A mente da apreciação

Uma das práticas mais transformadoras não exige mudança alguma: reconhecer a extraordinária riqueza de nossa condição atual

Gustavo Gitti

Podemos sorrir para o fato que a vida sempre nos contraria um pouco | <i>Crédito: Shutterstock
Podemos sorrir para o fato que a vida sempre nos contraria um pouco | Crédito: Shutterstock

Antonio Donato Nobre (agrônomo especialista em mudanças climáticas na Amazônia) diz que uma das mentalidades por trás do desastre ambiental está ligada à expressão inglesa “take for granted” — nós tomamos como dado, garantido, permanente, nós não vemos a riqueza e a raridade da vida.
O professor budista Mingyur Rinpoche conta que costuma beber muita água e que no fim de uma palestra estava morrendo de vontade de ir ao banheiro. Uma pessoa perguntou: “Qual o sentido da vida?”. Ele respondeu o mais breve possível, encerrou, conseguiu driblar as pessoas e enfim chegou ao banheiro. Enquanto ele se aliviava no mictório, disse que olhou ao redor e pensou: “A vida é maravilhosa!”. Ao contar isso para uma plateia de 250 pessoas, perguntou: “Quem de vocês agora está morrendo de vontade de ir ao banheiro?”. Ninguém levantou a mão. “Então vocês estão felizes como eu estava, certo?”, afirmou.
Ter e não apreciar é como não ter. Não apreciar é como ter muitos aparelhos e nunca chegar a ligá-los, sempre querendo comprar mais. Apreciar é uma prática de contentamento. Uma mente que valoriza cada coisa é uma mente que precisa de menos. Um jeito de remover o aspecto trivial da vida é imaginar como seria descrever sua experiência na Terra após voltar para o seu planeta: “Lá eu tinha algo que eles chamam de corpo. É muito louco! Crescem uns fios que às vezes eles chamam de cabelo, às vezes de barba… Você precisa sempre aparar uma pele mais grossa que sai das extremidades dos dedos… Dá para fazer o que eles chamam de beijo…”. Com esse olho, fica mais nítida a natureza extraordinária de experiências simples como beber água, andar, assistir a um filme, espirrar ou conversar.
Se você estiver no meio de um divórcio após 28 anos de relação, pense no trabalho que daria para chegar novamente a essa condição: você teria de encontrar alguém, namorar, casar, ficar junto por 28 anos e então se divorciar. Então é melhor aproveitar!
Que espantoso é cada ciclo da respiração — a maior prova de que seguimos livres do passado. Que maravilha é nosso corpo — temos uma coluna ereta, podemos nos espreguiçar, podemos usar agora os olhos para ler, podemos mastigar... nem com bilhões de reais poderíamos comprar um corpo tão complexo como o nosso! Que incrível ter uma mente — é com ela que vamos silenciar, é com ela que vamos ajudar as pessoas ao redor. Podemos dizer “Sim!” para toda a nossa confusão — é trabalhando com ela, e não com outra coisa, que vamos transformá-la. Podemos sorrir para o fato de que a vida sempre nos contraria um pouco. Podemos celebrar a quantidade surpreendente de seres dispostos a nos apoiar. É uma riqueza sem fim! 

Gustavo Gitti é coordenador de uma comunidade online focada em práticas de transformação: olugar.org

11/04/2018 - 12:00

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Revista Vida Simples