O deus Pã: Conheça o deus meio humano, meio carneiro

Ninguém sabe de onde ele veio. Ninguém sabe para onde ele foi. Todas as histórias que se contam a seu respeito são estranhas e incertas – a começar por seu nascimento.

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O deus Pã e o necessário enigma | <i>Crédito: Odyr
O deus Pã e o necessário enigma | Crédito: Odyr

Nesse texto, você vai conhecer Pã, um deus meio humano, meio carneiro, que perseguia as ninfas e auxiliava os pastores. No entanto, por mais que as pessoas o conhecessem, Pã continuava a ser um enigma. Seria ele o mais forte dos deuses ou um fanfarrão preguiçoso? O mistério está aí: não é possível desvendá-lo totalmente, assim como não conseguimos fazer isso com nós mesmos.

Segundo alguns, ele foi o resultado da cópula animalesca entre uma mulher e um carneiro (o assanhado ovino, na verdade, seria um deus disfarçado; as divindades da época, sabe-se lá por que, tinham o costume de adotar formas insólitas em suas aventuras amorosas). Outros garantem que sua mãe era uma esposa extraordinariamente infiel, que traiu o marido com mais de cem amantes; o resultado desse assombroso adultério só poderia ser uma criatura de espanto. O menino nasceu com o corpo peludo, chifres na cabeça, rabo, pernas e cascos de bode. Para completar, tinha nariz adunco e orelhas pontudas. Horrorizada, a mãe correu para longe, deixando o assustador rebento na encosta de um monte. Por acaso, Hermes – o alado mensageiro dos deuses – estava passando por ali. Avistou o insólito bebê e o apanhou nos braços. Conhecido por seu humor picante, Hermes resolveu pregar uma peça em seus companheiros divinos: voltando ao palácio, no cume do monte Olimpo, disse que trouxera um presente aos senhores do mundo. As divindades se aproximaram. Hermes então abriu o manto para revelar o monstrinho chifrudo, que soltou um estridente balido de cabra.

Os deuses, naquele dia, estavam de bom humor (coisa que nem sempre acontecia nos tempos mitológicos). Não só levaram a brincadeira numa boa, como resolveram incluir a pequena aberração no exclusivo clube dos imortais. A criatura de origem incerta foi batizada como Pã (uma palavra que também tem origem incerta, como veremos a seguir). E assim o mais feioso dos homens transformou-se no mais estranho dos deuses.

Embora membro do panteão divino, Pã não quis viver entre as pompas do monte Olimpo, morada tradicional dos seres supremos na Grécia mitológica. Preferia as grutas e montanhas da Arcádia, uma região agreste, coberta por matas profundas e virgens, habitada por feras, pastores e gente excêntrica (como a guerreira Atalanta, que já conhecemos). A elegância e a etiqueta da corte o entediavam: no mato, podia fazer o que quisesse – no antigo dialeto da Arcádia, por sinal, pan significa “rústico”. Enquanto os outros deuses se envolviam em infinitas intrigas entremeadas por banquetes de néctar e ambrosia – as misteriosas iguarias olímpicas, cuja receita nenhum mortal jamais conheceu –, Pã preferia beber leite de cabras selvagens e cochilar à sombra das árvores no calor do meio-dia. A maioria dos deuses gregos era conhecida por sua vaidade e andava sempre em busca de poder e glória; já Pã era famoso por sua preguiça e só ficava realmente irritado quando alguém o incomodava na hora da sesta.

Não que ele passasse o tempo inteiro dormindo. Como toda divindade, Pã tinha lá suas funções. Era o deus favorito dos pastores, de cujos rebanhos ajudava a cuidar, espantando os bandos de lobos; também dava pistas aos caçadores que perseguiam sua presa nas profundezas dos bosques e guiava de volta à colmeia as abelhas extraviadas. No resto do tempo, suas ocupações favoritas eram tocar flauta e correr atrás das ninfas – as lindas e sinuosas semideusas que viviam nos bosques. Pois, além da preguiça, outra característica célebre de Pã era, digamos, seu excesso de ardor (há quem diga que foi o inventor do “prazer solitário”, fato pelo qual os antigos gregos e romanos muito o respeitavam). Nas pinturas da época, sua figura é geralmente adornada por uma espantosa ereção: ele está sempre disparando com evidente entusiasmo atrás de vultos femininos nas sombras dos bosques. Antes de acusar Pã de excessiva grossura, lembremos que o jogo de pega-pega era consentido. Às vezes lá estava Pã, saltando entre as escarpas de um monte, quando as ninfas vinham cochichar promessas eróticas em seu ouvido. Se ele tentava abraçá-las para cobrar as juras, as moças fugiam rindo pela floresta. Pã cansava de correr, sentava- se em uma pedra, caía no sono – e lá vinham as ninfas para atiçá-lo de novo. Outras vezes, ao flagrá-lo no meio da sesta, amarravam-no a uma árvore e passavam o resto do dia provocando-o sem a menor clemência.

