Tecer o amanhã

São os projetos alinhados com a alma que nos trazem garra e vontade para seguir em frente, mesmo diante da instabilidade

Lucas Tauil de Freitas

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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“Todos sabemos o que há de errado com o mundo, só não estamos fazendo nada a respeito.” A desconcertante precisão de Theodore Taptiklis aguça minha esperança. À frente do Laboratório de Métodos Humanos, Taptiklis é um dos membros da Enspiral (The Enspiral Network), rede de pessoas e startups que começou há sete anos na Nova Zelândia e ganhou o mundo. Com o propósito de aumentar o número de pessoas que trabalham no que realmente importa, a Enspiral (enspiral.com) é uma organização sem chefes, que aposta na colaboração. O coletivo é parte do movimento open source, programação de código aberto, no qual desenvolvedores de software compartilham abertamente sua propriedade intelectual. A lógica é que o conhecimento só floresce em liberdade. A Enspiral reúne de designers a advogados, que compartilham tudo o que criam. Nenhum programa é proprietário, e mesmo acordos e processos podem ser copiados por qualquer um. A rede começou em Wellington, capital da Nova Zelândia, e hoje reúne cerca de 300 pessoas pelo mun do. Conheci a Enspiral quando buscava modelos e acordos para a Guilda, o coletivo que ajudei a formar. Nossa meta é libertar o poder da confiança. Quando ficou claro que Sandra e as meninas não queriam mais velejar voltei no tempo. Há cerca de 15 anos, pouco antes de soltarmos as amarras, participei de um projeto que semeou a revolução em mim. Ajudei o empresário Ricardo Semler em seu livro Fim de Semana de Sete Dias. Meu papel era entrevistar o time da Semco, conglomerado de empresas de Semler, para apoiar sua editora de língua inglesa. Todos os dias, saía das entrevistas com o mar em meus olhos. Na Semco, as pessoas não vestiam personas corporativas, eram tratadas com respeito por seus pares e estimuladas a viver seus chamados. Quando concluí o trabalho, não parava de me perguntar como poderia trabalhar com Clóvis, Flor e aquele time de pessoas tão íntegras. Naquele momento, não cogitava uma empresa de outra área. Minha jornada como jornalista ganhava sentido, finalmente escrevia sobre sustentabilidade como sonhava. A vida, entretanto, encarregou-se da guinada. Um diagnóstico equivocado de câncer foi o motivo que faltava para largarmos, minha esposa e eu, nossa rotina em São Paulo e abrir as velas em busca de nossos caminhos. Uma década no mar me ensinou que suor e sonhos, juntos, funcionam muito bem. Em terra, comecei a contatar as pessoas que mais admiro e a alinhavar a Guilda, nosso coletivo de trabalho. Na semana passada, depois de quatro anos no seco, pela primeira vez me senti em travessia, sem estar no mar. Passei a fazer parte de um time no Brasil e na Holanda engajado em esparramar as ideias de Semler. O mais especial é que o projeto inclui pessoas da Enspiral e da Guilda. Batizada de Semco Style, a iniciativa é fundada na ideia de que, nas empresas, como na vida, o que importa são as pessoas. As linhas do tempo se entretecem e riscam uma rota que me enche de alegria.

LUCAS TAUIL DE FREITAS traça rumos, conta histórias e alinhava pessoas, mas gosta mesmo é de sonhar

31/08/2016 - 12:43

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Revista Vida Simples