A vida nunca se resolve

Como ser feliz e como apoiar a felicidade dos outros em um mundo que nunca se estabiliza?

Gustavo Gitti

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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eu piro em toalha de banho tamanho gigante; ela prefere a menor. Pra mim, cor não importa; pra ela, é importante ter todas as toalhas combinando. Pra mim, toalha se pendura no banheiro; pra ela, tudo bem deixar a toalha em outros lugares. Eu acho supertranquilo comprar uma toalha só para mim; ela acha que precisamos sempre comprar um par – comprar apenas uma é inconcebível. Se é assim com toalha de banho, imagina com o resto… O lance é relaxar e sorrir para os nossos referenciais, em vez de nos agarrarmos a eles e fazermos o outro se ajustar, o que é uma violência. Nenhuma dessas incompatibilidades precisa ser compatibilizada. O sofrimento vem apenas da fixação a tais teorias. Sem seriedade, elas podem coexistir numa boa e as pessoas não vão se debater com isso. Quando falamos do outro na posição de namorada, de marido, de gerente, de filho, não é bem do outro que estamos falando, mas daquela posição. São as identidades, as bolhas, as crenças, os hábitos que têm problemas e colidem. Os seres são amplos, as mentes são livres, mas as posições certamente têm muitas limitações e negatividades. E, quando nos fixamos a tais posições, suas limitações parecem nossas e dos outros. É essa a confusão que sustenta o apontar de dedos em um conflito. Diante de posições que nunca se harmonizam, podemos nos unir como o goleiro de um time e o atacante do outro time que se divertem em ver como são adversários dentro do jogo e são parceiros fora dele. O que estamos tentando estabilizar talvez não seja estabilizável. O que estamos querendo resolver talvez não seja resolvível. Se não conseguimos até agora, se nem os vitoriosos conseguiram, qual a chance de encontrar algum canto da vida, alguma identidade, alguma configuração que seja de outra natureza? A piada é que a gente nunca vai resolver nossos dramas tentando resolver nossos dramas. Ou a gente continua tentando, de modo sério e autocentrado, ou a gente se junta aos seres despertos. Eles estão esperando por nós, repousando em uma estabilidade que não depende do ajuste de condições externas. O fato de as coisas nunca se resolverem é um convite incessante para nos liberarmos da necessidade de resolver as coisas (e curiosamente é essa a mente mais hábil para resolver o que precisa e pode ser resolvido). Gosto muito desta frase da professora budista Elizabeth Mattis Namgyel: “A vida não é um fenômeno consertável”. Se tentarmos ajustar quase tudo antes de relaxar, nunca vamos relaxar. Como diz o professor americano Alan Wallace, nossa lista de tarefas não tem fim – vamos morrer antes de riscar o último item. Se nunca chegará o dia dourado, por que não parar agora? ƒ

GUSTAVO GITTI  coordena uma comunidade de florescimento humano. Seu site é olugar.org

17/10/2017 - 12:34

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