Um drink em Nova York

Há um momento em que tudo muda. Entretanto, esse momento é apenas aquele em que a mudança é percebida. Ela já existia, você é que não se deu conta antes

Eugenio Mussak

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
NOVA YORK, definitivamente, fi gura entre meus lugares preferidos. Não tem a elegância arquitetônica de Paris, nem o sex appeal de San Francisco, muito menos a beleza natural do Rio de Janeiro. Suas calçadas são sempre lotadas de gente que anda rápido ignorando os demais e o lixo que aguarda ser recolhido. Não é uma cidade que se notabiliza pela limpeza, há paredes pichadas, os carros buzinam, as sirenes são estridentes, os garçons e vendedores não são necessariamente simpáticos e você pode ser roubado pelo motorista do táxi, que é um sujeito que está nesse trabalho só até ser chamado para o elenco do próximo sucesso da Broadway. Mas é Nova York, e pronto. A cidade que tem uma energia que não pode ser encontrada em nenhum outro lugar do mundo. Além disso, tem as pessoas. Ali moram alguns dos tipos mais interessantes com quem já tive a oportunidade de interagir, às vezes de maneira fortuita, quase um esbarrão.  Um desses casos foi um jovem magro de cabelos encaracolados. Amigo de amigos, Malcolm me foi apresentado como sendo colunista da revista The New Yorker. Era um fi nal de tarde agradável de uma sexta-feira do mês de maio, e a primavera no Hemisfério Norte deixa as pessoas mais alegres e falantes. Uma excitação toma conta dos ambientes quando o fi nal de semana se aproxima, e com ele os shows nos incontáveis teatros da Broadway e, melhor, da Off -Broadway, que são aquelas casas originalmente consideradas “periféricas”, por estarem fora do perímetro compreendido entre as ruas 40 e 54, e entre a sexta e a oitava avenidas – chamado Broadway Box, o que inclui a Times Square e boa parte da própria “enviesada” Broadway Avenue. Atualmente a denominação Off -Broadway tem menos a ver com a localização do teatro e mais com seu tamanho e com o custo de suas produções e dos ingressos. E foi  justamente em um bar próximo ao Laura Pels Theatre, na West 44th Street, enquanto aguardava a sessão das 19h30 – ou 7:30 PM, como os americanos preferem –, que acabei tomando um coquetel feito com uísque, vermute doce e gotas de angostura, inventado na ilha, e por isso mesmo apelidado de manhattan, com o jornalista de cabelos encaracolados e com meus amigos. Ele estava em evidência por um artigo que havia publicado recentemente. A The New Yorker é uma revista semanal fundada em 1925 que se transformou em um patrimônio cultural de Nova York. Dedicada, originalmente, a temas ligados a cultura e arte, com foco na cidade, transformou-se em um veículo abrangente de crítica, com penetração que superou os limites da cidade, do país e do próprio continente. Seus colunistas gozam de prestígio, e alguns deles se tornaram mundialmente famosos, por seus artigos, livros ou intervenções artísticas, como Truman Capote, Hannah Arendt, Elizabeth Bishop e Woody Allen. Malcolm Gladwell ainda não estava nessa lista, mas pediria licença para entrar nela após a publicação de seus livros, alguns anos depois daquele encontro. O primeiro deles teria o mesmo nome do tal artigo – The Tipping Point, que no Brasil foi publicado em 2009 com o título O Ponto da Virada. O artigo, veiculado em 1996, era sobre a queda das taxas de violência nos bairros pobres de Nova York, que tinha um novo comissário de polícia chamado William J. Bratton, a quem se atribuía a mudança tão bem-vinda em uma cidade considerada violenta. Até aí, nada de novo. Um texto a mais sobre o tema. Só que o jovem colunista lançava um novo olhar sobre o fenômeno: a ciência social das epidemias.   Segundo suas observações, alguns fenômenos parecem mudanças repentinas, instantâneas, mas na verdade são resultado de um  processo lento, que começou muito antes, e que foi se avolumando até ser, fi nalmente, percebido. A esse momento da percepção, quando a relevância do fato atinge uma proporção que o transforma em uma mudança real, o jovem colunista chamou de tipping point, o “ponto da virada”. Conversamos sobre isso. — Então, em sua opinião, não há mudanças instantâneas, tudo o que acontece de novo tem um longo período de incubação, como os vírus? – perguntei, curioso. — Bem, não vou dizer que não haja mudanças repentinas, teria que pesquisar mais para responder. O que eu disse é que, em sua maioria, as mudanças só parecem ser súbitas, mas já estavam acontecendo bem antes de se tornarem evidentes. É claro que estou me referindo a mudanças comportamentais, fenômenos sociais. Isso é o que me interessa nesse momento. — Você tem um exemplo disso? — Veja o caso dos sapatos Hush  Puppies. Tiveram um “ponto da virada” no início de 1995, quando saltaram de menos de 30 mil pares para mais de 400 mil vendidos. A empresa estava quase fechando e deu uma virada espetacular. Ele não tinha como ter percebido, mas eu mesmo estava usando um par de sapatos Hush Puppies, extremamente confortáveis, de camurça com solado de borracha leve. Ainda havia um furor sobre esses sapatos meio cafonas que de repente viraram cult. Quem viajava para os Estados Unidos naquela época quase sempre recebia uma encomenda de um amigo próximo: “Traz um Hush Puppies para mim?” — Então não foi um acontecimento súbito? Afi nal aconteceu de repente, com data marcada. O que eles fi zeram, uma campanha de publicidade agressiva? — Esse é o ponto, meu caro. Não houve campanha publicitária, nem lançamento de um novo modelo, nada disso. O que aconteceu foi um fenômeno viral que não se sabe exatamente quando começou. O fato é que alguns jovens descolados começaram a usá-los em festas, o que estimulou outros a procurarem a marca, e de repente estava todo mundo usando. O hábito se alastrou como uma epidemia, sem que ninguém tivesse feito um ato proposital. As mudanças comportamentais começam assim, quietas, até que explodem em algum canto. E, quer saber, da mesma maneira como virou moda, de repente vai deixar de ser. 

