As jogadoras podres

No esporte, os grupos se somam e os líderes são eleitos pela sua capacidade de agregar. Talvez esteja na hora de aprender mais com esses modelos

Diana Corso

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Ela era igualmente virtuosa com a flauta e com os números, se tínhamos algo em comum certamente não eram seus dons: éramos as jogadoras podres. Por sorte formávamos um par, igualadas no medo da bola. Isso ajudava na hora de formar os times, Beti para um lado, Diana para o outro, equilíbrio de forças garantido. Tive também a sorte de uma turma muito afetiva no segundo grau. As bolas fora na cancha de vôlei e na vida não abalavam nossos laços. Colegas de aula são uma loteria e naquela época ganhei um prêmio. Mas nem sempre é assim. Algumas são tão hostis que chegam a ser traumáticas, um inferno cotidiano ao qual parece difícil sobreviver; outras são um contraponto bem-humorado, por vezes até mesmo acolhedor, às chatices e tensões da vida de estudante. Nas escolas, quando os professores pedem que algum trabalho seja feito em grupo, os alunos costumam irritar-se. Via de regra, algum ou alguns fazem tudo, enquanto os outros atrapalham ou se omitem. Já esperamos que seja assim: desconfiados dessa forma de trabalhar, tendemos a formar grupos inúteis e dissonantes ao longo da vida estudantil. Como um espécie em extinção, o espírito de grupo sobrevive exilado no território do esporte. Em campo, o grupo soma, driblando a discórdia, e nem todos precisam jogar na mesma posição, as diferenças são sempre bem-vindas. 
O líder de um time costuma ser eleito pelo seu poder agregador, enquanto fora do jogo seguidamente a liderança resulta de cobiça, e hierarquia e prestígio se confundem. No esporte, reivindica-se o fair play, fora dele tende-se o jogo sujo e histérico dos hooligans. Supor que numa tarefa feita em grupo os membros só se prejudicam ou parasitam equivale à compreensão de que qualquer coletividade é como uma selva. Pensando assim, parece natural que só os predadores tenham direito à vida, portanto cabe a todos tentar ser como eles. Reality shows onde todos, menos um, tendem a ser eliminados, enquanto os restantes arquitetam ardis para sobreviver e serem premiados, vendem-nos a ideia de que nossa realidade assemelha-se aos Jogos Vorazes. Fora da toca, além de si mesmo, todo cuidado é pouco e quem não ataca pode ser devorado. Naquela turma de colégio, a Beti ajudava os colegas com os números, outros faziam o mesmo em outras áreas. Preparamo-nos juntos para o vestibular, embora no vôlei ninguém tenha conseguido reverter meus fracassos, nem os dela. Ali aprendi um conteúdo extracurricular que espero nunca esquecer: a solidariedade. Estamos um pouco perdidos disso, com muito medo uns dos outros, mas acho que vale a pena voltar a acreditar nos grupos, nas turmas, nas equipes. Esse jogo ainda não acabou. ƒ

DIANA CORSO é autora do livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista

11/07/2017 - 10:58

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