Aquilo que você recebe. E compartilha

Tanto se fala de amor por aí que às vezes até se esquece daquela que, talvez, seja uma das atitudes mais amorosas e fundamentais que existem: a gratidão

Liane Alves

O amor - e mesmo a falta dele - nos orienta a querer experimentar cada vez mais | <i>Crédito: Shutterstock
O amor - e mesmo a falta dele - nos orienta a querer experimentar cada vez mais | Crédito: Shutterstock

Quando perdeu seu bebê com seis meses de gestação, Monica Solitello não conseguia sequer abrir os olhos pela manhã de tanta dor e sofrimento pelo que aconteceu. "O mundo ficou chapado, branco. Era como se todos os meus sentidos estivessem embotados. Não queria ver, ouvir, sentir ou me deter sobre qualquer conversa ou consideração. Ficava olhando o vazio, sem conseguir juntar os pensamentos", conta essa moça de 29 anos, que ainda hoje tem dificuldade para se lembrar desse período. A poucos dias da alta, mas ainda deprimida, ela recebeu um presente inesperado: uma cestinha de café da manhã, com geleias de pétalas de rosas vinda da Romênia, bombons belgas recheados, marzipãs em forma de frutinhas, croissants fresquinhos, pães cobertos por sementes de papoula, patês de várias qualidades e muitos outros mimos, envoltos em fínissima cambraia bordada. Uma fita verde com um pequeno buquê de cerejas arrematava o tecido. Era evidente que aquele capricho tinha demandado horas de cuidado e atenção. Com movimentos muito lentos, Mônica começou a abrir a cesta. "Cada coisa que eu provava, os cheiros e sabores que sentia, me traziam novamente o significado da vida", diz ela. Aos poucos, seu coração foi se enchendo de um tipo especial de amor pela sua irmã, que teve todo aquele carinho. "Fui tomada por um imenso sentimento de gratidão. Sentir-me tão amada me ajudou a querer voltar a viver." Quando Mônica engravidou de novo e uma linda menina nasceu. O bebê ganhou o nome da amorosa maninha: Tânia.

Gratidão é isto: o reconhecimento de um ato de amor, ou de consideração, vindo do outro. É também a consciência do que recebemos de bom da vida. E um olhar mais grato e apreciativo do mundo e das pessoas pode transformar radicalmente nossa maneira de viver. É desse tipo tão especial de sentimento, a grata apreciação - que tanto nos falta e que temos tanta dificuldade em expressar -, que vamos falar agora. Deguste cada linha, pois elas podem mudar sua vida.

Fiz uma pequena enquete entre meus amigos com a seguinte pergunta: "Qual foi a última vez que você expressou sua gratidão?" Estava pedindo um gesto concreto, não apenas o reconhecimento do sentimento ou um abraço formal, mas a manifestação externa da gratidão pelo que o outro fez por meio de um presente, um convite, uma oferta de algo mais pessoal. Foi constrangedor. "Você realmente precisa dessa resposta agora?!", me respondeu a maioria. Um deles até admitiu: "Tudo que fiz de bom ultimamente foi só por interesse, para ter algo em troca. Acho que não vale, né?" Resolvi dar um tempo para todos pensarem e voltarem a me ligar. Ninguém se habilitou. Ah, sim, acabou me telefonando um fotógrafo de 35 anos, que me disse que na adolescência, isso mesmo, há pelo menos 20 anos, tinha convidado a mãe para jantar um x-salada com o seu primeiro salário como office-boy. Fiquei pasma. E aí resolvi fazer a mesma pergunta para mim: "Qual foi a última vez que você expressou concretamente sua gratidão?" Fiquei pasma também. Não consegui me lembrar de nada significativo.

Depois dessa intrigante revelação, uma frase do pensador La Rochefoucauld ficou me martelando na cabeça. Ela diz que nos lembramos com uma nitidez incrível de quem nos fez mal, mas que quase nunca nos recordamos de quem nos fez bem. E muito menos agradecemos.

"Quando peço para as pessoas que fazem coaching (aconselhamento profissional) se lembrarem de algo pelo qual podem ser gratas, normalmente dá um branco", explica a psicopedagoga Dalva Alves. "A palavra gratidão se refere ao recebimento de uma graça, por isso falamos em agradecer, que somos gratos. Todos esses termos têm a mesma raiz. E receber uma graça significa que somos abençoados, que obtivemos uma graça, que por sua natureza é gratuita, ou seja, que não depende do nosso merecimento e que nos chegou inesperadamente. O problema é que não nos damos conta do quanto isso é importante e especial", diz.

