A vida no bordel

Precisamos deixar para trás um mundo baseado em trocas de interesses para pensar em relações mais fraternas a todos nós

Lucas Tauil de Freitas

- | <i>Crédito: A vida no bordel
- | Crédito: A vida no bordel
Há quem pense que em um bordel vendemos prazeres por dinheiro. A verdade é que vendemos segurança. Cobramos para que os clientes possam ir para casa sem medo de que alguém vá cozinhar o coelhinho de seus filhos. Um bordel é parecido com um banco, uma instituição garantidora de transações. Não conte a ninguém, mas começamos muito antes. Os bancos apenas aperfeiçoaram a lucratividade. Quando falo na primeira pessoa não é acidente, nem uma mudança no meu ramo de trabalho, mas uma assunção de que vivemos todos em um imenso bordel. Pode chamar de banco ou corporação se você for mais puritano e lhe ajudar a acompanhar o raciocínio. Nós nos relacionamos como quem compra e vende, não há espaço para a fraternidade ou o bem comum. Estabelecemos vínculos instrumentais. Desde o fim da Idade Média, o fortalecimento das transações financeiras de forma sub-reptícia e intencional devasta tudo o que faz referência ao bem comum. Tudo o que conhecemos são transações, toma lá, dá cá. Isso vai tão normalizado que nem mesmo identificamos algo de estranho nessa atitude. Quando dialogamos sem um ouvir profundo, apenas identificando deixas para nossas falas, desenhamos uma sequência de discursos, não há entrega ou presença, não há diálogo. Nossas relações profissionais são seguras, mas estéreis,  não são férteis ou geradoras, não geram amor, laços, família ou comunidade. No ambiente corporativo, não contratamos amigos, pois amanhã podemos ter de demiti-los. Tudo muito organizado, mas sem qualquer fluxo ou engajamento. Em um mundo seco de amor não é de estranhar que a atmosfera esquente a ponto de comprometer as gerações futuras e que espécies e ecossistemas sejam rifados pelo maior lance. Na sociedade de consumo, a fama vem do acúmulo, é a vala rasa do culto à pessoa. Em contraste, nas comunidades tradicionais, a reputação vem do quanto servimos uns aos outros, de como nossas habilidades e recursos são capazes de beneficiar a todos. O mais delicado dessa situação é que a sabedoria coletiva que chamamos de bom senso foi capturada pela ganância e pelo culto à personalidade. Isso coloca esse entendimento no quadrante mais perigoso do saber, a sombra do que nem mesmo sabemos desconhecer. Impossível nos protegermos de um risco que não identificamos, ainda mais difícil é o paradoxo de tentar acordar uma sociedade que finge dormir. O primeiro passo é o conceito, mas a caminhada não acaba aí. Viver a fala é que são elas. Antes de sair em busca de soluções e práticas, porém, o convite é à presença, a ficar com o assunto como quem escuta profundamente. Atentos a cada um de nossos sentidos.

LUCAS TAUIL DE FREITAS navega seus sentidos atento para vê-los nublados por julgamentos e emoções.

23/05/2017 - 12:06

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Revista Vida Simples