Aprender a aprender

Escola e universidade podem ter prazo para acabar, mas o conhecimento não. Que tal ser autodidata e aprender de forma leve e estimulante?

André Gravatá

O prazer na aprendizagem só vem quando você se sente confortável com o processo | <i>Crédito: Vida Simples Digital
O prazer na aprendizagem só vem quando você se sente confortável com o processo | Crédito: Vida Simples Digital

Aos tropeços, descobrimos como andar. Não fizemos nenhum curso, nenhum "aprenda como dar os primeiros passos em dez lições". Observamos. Imitamos. Acertamos por acaso. Cometemos inúmeros erros. Nessa época, tínhamos uma postura ativa diante da vida. Frente a um mundo tão múltiplo, não tínhamos medo de experimentar. A infância foi embora, mas não a capacidade de aprender fora de espaços formais de educação - por vezes encoberta sob camadas de pó, preguiça e falta de confiança. De uma nova profissão a consertar a tela do iPhone quebrada, é possível desenferrujar e aprender a aprender de forma autônoma.
  "O aprendiz independente define o caminho para onde vai e procura as ferramentas que funcionam melhor em cada caso", afirma Conrado Schlochauer, doutorando da USP que pesquisou o tema da aprendizagem autodirigida ao longo da vida de adultos. Não somos apenas Homo sapiens, mas também Homo discens, nome em latim para o "homem que aprende". Hoje isso se tornou ainda mais fácil, com a internet, que possibilita ao Homo discens o acesso a uma quantidade de informação infinita.
  Ao nos debruçarmos sobre questões que dizem respeito às nossas necessidades e paixões, aproximamos as pontas soltas entre o conhecimento e a transformação pessoal - à medida que nossos horizontes se alargam, a gente também se expande. Mas por onde começar a exercitar o potencial que há em nós?

O grande laboratório

Posso começar falando da minha experiência como autodidata. Nos últimos seis meses, influenciado por algumas das referências que compartilho nesta reportagem, decidi criar um "doutorado informal" - uma continuação independente da minha graduação de jornalismo. Por que pular de uma graduação para um doutorado? Para buscar um processo de aprendizagem que exija o máximo de mim.
  No primeiro semestre, escolhi "tutores" de áreas afins aos meus interesses - artistas e filósofos, entre outros - e falei com eles, com o objetivo de propor conversas periódicas para discutir assuntos diversos. Minha pretensão era usar o primeiro semestre para definir o tema do "doutorado" - e deu certo. Muitas conversas depois, decidi que o resultado do meu doutorado informal será um romance-tese sobre a noção de "caos", com personagens que vivam isso na pele. Nas próximas semanas continuam os encontros com os tutores - sobre os quais conto no blog doutorinformal.wordpress.com. Demorou, mas descobri um assunto e um formato que me fascinam.
  O prazer na aprendizagem só vem quando você se sente confortável com o processo em curso. Prefere estudar sozinho? Com amigos? Por meio de filmes? "Você tem que descobrir seu próprio estilo de aprendizagem e respeitá-lo. Esteja disposto a cometer erros e seguir em frente", diz a escritora norte-americana Kio Stark, que está finalizando o livro Don¿t Go Back to School ("Não volte para a escola"), uma obra sobre autodidatismo. É essencial que o aprendiz autodirecionado tenha clareza dos seus objetivos, para que não se frustre e considere que está perdendo tempo. Você precisa compreender melhor suas aspirações e limitações para imergir profundamente num projeto de aprendizagem. Depois disso, o mundo - sempre cheio de possibilidades - se transforma num grande laboratório a ser explorado.
  "Comece fazendo perguntas e tentando atividades novas. Saia da sua zona de conforto. Explore assuntos que lhe interessam. Autodidatas podem ir à escola - mas eles vão pelas razões certas. Eles vão à escola se querem aprender um assunto que exige determinados equipamentos ou desejam interagir com certos especialistas", sugere Dale Stephens, criador do movimento UnCollege ("Sem faculdade"), que incentiva as pessoas a aprender de maneira autônoma. Quando os objetivos iniciais estão claros, vem um segundo momento delicado. Como há uma evidente saturação de informação, tanto on-line quanto off-line, são necessárias certas estratégias para evitar uma overdose de conteúdos.
  A publicitária Débora Emm recebeu e-mail de um cliente com um pedido inesperado. Ele queria algumas dicas de livros. O executivo almejava se aprofundar em discussões de sociologia - tema que Débora domina, pois também é formada em ciências sociais -, mas não estava entendendo muito bem as leituras que se dispunha a fazer. A publicitária começou a indicar algumas obras emblemáticas e a trocar por e-mail impressões das leituras. A situação deixou-a pensativa. Ela intuiu que ali existia uma oportunidade de negócio. Da inquietação nasceu a Inesplorato, uma empresa de curadoria de conhecimento.
  O que a Inesplorato faz pelos clientes é o que Débora fez para o executivo interessado por sociologia. "Nosso trabalho é indicar as portas que podem transformar a vida das pessoas - e que talvez elas não abrissem sozinhas", diz a publicitária. Os curadores da empresa conversam com cada um dos clientes para mapear seu repertório, seus sonhos pessoais e profissionais. Depois de 45 dias, entregam uma caixa repleta de livros, DVDs e links de sites.
  Uma das formas de navegar num mundo saturado de informação é aceitando indicações como as oferecidas pela Inesplorato - ou por amigos e pessoas que admiramos. Marcar uma conversa com um especialista no tema em que queremos mergulhar pode resultar num acesso mais rápido a referências relevantes. "Outra maneira de aumentarmos a autoeficácia - crença na nossa capacidade de aprender - é a partir da experiência direta", diz Conrado. Quando reconhecemos as experiências de aprendizado independente que vivemos no passado, afirmamos nossa capacidade e motivamos a realização de vivências semelhantes. Foi por meio de vídeos, textos e imagens da rede que a jornalista gaúcha Juliana Szabluk aprendeu a envernizar móveis e até a consertar o chuveiro, por exemplo. "Os tutoriais ajudam bastante, afinal, o conhecimento não surge do nada", comenta. Faça um exercício de memória e tente se lembrar dos projetos recentes nos quais aprendeu algo de maneira informal. Vale a recordação de quando você descobriu como fazer um risoto especial ou montou uma prateleira em casa. Tais lembranças são a prova do potencial que há em cada um.

