A vida por extenso

Pode escrever. É bom para a memória e nos dá uma compreensão integral do sentido da palavra

Viviane Zandonadi

- | <i>Crédito: Bruno Legitimo
- | Crédito: Bruno Legitimo
Fui ao cartório para reconhecer firma em um documento. Percorri todas as etapas burocráticas e estava só esperando a liberação da papelada quando a funcionária me chamou para dizer que o jogo não tinha terminado. A assinatura não batia e eu teria de escrever direito até acertar. Tentei três vezes, tremi e errei em todas elas. Quando a moça me mostrou o original, registrado naquele mesmo cartório havia cinco anos, eu vi que agora minha letra era outra. Crise de identidade manuscrita detectada. Em casa, consultei anotações, listas de compras. Tudo contaminado pela displicência enigmática – e olha que eu escrevo à mão, a trabalho e a passeio, todos os dias. Estou sempre a rabiscar as entrelinhas mais apertadas dos meus pensamentos e outras desimportâncias fundamentais. Nos livros, uso lápis macio para sublinhar passagens e escrever nas margens. Um bloquinho novo geralmente começa no maior capricho. É uma promessa. Questão de pouco tempo, contudo, e vou convertendo os contornos bem definidos da caligrafia em traços abstratos. Um horizonte de dunas no deserto.

Escrever (do jeito que for) é o meu tipo de remédio tarja branca. E se um dia mandei por e-mail uma carta de amor urgente que mudou a minha vida (o mensageiro eletrônico nos fez desaprender a esperar), no outro redigi à mão, frente e verso e bem devagar, uma mensagem de despedida cheia de coisas que nunca consegui dizer pessoalmente. Nesse vaivém, era uma letra perfeitamente imperfeita que podia até não ser bonita, mas era boa. Se enfraqueceu, foi provavelmente no meu descuido, porque eu gasto muita energia digitando, abandonei a agenda de papel, parei de enviar cartas manuscritas e não cultivei diários físicos – muitos autores defendem que preencher da própria mão esses cadernos de anotar a vida, íntimos, confessionais e geralmente impublicáveis, nos fornece bastante combustível criativo, além de ser um manancial de temas para o autoconhecimento.

Cartas marcadas
 “Um belo erro de ortografia revela verdades que a assepsia da tela branca do Word se esforça em ocultar”, escreveu há alguns anos Marcelo Coelho, colunista da Folha de S.Paulo, em um texto intitulado A Morte do Lápis e da Caneta. Na época, era 2011, algumas escolas dos Estados Unidos anunciavam que iam abolir do currículo a obrigatoriedade da escrita cursiva, priorizando a fluência em digitação. “Sou o primeiro a reclamar das inutilidades impostas aos alunos durante toda a vida escolar, mas o fim da escrita cursiva me deixa horrorizado. A máquina de calcular não eliminou a necessidade de se aprender, ao menos, a tabuada; não aceito que o teclado termine com a letra de mão. A questão vai além do seu aspecto meramente prático. A letra de uma pessoa é como o seu rosto.” Concordo. Ano passado, no artigo O Fim do Mundo Epistolar, Coelho disse: “Parece bastante seguro afirmar que acabou o tempo das cartas pessoais – aquelas manuscritas, com selo e envelope. É possível que, nos últimos dez anos, eu não tenha recebido mais de cinco, e escrito ainda menos do que isso. O e-mail eliminou inapelavelmente essa forma de comunicação, sem, no entanto, substituí-la por completo”. Na sequência, discorreu sobre livros que “celebram a beleza da comunicação postal”. Termino de reler esses dois escritos e penso em filmes que falam sobre as cartas e a conexão humana que elas ajudam a estabelecer. O primeiro é o tecnológico Her, um drama futurista. O protagonista Theodore, apaixonado por um sistema operacional, é um talentoso escritor – as pessoas pagam para que ele escreva cartas em seu lugar. Para tanto, abastecem o autor com todo tipo de informação e fotos que possam inspirá-lo a desenvolver uma intimidade instantânea com o destinatário. Um dos mais estranhos serviços de terceirização e disposição de sentimentos que eu já vi: o texto sai de uma impressora na letra do remetente. O segundo é o analógico Lunchbox. Na Índia, um homem e uma mulher se conhecem quando um mensageiro entrega a marmita do marido dela para ele, por engano. Eles passam a trocar mensagens no vaivém da caixa de comida e constroem na ponta do lápis uma intimidade extraordinária – intimidade esta que ela e o marido, um praticante de ausências, não alcançam. É uma das mais bonitas relações do tipo tão longe tão perto e nunca te vi, sempre te amei.
Envelope de carta manuscrita é feito bombom de chocolate que quer ser desembrulhado. “De fato há uma carga afetiva muito maior no escrever e no receber a carta que foi manuscrita”, diz Elvira Souza Lima, pesquisadora em desenvolvimento humano com formação em neurociência, psicologia, antropologia e música. “Escrever à mão ativa uma área de recompensa no cérebro e ajuda a fazer memória de longa duração, porque usa ferramentas de leitura e de busca para escrever a palavra, formar a sentença e dar um sentido a ela. Escrever é uma das coisas que mais mantêm a química da memória circulando no cérebro.”