Mas por que somos assim? A resposta revela algo que escondemos com muito desvelo: nosso egoísmo.

Bebês gigantes

Nascemos com um umbigo, certo? E, metaforicamente, esse umbiguinho tem um poder de atração centrífuga colossal. Isto é, gravitamos a maior parte do tempo em torno do universo do "eu quero isso para mim". E, no mundo do "eu", do "meu" e do "para mim", não há espaço para o outro. Não reconheço que o outro existe. Isto é, não há lugar para relações. Tornamo-nos como bebês gigantes, exigentes, insaciáveis, famintos e autocentrados. Somos incapazes de reconhecimento do outro e suas necessidades porque só estamos focados nas nossas. Simples assim.

Claro, a causa disso está na infância. Muitos autores da psicologia se dedicaram a estudar os efeitos dos primeiros anos da existência em nossa vida. O neuropsiquiatra e psicólogo francês Boris Cyrulnik, por exemplo, no seu livro Falar de Amor à Beira do Abismo, fala muito da dificuldade do reconhecimento da alteridade do outro e da dificuldade em estabelecer laços afetivos. Para ele, a sociedade ocidental se tornou uma imensa indústria de mimados bebês gigantes, que têm todas as necessidades materiais satisfeitas desde o berço, geralmente por culpa de pais ausentes. A consequência é triste: essas crianças não só não conseguem formar vínculos duradouros, pois os pais não ficam ao seu lado o tempo suficiente para marcar sua memória com seu amor, como não conseguem formar uma identidade separada dos pais, pois se tornam excessivamente dependentes de quem lhes satisfaz a vontade. Em outras palavras, elas não aprendem com a frustração e não se reconhecem como independentes das figuras dos pais. Forma-se uma simbiose angustiante, que elas provavelmente tentarão romper com violência na adolescência, às vezes com agressões físicas ou verbais aos genitores. "Agora o filho é que é a autoridade", escreve Cyrulnik. "Temos uma geração inteira de adultos e jovens adultos incapazes de reconhecer o que receberam de bom, exatamente por ter recebido demais e de forma sufocante. São incapazes de sentir gratidão", diz a psicoterapeuta paulista Fátima Gonzalez Esperanto.

Outra que se dedicou a analisar esse sentimento de amor e reconhecimento do outro é a austríaca Melanie Klein no livro Inveja e Gratidão. Klein afirma que a primeira relação do bebê é com o seio materno. Para o bebê, o seio bom é aquele que alimenta e traz calor, contato, conforto e segurança. O seio mau é aquele que está ausente quando ele sente fome ou carência de contato. Aos 8 meses, aproximadamente, o bebê reconhece que o seio bom e o seio mau provêm do mesmo lugar. E sente culpa pela primeira vez por haver desejado a destruição do seio ausente. Dessa culpa, dessa primeira depressão, surge em sua psique um desejo de reparação. O bebê, dessa maneira, passa a se sentir grato pela presença integral da mãe, tanto no seu aspecto positivo quanto negativo, e a experimentar o sentimento vívido de apreciação pela totalidade de sua presença. A gratidão, portanto, seria a primeira forma de amor, que alimentará outras formas amorosas durante a vida. O problema, segundo Klein, é que nem sempre o bebê consegue integrar esses dois aspectos e experimentar esse tipo primordial de amor, que irá ser um elemento constitutivo fundamental de sua psique.

Portanto, podemos dizer que o amor - e mesmo a falta dele - nos orienta a querer experimentar cada vez mais... amor. E que a gratidão é um tipo de amor essencial para nos tornar mais felizes. Sermos gratos e apreciativos traz mais felicidade para nossa vida.

Diante disso, a pergunta é: o que podemos fazer para isso acontecer?

Prática desconhecida

Por incrível que pareça, uma desconhecida técnica vinda do Japão pode ser uma das respostas a essa pergunta. Naikan é a arte japonesa da autorreflexão. Foi criada por Yoshi Yamamato (1906-1988) utilizando os princípios do Budismo da Terra Pura. Procura quebrar a avaliação egocêntrica da vida e desenvolver outra percepção com relação a tudo o que nos rodeia.

A prática do naikan começa apenas com três perguntas básicas:

• O que recebi das pessoas na minha vida?

• O que dei a elas em retorno?

• Que tipo de problema ou dificuldade criei para elas?

