A Hora e o Lugar

Às vezes, as coisas precisam amadurecer para acontecerem no tempo e no lugar certo. E isso demanda paciência e percepção ou, também, uma dose de sorte

Eugenio Mussak

Às vezes, as coisas precisam amadurecer para acontecerem no tempo e no lugar certo. E isso demanda paciência e percepção ou, também, uma dose de sorte | <i>Crédito: Divulgação/Vida Simples Digital
Às vezes, as coisas precisam amadurecer para acontecerem no tempo e no lugar certo. E isso demanda paciência e percepção ou, também, uma dose de sorte | Crédito: Divulgação/Vida Simples Digital

Estar no lugar certo, e também na hora certa, tanto pode ser considerado golpe de sorte como uma grande habilidade. Talvez os dois. Ou, ainda, a melhor explicação: quem tem habilidade cria sua sorte. Independentemente dessa tentativa de justificar como algumas pessoas parecem estar sempre no lugar mais adequado, enquanto outras passam a forte impressão de que estão erradas até dentro de suas próprias calças, o fato é que há virtude, sim, de ocupar o espaço mais adequado para cada momento.  Acho que todos nós conhecemos histórias de pessoas que mudaram a vida em um instante, pelo simples fato de estarem no lugar certo e na hora certa. Lembro do Marcio, companheiro de juventude que, aprovado no concurso de um banco, foi trabalhar em uma pequena e monótona cidade do litoral do Paraná, que não combinava com sua personalidade irrequieta. Durante a semana ele ficava no lugar, uma colônia de pescadores. No final de semana, subia com seu fusquinha de terceira mão para Curitiba. E foi numa dessas viagens que a oportunidade chegou. Num posto em que parou para abastecer, foi abordado por um motorista particular que lhe pediu uma carona para um homem que transportava. O carro, novo e luxuoso, era uma versão malsucedida dos primeiros motores a álcool, que, volta e meia, deixavam seus proprietários na mão. Pedido feito, pedido aceito. O homem, ainda jovem, era um executivo bem-sucedido. Na viagem, papo vai, papo vem, descobriram afinidades. Ambos trabalhavam em bancos, e tinham hábitos parecidos e visões convergentes sobre o futuro, ainda que estivessem em fases diferentes da vida. Despediram-se com a sensação de que haviam criado uma amizade. Cerca de um mês depois, o executivo foi indicado para assumir nada mais nada menos que a presidência do banco. Uma de suas primeiras ações foi ligar, pessoalmente, para a agência da pequena vila e pedir para falar com o funcionário Marcio. Queria retribuir o favor.  Não é difícil imaginar que meu amigo acabou fazendo uma carreira brilhante no banco, o que incluiu trabalhar em sua internacionalização, tendo morado em várias partes do mundo. É claro que não foi só sorte. Foi também sua imensa inteligência e senso de oportunidade. Competência não lhe faltava, e ele soube aproveitar o fato de estar naquele lugar, naquela hora. Lembro também de um dos casais mais afinados que já conheci, uma versão real da música Eduardo e Monica, do Renato Russo. Eram muito diferentes, mas incrivelmente unidos e complementares, até hoje. O Eduardo em questão, jovem estudante que ainda tinha espinhas na cara, não teria, em condições normais, chance com a exuberante Monica, a não ser que surgisse uma oportunidade de se encontrarem em condições ideais. Em sua visão, duas coisas poderiam acontecer: um golpe de sorte ou uma boa estratégia. Ele apostou na segunda. Com auxílio dos amigos, os dois se encontraram na mesma festa, que, na verdade, era um cenário bem montado. Ensaiados, os amigos foram saindo até que ficassem só os dois, e ele ganhasse tempo para expor seus talentos, que eram muitos, mas que estavam escondidos atrás da timidez. Como disse o Renato, “e quem irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?”. Sim, tempo e lugar, quando complementares, podem fazer milagres. A equação perfeita entre essas duas variáveis é o que resultará naquilo que chamamos de oportunidade, a grande chance, ou sorte. Na verdade, tem mais a ver com inteligência e senso de oportunidade do que com o acaso. Estar no lugar certo, na hora certa pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso, e algumas pessoas têm, naturalmente, uma percepção maior sobre esse binômio, e conseguem se posicionar com mais qualidade. É conhecido o conceito do timing, palavra em inglês que deriva de time (tempo), e que tem o significado de “senso de oportunidade” com relação à escolha do momento certo para realizar uma ação, ou à sua duração mais adequada. Uma pessoa com timing reconhece o instante em que deve falar ou calar. Sabe a que horas chegar e a que horas se retirar. Constrói suas frases e apresenta ideias de tal forma que o tempo utilizado por sua fala não é menor do que o necessário para o entendimento, e jamais ultrapassa o limite do incômodo ou do enfado. Pessoas com timing são mais agradáveis. Seus chistes são pequenos, mas engraçados, porque surgem nos momentos adequados. Grandes atores conhecem o timing do palco, respeitam a vez do coadjuvante, ou do silêncio. O comandante do avião realiza aterrissagens mais suaves quando conhece o timing do encontro do trem de pouso com a pista. O bom vendedor conhece o timing do fechamento do negócio, quando o cliente tem suas dúvidas esclarecidas e está emocionalmente envolvido com a compra. Não devemos menosprezar o timing, que pode representar o sucesso ou não de nossas ações. E eis que surge agora o conceito de placing, como um neologismo que deriva de place (lugar), e teria o mesmo significado de timing, só que com relação ao espaço físico. Entender o momento é vital para a didática e para a elegância, e entender o local é vantagem para quem o ocupa. Hora e local, nada mais lógico. Entender o local significa posicionar-se no mundo respeitando limites, mas impondo direitos; reconhecer que a visibilidade é fundamental, mas a invisibilidade também, pois enquanto aquela produz respeito, esta produz lembrança, e ambos os sentimentos reforçam nosso significado e valor. Posicionar-se adequadamente é uma vantagem competitiva durante uma dinâmica de grupo para selecionar um candidato. É a garantia de equilíbrio do surfista em cima da prancha. É a certeza de que o cavalo sabe que o cavaleiro é quem comanda. É a segurança do caçador que não deseja virar caça. É a felicidade do bebê no colo da mãe. É o ponto ganho quando o enamorado é percebido pelo pretenso amor. O mundo tem milhões de quilômetros quadrados, mas existe um metro quadrado que é o mais adequado para ser ocupado por minha pessoa neste exato momento. Reconhecer este metro quadrado é mais do que lógica. É a arte da percepção, da sensibilidade e da inteligência dessa relação tempo-espacial.

Eugenio Mussak conta que estava no lugar certo quando vida simples surgiu e precisava de colunistas. 
 

19/02/2018 - 11:27

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