A capela da humildade

Uma pequena igreja decorada com ossos humanos nos ajuda a lembrar que a vida é breve, mas que precisa ser aproveitada com inteireza

Eugenio Mussak

A vida é sabidamente breve | <i>Crédito: Shutterstock
A vida é sabidamente breve | Crédito: Shutterstock

Finalmente fui conhecer Évora, a cidade medieval a 100 km de Lisboa, a caminho da Espanha. É a única cidade portuguesa que faz parte da rede de cidades mais antigas da Europa, pois, apesar de sua fundação ter acontecido na época da dominação romana, existem vestígios de presença humana por lá há mais de 5 mil anos. Os menires em círculo na localidade de Almendres são uma prova de que havia pessoas vivendo ali há muito, muito tempo.
Hoje, Évora é uma cidade aprazível, organizada, amiga dos turistas, que circulam por suas ruazinhas no centro intramuros, visitam os vestígios romanos, como o templo a Diana, bem preservado, se emocionam em suas igrejas e se deliciam em seus ótimos restaurantes. Para os que apreciam vinhos alentejanos, como eu, também é um lugar perfeito para estar.   
No entanto, entre todos os lugares curiosos para conhecer, um chama a atenção por sua singularidade: a Capela dos Ossos. Frades franciscanos chegaram à região quando Francisco de Assis ainda era vivo, no século 13. Vieram pregar a fé e a humildade. Foram ficando, receberam doações e construíram uma igreja e uma escola. Hoje, a Igreja de São Francisco é um imponente monumento da cidade. E foi em seu interior que os frades resolveram criar um espaço de meditação que levasse as pessoas a uma intensa reflexão sobre a vida. Queriam algo realmente tocante. E encontraram. Para pensar sobre a vida, fizeram um monumento à morte. Fato absolutamente inexorável, única certeza que temos, causadora de nossos maiores temores, inimiga de todos os nossos instintos, personagem de belos poemas e grandes romances, a morte faz, definitivamente, parte de nossa vida.
Ainda por cima, ao construir a capela, os monges atenderam, ao mesmo tempo, a três questões: criaram um espaço para meditação e oração; deram um destino para um antigo dormitório desativado; e ainda resolveram um problema da cidade, que queria desativar mais de 40 cemitérios abandonados, e não sabia que destino dar aos esqueletos que ali estavam. 
Em uma iniciativa de gosto meio duvidoso, os monges requisitaram os esqueletos e os colocaram nas paredes e nas colunas da capela, unidos por uma massa de cimento acinzentado. Curiosamente, afastando-se, o efeito lúgubre dá lugar a uma estética interessante. Há simetria, proporcionalidade e harmonia no local. Centenas de crânios, fêmures e colunas vertebrais se acomodam formando um estranho mosaico. 
Hoje um local turístico, a capela foi, por séculos, apenas o que se propôs inicialmente. Ser um local de meditação e de estímulo à humildade. A começar pela inscrição usada na porta de entrada: “Nós, ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. Tudo ali foi pensado como um pequeno parque temático para lembrar que a vida é transitória e breve, e que a morte é inevitável e eterna. Impossível ficar insensível ao local. Certamente cada pessoa reage a seu modo a uma visita como essa. Pude perceber isso em outros locais de inspiração mística que já visitei. Para alguns acende a religiosidade; para outros, o esoterismo; e, para muitos, a simples curiosidade histórica. Estou mais para o terceiro grupo, mas sempre levo da visita uma percepção própria, para meu uso pessoal, motivo para uma boa reflexão. Foi assim quando visitei templos, catedrais e locais históricos. 
Da Capela dos Ossos ganhei uma reflexão sobre o apego à vida, pois a proposta óbvia dali é mostrar às pessoas que não devem tê-lo, considerando que a vida é, sabidamente, breve. Por que somos tão apegados à vida e temos tanto temor da morte, se sabemos que a primeira é curta e a segunda é inevitável, afinal? 
Bem, a resposta mais simples é a que vem da biologia, que nos explica que a função da vida é gerar mais vida, e que cada um tem o dever biológico de manter-se vivo e de procriar. Para isso, a natureza nos dotou de algo chamado instinto de sobrevivência. Qualquer bichinho ou bichão, independentemente do tamanho, da forma e da sofisticação de seu sistema nervoso, fará tudo o que está a seu alcance para não morrer, para se manter vivo e procriar. Diante do perigo, não é a razão que é acionada. É o instinto.
Para nós, entretanto, há algo mais. Existe o apego às conquistas, e não apenas à vida. Racionais que somos, desenvolvemos a capacidade de somar à nossa existência um sem-número de fatos, relações, costumes, causas, significados, objetos, sentimentos, e por aí afora. E somos extremamente apegados a tudo isso. 
Duas pessoas queridas me deram, recentemente, duas versões diferentes sobre isso. Uma delas  disse: “O problema da morte é que a gente não sabe o que tem lá”. A outra afirmou: “Eu não tenho medo da morte, o que eu não quero é parar de viver”. Qual a diferença entre essas duas percepções? Bem, a primeira demonstrou ter medo da morte porque ela é desconhecida, e o desconhecido, claro, sempre nos causa algum temor. A segunda deixou claro que o problema não é a morte em si, e sim a ausência da vida, de que ela gosta tanto.
Para ambas valeria o conselho do filósofo grego Epicuro, que dizia não ver motivos para ter medo da morte, pois ele jamais a encontraria. Enquanto vivesse, a morte não existiria. Quando ela chegasse, ele partiria. Esperto... 
No fundo, a grande inspiração que ganhei durante a visita à Capela dos Ossos foi que a brevidade da vida é um dos elementos que a fazem ser tão maravilhosa. A sabedoria não está em querer viver eternamente, e sim em fazer isso intensamente, pois, quando se trata de uma existência, qualidade vale mais que quantidade. Entre o eterno e o intenso, fico com o segundo. O highlander Connor MacLeod e o mutante Wolverine, no fundo, são figuras tristes. Condenados à imortalidade vivem angustiados com a busca de um sentido que jamais encontram. 
Para nós, mortais, o sentido é mais claro. É o de conectar-se por inteiro com essa espetacular oportunidade de viver enquanto estamos aqui. A capela nos lembra que, um dia, vamos, inevitavelmente, morrer. E que, portanto, temos, antes disso, o inexorável dever de viver. Mas isso não significa viver simplesmente. Mas fazer isso com responsabilidade, com intensidade e com humildade. O resto é história...

Eugenio Mussak reflete que o importante não é não morrer, e sim não morrer antes de morrer.

17/04/2018 - 13:30

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Revista Vida Simples