Portanto, o naikan é uma contabilização objetiva e prática das relações: o que eu dei, o que eu ganhei e o que eu causei. O resultado dessa contabilidade é inevitável: gratidão. "Viver uma vida com gratidão é abrir os olhos sobre as maneiras incontáveis em que somos sustentados nesse mundo. Uma vida vivida desse jeito traz muito menos sofrimento e infelicidade porque nossa atenção não mais apenas dirigida a nós mesmos mas também aos outros", diz Gregg Krech, responsável por muitos retiros de naikan realizados nos Estados Unidos e na Europa e autor do livro Naikan - Gratitude, Grace and the Japanese Art of Self-Reflection (Naikan: Gratidão, Graça e a Arte Japonesa da Autorreflexão, sem edição brasileira). Ao pesarmos objetivamente esses dados, que nunca são colocados na balança, surge outra apreciação da vida, até mesmo uma revolução no nosso modo de olhar. Muda nossa avaliação sobre nossos pais, cônjuges, empregos e o próprio mundo.

"Eu me senti como os fotógrafos que entram na câmera escura e mergulham o papel fotográfico num tanque cheio de líquido revelador. As imagens que iam surgindo mostravam outra realidade, muito diferente da que eu julgava existir. Comecei a ver tudo sob outro ponto de vista. Era como sair do meu umbigo e começar a apreciar a paisagem de outro lugar", diz Denise Hellman, que fez um retiro de naikan durante duas semanas no Canadá. Alternando sessões de meditação no estilo zen com sessões em que respondia às três perguntas com lápis e papel, ela diz ter reformulado vários conceitos que a alimentaram, e a "envenenaram", durante anos.

"Nós podemos receber alguma coisa e não nos ‘sentir’ gratos. E não podemos forçar sentimentos. Está além do nosso poder fazer isso, ainda mais quando não se está habituado a entrar em contato com esse tipo de amor", diz Gregg. Mas, se há o mínimo reconhecimento do que foi feito, ele sugere nos concentrar no esforço da expressão externa de gratidão, mesmo se ainda não houver a correspondência total de sentimento. "Muitas vezes, é o hábito da atitude externa da gratidão que irá despertar a experiência interna", diz Gregg. Isto é, o hábito de agradecer concretamente é que, aos poucos, vai gerar o sentimento, e não o contrário. Mesmo porque agradecer de forma externa dá trabalho, nos força a sair do comodismo, do fazer sem interesse e nos obriga a reservar um tempo para isso. Em resumo, é um esforço.

O que é ser humano

Geshe Lhakdor é diretor da biblioteca tibetana de Nova York e vem anualmente ao Brasil para dar palestras e cursos. Ele fala como cultivar uma vida apreciativa pode nos livrar da depressão, de sentimentos de infelicidade, desajuste, solidão. Perguntei a ele o que nos faria deslocar do nosso centro para poder sentir mais apreciação pela existência.

A resposta que ele me deu foi nada menos que extraordinária. "A palavra em sânscrito para ser humano é purusha. Purusha é simplesmente ‘aquele que é capaz de doar’. Só podemos nos considerar verdadeiramente humanos quando nos descentralizamos de nossos desejos para contemplar o que outro precisa e agir nessa direção. E a gratidão só existe quando alguém demonstrou ser humano com relação a nós - quando alguém nos deu algo, se doou a nós. Agradecer é reverenciar a perfeita humanidade que o outro exerceu."

Sua colocação me fez lembrar da palavra "humano". Sua raiz é humus, "terra", a mesma raiz da palavra humildade, "tornar-se como a terra". Ser humano é reconhecer que somos terra e que a terra basicamente doa a vida, amparando rios, oceanos, florestas e inúmeros seres. Somos doadores por natureza e, quando não nos doamos, não exercemos nossa humanidade, que é fértil e abundante.

Mais: Geshe Lhakdor nos aconselha a meditar sobre a preciosidade que é ser um humano. Nos seus retiros de meditação, pede para a pessoa se imaginar como um animal - por exemplo, um leão, um cachorro. Para ela poder sentir o medo que habita o coração dos animais, que não sabem quem pode estar à sua espreita para caçá-los, o que vão comer, se terão teto à noite, se sua prole vai poder sobreviver. Essa prática, ele nos diz, nos faz sentir gratos pela graça infinita de sermos humanos e termos outra condição de vida.

Ele ainda sugere uma última experiência. "Todos nós temos um nome, como Vera (verdade), Liane (laço), Stella (estrela). Procure o significado do seu nome e o exerça. Se ele não tiver sentido, imagine um para ele, aquilo que lhe parece. E agradeça quando perceber que os outros estão exercendo sua humanidade por meio dele. Em outras palavras, sendo verdadeiros, amorosos, brilhantes."

Melhor conselho, impossível. 

02/05/2017 - 14:39

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