Desenhar letras
 Se há educadores que acreditam que o uso da escrita cursiva nas escolas é perda de tempo, me abismo em saber. E, quando se diz que ela já não tem razão de ser em um “mercado” que “demanda rapidez e raciocínio lógico”, abro a boca para bocejar. Tomar como fato consumado a superação do analógico pelo digital, a pretexto de ganhar tempo, parece ser o caminho mais rápido para empobrecer nosso repertório. A escrita cursiva, explica Elvira, é uma forma de desenho que ajuda no processo da leitura e carrega um componente muito forte de identidade. “Além de ser mais sofisticada, do ponto de vista antropológico, ela faz com que o cérebro se reorganize para ler e escrever com significado, promovendo os melhores resultados de formação de redes neuronais integradas das várias áreas do cérebro. Afastar a cursiva do aprendizado, priorizando a digitação, interfere negativamente no desenvolvimento infantil.” Crianças que desenham todos os dias, em atividades que estimulam as áreas do cérebro destinadas a escrever, chegam à cursiva naturalmente, sem gastar tempo extra, a partir dos 6 ou 7 anos. É uma evolução natural do brincar, do cantar e do desenhar. “No desenho, elas escrevem suas primeiras histórias”, conta Elvira.
Escrever me ajuda a compreender e parece que além disso procuro nesse movimento satisfazer também uma necessidade. “Sim, são movimentos importantes ligados à autoria. Criar com as mãos mexe na capacidade de criar símbolos com ideias e percepção por meio de sentidos. Se você faz alguma coisa à mão, desde bordado, tricô e desenho até um boneco de massinha, isso tem um impacto maior nas zonas de compensação no cérebro”, diz Elvira.

Nossa vida por extenso
Uma das experiências mais gostosas no meu processo de apuração para escrever este texto foi ler o que muitas pessoas se dispuseram a compartilhar comigo. Distribuí uma pesquisa entre os amigos. A ideia não era criar um embate entre cursiva e digitada, mas saber do lugar que damos aos gestos. Eu queria refletir sobre entrega, recompensa, costumes. Soube, entre outras coisas, que a grande maioria gosta da própria letra, teve caderno de caligrafia, escreve à mão menos do que gostaria e reconhece a glória da memória: escrever à mão é um dos instrumentos mais valiosos para não esquecer. A última pergunta era um espaço em branco para que falassem à vontade. Uma moça me contou que quando quer se lembrar de algo urgente escreve na palma mão. É assim desde criança e não há celular bacana que mude isso. A outra, ex-aluna de datilografia como eu, acredita que cartas à máquina são uma extensão das manuscritas e que em todas, mais os cartões postais, circula uma energia de contato. “Adorei poder agradecer um desses por WhatsApp e continuar a conversa em tempo real...”. No trabalho, o engenheiro faz todas as anotações em um caderno, antes de digitar. “Só assim não as esqueço. Lapiseira 0,9, grafite 2B.” O homem que gosta de escrever com tinteiro falou do prazer em raspar a pena em um papel de qualidade. “Prefiro as tintas verdes.” Surgiram também o interesse pelo outro (“gosto de conhecer a letra das pessoas”); a tensão (“não conseguia escrever direito com a gerente do banco me olhando”); o amor pela palavra e o ódio pela própria caligrafia (“ela é tosca”); o valor do erro no manuscrito (“rabiscar éuma arte, é cobrir palavras que às vezes são geniais” ou “a borracha digital leva com ela o papel rasgado e o traço mal apagado do lápis”); a forma e o conteúdo da cursiva (“o fato de ela ser tremida ou firme, funda em algumas partes e leve em outras, inclinada, displicente ou caprichada, a lápis ou a caneta, amplia em muito o significado do que está sendo dito”); as lembranças incomuns (“já escrevi muita carta de amor terceirizada, a pedido dos moleques suados que trocavam aulas de português pelas de educação física”). Adorei esta: “Por escrito eu digo coisas que eu nunca falo”. Mas detestei saber que diziam para um menino canhoto que a letra dele era feia, porque usava a mão “errada”.

Em mais de um depoimento, dá para perceber saudade (“minha avó sabia que eu era esquentado, e me mandava bilhetes dizendo para eu não me preocupar”); uma espécie de fotografia do momento (“o cansaço da mão, o raciocínio mais rápido do que a velocidade da escrita”) e dor (“escrevo poucas linhas à mão, tenho cinco hérnias, mas sou a datilógrafa mais rápida do oeste”; “escrever grandes textos à mão: simplesmente dói”). Mas logo chega o caso da letra-camaleão e a gente sorri para a brincadeira (“quando era pequena, eu gostava de mudar a minha letra, assim como a minha risada. Era só eu treinar um pouco que dava. Com isso eu ia de certa forma lapidando quem eu era”).

O desenhar das letras me dá uma compreensão mais integral da palavra. Tomar nota na aula e passar a limpo o resumo de um livro são exercícios profundos de conexão e memória. Escrever para ler me ajuda a elaborar. Acho que vou recuperar a identidade da minha escrita cursiva na ponta de um lápis 6B. Não é só pela maciez do grafite. Ao manuscrever de menos, eu paro de deixar minha marca humana no papel ou, se deixo, não me reconheço nela. Vai além de ser reprovada na gincana burocrática. Percebi que me sobra “assepsia de Word” e falta a sujeirinha do brincar: pé no chão, canetinha vazando do outro lado, um beijo e me escreve.

 

VIVIANE ZANDONADI é jornalista e gosta de acreditar que, por escrito, é uma pessoa melhor.

18/11/2015 - 14:00

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