O momento da virada 
Ponto da virada. Essa é a questão. Mudanças quase sempre são assim, começam devagar, vão se espalhando e, de repente, se tornam evidentes, muitas vezes irreversíveis. Mesmo quando alguém diz: “A partir de segunda-feira vou mudar tudo, largar o cigarro, começar uma atividade física, cuidar mais da alimentação”, e realmente o faz (o que é raro), na verdade já estava incubando,  cultivando essa ideia em seu interior, convencendo-se da necessidade e preparando-se para agir com relativa antecedência. Às vezes, anos. Mudanças instantâneas são relativamente raras. Todos falamos que o mundo modifi cou-se radicalmente naquela manhã do dia 11 de setembro de 2001. Verdade. Só que o que a maioria das pessoas não se dá conta é que o infame atentado aos símbolos americanos, principalmente o World Trade Center, começou a ser gestado e preparado com cerca de dez anos de antecedência. E é justamente aí que se concentra a maior crítica ao governo americano e a seu aparato de segurança, que não se deu conta de que o ovo da serpente estava sendo incubado. Onde devemos, afi nal, concentrar nossa atenção? Ao dia em que a mudança de fato ocorre ou à preparação dela, que começa bem antes? Quando será mais fácil corrigir nossos prováveis erros: na ação ou ainda no planejamento?  As relações de causalidade existem e são inexoráveis. Causalidade é uma relação entre dois eventos separados por um intervalo de tempo, que pode ser medido por segundos ou por séculos: evento A e evento B. E é evidente que o B ocorreu em função do A. A percepção das relações de causalidade pode explicar muita coisa na vida das pessoas, das empresas, da política, da história das nações. Nosso presente é uma consequência do que ocorreu no nosso passado, incluindo aí nossa responsabilidade pessoal.    Quem assistiu ao primeiro episódio do fi lme A Era do Gelo com certeza lembra do simpático esquilo, que é uma fi gura paralela à trama principal. Ele não participa da história central, tem seus próprios interesses (acumular avelãs) e nunca interage com os demais personagens. Entretanto, já na primeira cena, ele dá um espetacular exemplo de como a ação de um único indivíduo pode repercutir na vida de todos os outros, por mais improvável que isso possa parecer em um primeiro momento. Ao tentar enterrar uma avelã, o esquilo provoca, no solo gelado, uma fi ssura que se alastra, sobe a encosta de uma montanha e termina por dividi-la ao meio, provocando o deslocamento de imensas massas de gelo, o que quase o esmaga e modifi ca a paisagem. A cena tem a intenção de ser engraçada, e realmente é. Mas também transmite uma mensagem: a repercussão dos atos, as relações de causalidade, os pontos da virada e seus precursores. Sempre é bom lançar um olhar sobre a repercussão de nossos atos, sobre a dimensão da responsabilidade dos que detêm o poder e sobre a indignação de quem vê destinos de pessoas, cuidadosamente planejados, serem atropelados pela interferência de outras pessoas. A cena desse filme é apenas uma caricatura dessa realidade – uma ação com graves consequências.