Além de indicações de terceiros e da experiência direta, há uma mola propulsora de aprendizados informais ainda mais eficaz - e vital: a troca de ideias.
  Como diz o educador mineiro Tião Rocha, "educação só acontece no plural". A troca de ideias é elemento indispensável de um processo de aprendizagem, seja ele formal, seja independente. Quem nunca consertou um aparelho e, quando terminou toda a remontagem, percebeu um parafuso abandonado em cima da mesa? Com a ajuda de alguém experiente, talvez o detalhe não fosse esquecido. O diálogo oxigena o pensamento - e a relação com a figura do mestre nos ajuda a repensar nossas ideias. Mestres facilitam processos - e colaboram para que percebamos melhor o chão em que estamos pisando.
  Contar com uma rede de amigos com interesses semelhantes estimula o aprofundamento dos novos conhecimentos. "Mais pessoas seriam autodidatas bem-sucedidas se fossem à procura de gente que está aprendendo a mesma coisa", defende a escritora Kio Stark.
  As pessoas que estão por perto não só oxigenam as caraminholas do autodidata como também podem acender o estopim da curiosidade. Em um papo de duas horas, numa noite de domingo, um amigo explicou ao fotógrafo e ambientalista Fábio Invamoto, conhecido como Peetssa, detalhes sobre a teoria da corrente elétrica induzida magneticamente. Peetssa ficou fascinado com a conversa e, com apoio do amigo, inventou um gerador de "energia limpadora" - expressão criada pelo artista, porque sua invenção recicla HDs de computadores quebrados.
  O gerador continua sendo aperfeiçoado, mas já há protótipos montados em carros de catadores de materiais recicláveis, para que eles esquentem suas marmitas, e numa base da Funai, na Amazônia, para gerar energia elétrica em uma construção sustentável. Peetssa não fez nenhuma faculdade, mas tem conhecimentos em áreas como fotografia, artes plásticas, engenharia de som, marcenaria, alpinismo e computação gráfica. O aprendizado autodirecionado de Peetssa está intrinsecamente ligado à troca de ideias com as pessoas que o circundam. "O importante é viver curioso e atento", diz. Quando exercitamos nossa capacidade de aprender, o mundo ganha mais contornos e nuances. Ao nos dedicarmos a novas lições, passamos a explorar habilidades que nem imaginávamos ter. Voltamos a ser crianças e reaprendemos a aprender com tudo.

12/02/2017 - 17:56

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Revista Vida Simples