A terra estrangeira dos bebês

A capacidade de adaptação e de lidar com o desconhecido é o que precisamos, de fato, quando a maternidade chega

Diana Corso

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
minha jovem amiga, de olho na pança, já havia iniciado uma jornada de culpabilização materna maior do que o volume do seu ventre. Maternidade e culpa nascem juntas. O motivo das autorrecriminações era que o envolvimento com a gestação foi considerado tardio: demorou para apaixonar-se pela filha mais do que o prescrito nos blogs e sites de maternidade. Até a metade da gravidez pensava mais no trabalho do que no bebê, seu futuro quarto ainda era escritório, estava atrasada com o enxoval e não buscava muita informação na internet. Já sentia o olhar desaprovador das outras mulheres sobre si. Apesar disso, sentia que ia acabar entendendo-se com seu bebê. Corajosa, estudou e trabalhou por muitos anos em diversos lugares e línguas, movia-se pelo mundo sem grandes planejamentos e certezas. Amadurecida e calejada, voltou ao país de origem para assentar-se, trazendo na bagagem a confiança em sua capacidade de adaptação. Já que sempre acabou sentindo-se em casa, por que a viagem da maternidade teria que ser tão diferente? Confio nela e no encontro que ambos terão, justamente por ser uma mãe poliglota. Cada bebê chega falando uma língua de sons, gestos e olhares que é só dele. Alguns são suaves, dorminhocos, friorentos, outros são intensos, agitam e comunicam-se calorosamente, cada choro é uma sentença. Um bebê é um país estranho ao qual os pais chegam como estrangeiros. A diferença entre os marinheiros de primeira viagem e os mais experientes não está nas certezas, mas sim na capacidade de suportar tranquilamente o desconhecimento, a desorientação inicial. Minha amiga já escutou: “Depois que ela nascer vais mudar, só de pensar na data de volta ao trabalho vai te dar um pavor”. Mas, inquieta-se ela, e se essa abdução não ocorrer? Um filho tem que ser como uma nave alienígena que sequestra sua mãe para outra dimensão? Entendo que as mães prestem umas às outras todo tipo de ajuda e conselho virtual, versão atual da tradicional transmissão de conhecimento entre mães e filhas. Mas isso não deve levar a que a entrega incondicional aos filhos e aos temas da maternidade seja novamente sacralizada. Ler e escutar o bebê como se fosse uma língua que se quer aprender, tocá-lo como se fosse uma cidade nova cujo mapa quer se conhecer, isso, sim, é uma entrega. Prever e planejar tudo sem deixar lugar para o improviso e a surpresa não é. Esperar que um estrangeiro não padeça com as estranhezas é coisa de quem só viaja em excursão e olha o que lhe mandam ver. Uma mãe corajosa e vivida nunca será uma novata, pois a capacidade de se entregar ao que é novo e diferente é o único item essencial na mala que levamos para a maternidade. Aliás, não é por acaso que vai-se para o parto levando uma... 

DIANA CORSO é autora do livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista.

07/08/2017 - 11:57

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Revista Vida Simples