Causa determinante 
O Nobel de Literatura Gabriel García Márquez é autor de um livro chamado Crônica de Uma Morte Anunciada. Na obra do genial colombiano, um jovem chamado Santiago Nasar é morto pelos irmãos de uma moça chamada Ângela Vicário, sob pretexto de que ele a havia d esonrado, o que era mentira dela. O incógnito narrador da história anuncia que, se ela não fi zer o desmentido, a tragédia se consumará, como de fato aconteceu. Ângela se omite, e Santiago morre. Quantas tragédias, grandes e pequenas, tiveram seu anúncio tão escancarado quanto ignorado? Você se surpreenderia com esse número. Os especialistas em aviação dizem que o acidente com o Boeing em Congonhas, na cidade de São Paulo, foi uma tragédia, mas não necessariamente uma surpresa. O avião não conseguiu parar na pista, tentou arremeter e caiu do outro lado da rua, matando 300 pessoas e  assustando o país. Podemos dizer que o acidente não foi uma surpresa, se atentarmos para o número de acontecimentos, denúncias e omissões que, meses antes, anunciavam as causas que culminaram na tragédia. Os especialistas – e apareceram muitos – insistiram em dizer que um acidente desse tamanho nunca tem uma causa única. Que se trata da soma de vários fatores que, em conjunto, se potencializam e culminam em tragédia. É uma boa estratégia para pulverizar a responsabilidade, punir levemente algumas pessoas e aguardar que o tempo exerça sua função de esquecimento. Mas vamos estudar mais a fundo essa questão. Faça você mesmo, leitor, uma análise de alguma coisa que deu errado em sua vida. Tente listar todas as causas envolvidas, e eu garanto que você vai chegar à conclusão de que causas reais foram bem poucas, quando não apenas uma. Essa causa é chamada de causa determinante. Se houve outras, elas apenas permitiram que essa se manifestasse – e por isso são chamadas de causas predisponentes. Só que, comumente, dá-se mais valor a estas, porque elas são muitas, em geral pequenas, e podem ser distribuídas entre vários protagonistas, desviando a atenção do foco central, do verdadeiro responsável. Causas determinantes são grandes e fortes, mas são criadas lentamente, por isso às vezes não são percebidas. E em geral são compensadas, por algum tempo, pelo controle das causas predisponentes. Quando algumas dessas escapam do controle, a bomba explode. O que determina o infarto são a genética, o colesterol e a pressão alta; o que predispõe são o cigarro, o estresse e o sedentarismo. O que determina a falência de uma empresa são o passivo grande, o ativo pequeno e a impossibilidade matemática da reversão; o que predispõe são os erros de gestão, o desânimo e a perda de credibilidade.  De pouco adianta controlar a pressão alta e não parar de fumar. Da mesma forma, será desastrosa uma campanha publicitária para uma empresa em que o custo de produção é maior do que o de venda. De nada vai adiantar também culpar o médico pelo colapso do coração e o mercado pelo colapso da empresa.   O acidente no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, teve muitas causas predisponentes: a chuva, a falta do grooving, o peso do avião, o reverso desativado, e tantas outras. Mas onde estaria a causa determinante? Provavelmente em algum espaço governado pela imprevisão, pela irresponsabilidade e pela falta de percepção de que qualquer ação terá uma repercussão futura – e de que, o que é muito pior, qualquer omissão também.   No fi nal, o número de inocentes será, em geral, maior do que o de culpados. E provavelmente isso estará certo, pois os inocentes não interferem nos fatos nem nos rumos.  Quem poderia fazer isso são os poderosos, que costumam esquecer que, sendo os inocentes impotentes, os poderosos deveriam ser poderosos porque são responsáveis. Meu drink em Nova York me rendeu muitos pensamentos. O jornalista Malcolm Gladwell terminou por se transformar em um bem-sucedido autor de best-sellers. Transformou o artigo The Tipping Point em livro, e depois publicou Blink, Outliers, e outros sucessos, todos baseados em pesquisas que revelam conclusões surpreendentes. Em todos joga com a ideia da causa e efeito, fatores predisponentes e determinantes, causas internas e externas, e por aí segue. Assim como o drink manhattan, o jornalista autor de livros é um sucesso. Que, definitivamente, não ocorreu por acaso.


Esse artigo faz parte da obra A Vida é Cheia de Curvas – Uma Refl exão Sobre as Mudanças e a Importância Delas.

02/08/2016 - 12:49

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