A essas alturas, Pã talvez esteja parecendo um deus meio ridículo. No entanto, algum mistério formidável envolvia aquela figura lanuda, indolente e desinibida. Em grego antigo, pan também significa “tudo”, e há quem diga que esse alegre vagabundo era, secretamente, o mais poderoso dos deuses. Alguns poetas e autores antigos garantiam que as histórias sobre seu nascimento eram falsas: Pã sempre havia existido e era mais antigo que o próprio mundo. “Grande deus Pã, o mundo inteiro te pertence”, diz um hino, de autor desconhecido, escrito entre os séculos 2 e 3 a.C. “És tu que sustentas a Terra em seus alicerces, e as infatigáveis águas do mar obedecem tua vasta vontade; os ventos, no azul ofuscante do céu, seguem os teus comandos, e toda a matéria do universo se transforma conforme determinas”.

Se era assim tão poderoso, por que aquele deus folgado vivia como o mais pobre dos pastores? Os poetas, sacerdotes e escritores não sabiam a resposta. E o que não se compreende se teme. Os gregos temiam todos os deuses, mas nenhum lhes inspirava um medo tão extremo quanto o distraído tocador de flauta que vivia nos bosques. Para eles, todo medo inexplicável e irracional vinha de Pã. Quando um viajante, em uma estrada ao pôr-do-sol, sentia um terror súbito oprimir seu peito; quando um exército, no meio da batalha, era possuído por um pavor coletivo e debandava sem disciplina ou controle; ou quando, em uma cidade apinhada, alguma multidão subitamente enlouquecia e as ruas enchiam-se de correrias e gritos e sangue – então, os gregos sabiam que o invisível homem-bode andava nas redondezas. Pois do nome de Pã – seja qual for seu significado original – descende uma palavra que usamos até hoje: pânico.

O enigma de Pã é acrescido por um último detalhe: embora alguns o considerassem o “senhor do mundo”, ele é o único deus cuja morte foi relatada na Antiguidade. A história – estranha, como tudo o que diz respeito a ele – foi narrada pelo grego Plutarco em O Silêncio dos Oráculos, no século II d.C. Nos tempos do imperador romano Tibério – conta-nos Plutarco –, um marinheiro chamado Tamuz navegava pelo mar Jônio, nas vizinhanças da ilha de Paxi, quando uma voz inexplicável reverberou sobre as ondas, como se descesse do céu: “Tamuz, está ouvindo? Quando chegar à terra, espalhe a notícia: o grande deus Pã está morto!” A voz não deu maiores explicações. Ao desembarcar na Itália, o marinheiro anunciou que o deus-bode já não existia. Ninguém sabe de onde ele veio; ninguém sabe também para onde foi.

O mistério de todas as coisas
Simultaneamente ridículo e onipotente, bonachão e medonho, o paradoxal Pã fascinou a posteridade mesmo séculos após o fim do mundo antigo. Talvez você tenha reconhecido algumas de suas características – rabo, cornos, cascos, excessos sexuais? Pois é: os primeiros cristãos pegaram esses traços emprestados para representar o Diabo, que até hoje não perdeu os chifres e o pé fendido. O surpreendente é que, por outro lado, alguns teólogos viram em Pã um símbolo do Deus cristão – oculto em todas as coisas, ao mesmo tempo onipresente e invisível. Mesmo fora do contexto religioso, esse sujeito que podia ser deus ou o diabo continuou inspirando as letras com o toque dúbio de sua flauta. No final do século 19, Oscar Wilde invocou o faceiro chifrudo como um emblema da simplicidade autêntica e da liberdade natural que tanto lhe faltavam na sufocante e moralista Inglaterra vitoriana: “Oh, deus dos pés de bode, guardião da Arcádia! O mundo moderno está velho e cinzento; o mundo moderno precisa de ti!”, escreveu em um poema. Em outras obras, o aspecto sinistro do senhor do pânico prevalece – é o caso da obra cinematográfica de Guillermo Del Toro, “O Labirinto do Fauno”, em que, até o último momento, a natureza mais ou menos diabólica do fabuloso caprino permanece um enigma. Hoje, Pã é uma divindade favorita dos cultos neopagãos, que veem nele um arquétipo debochado e todo-poderoso da sexualidade masculina.

Poderíamos ficar horas interpretando o verdadeiro significado oculto de Pã, mas no final das contas ele sairia saltitando e rindo de nós – deixando, talvez, uma vaga sensação de medo. Porque Pã, no fundo, representa o coração enigmático da existência: aquela parte de nós que é impermeável a todas as interpretações. Ao longo dos tempos, uma ou outra teoria sempre tentou resolver de uma vez por todas a equação humana. As religiões – algumas delas, pelo menos – viram no ser humano um palco de batalha entre as forças do bem e do mal; outras crenças – crenças seculares, vejam bem, com maior ou menor grau de fundamentalismo – tentaram reduzir o enigma e a confusão da humanidade às pulsões das forças econômicas ou a um jogo combinatório de neuroses, traumas e recalques. Tudo isso é muito bom e proveitoso – mas, no fundo, permanece o fato de que não entendemos direito nem a vida, nem o mundo, nem a nós mesmos. Aceitar a incompreensão essencial no ato de existir é render a devida homenagem ao guardião dos bosques da Arcádia. O marinheiro Tamuz estava mentindo, ou escutou errado: o deus Pã está vivo.

03/02/2015 - 14:43

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