2017 não será o seu ano

Sua vida nunca foi sobre você — ela se estende em todas as direções a ponto de não ser possível localizar algo para chamar de sua

Texto: Gustavo Gitti

2017 não será o seu ano | <i>Crédito: Divulgação
2017 não será o seu ano | Crédito: Divulgação
Sua vida não é você (seu corpo, seu fluxo mental, objetos, relações). Sua vida é tudo o que lhe acontece e surge para você. Sua vida é tudo o que você pode apontar e todos que podem apontar para você, todos para quem você surge com as incontáveis aparências. Não dá para precisar onde sua vida acaba e começa a minha. 

Imagine que você comece a perceber que seu quarto está pegando fogo. Ao mesmo tempo, olha pela janela e vê a rua, a cidade inteira pegando fogo. Não faz sentido gritar: “Meu quarto está pegando fogo! Meu quarto, pessoal!” 

Do mesmo modo, não precisamos pessoalizar as situações, olhar demais pra nós mesmos: sou ou não sou ansioso, tenho ou não tenho raiva... Não é sobre mim ou você, mas sobre como operam as estruturas coletivas do mundo interno e da realidade circundante. 

Quando eu não consigo resolver a minha vida, isso é maravilhoso: muito mais divertido do que resolvê-la é ganhar clareza sobre como nenhuma vida se resolve. Essa sabedoria tem o poder de beneficiar mais gente. Resolver a minha vidinha, mesmo se fosse possível, não ajudaria em nada. Seria uma dentre infinitas. Não é grande coisa você ou eu conseguirmos alguma felicidade. Há uma motivação, mais ampla, que deseja compreender como é que o sofrimento se dá, não como você sofre. Assim o trabalho é em você e ao mesmo tempo é em todos. 

Quando a gente descreve uma situação usando “eu”, isso se torna confusão: “Ai, eu sou superciumento, isso se consolidou no meu terceiro namoro. Ontem eu mal consegui respirar quando ela fez aquilo, quero resolver isso!” 

Quando a gente descreve a mesma situação sem “eu”, isso se torna sabedoria: “Uau, olha como a mente do ciúme opera costurando histórias, se fixando, querendo resolver com urgência, achando que isso é uma questão pessoal. Ontem percebi que até a respiração se condiciona ao movimento do outro. É incrível!” 

Não é uma troca de linguagem, mas de visão. No primeiro caso, às vezes pagamos para que alguém escute nosso drama. No segundo, as pessoas vão querer pagar para nos ouvir. Quando pessoalizamos, colocamos foco em nossa vida, em ultrapassar aquilo, e nos angustiamos quando não conseguimos. Quando despessoalizamos, focamos todas as vidas, a mente que é comum a todos, e aproveitamos para ganhar clareza mesmo quando falhamos. Até durante um sofrimento há uma espécie de alegria trazida pela compreensão – e a urgência dá lugar à paciência. Não estamos apenas querendo nos liberar daquilo, estamos com a motivação de ajudar todo mundo a se liberar. Que nossas aspirações para 2017 incluam os sofrimentos, os obstáculos, os sonhos, as qualidades e a felicidade de mais e mais seres. 

GUSTAVO GITTI é coordenador de uma comunidade de florescimento humano. Seu site é olugar.org

30/12/2016 - 08:00

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