com mais alegria e significado.

09/02/2017 - 11:58

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Revista Vida Simples