Até que a morte não nos separe

O amor que segue junto por uma vida inteira é aquele que respeita até mesmo o fim

Diana Corso

Amor que segue junto | <i>Crédito: Shutterstock
Amor que segue junto | Crédito: Shutterstock

“Olha só que história linda”, disse ele enquanto me alcançava uma página de jornal. À primeira vista soaria estranho, pois a manchete dizia: “Casal decide recorrer junto à morte assistida”. Mas eu gostei do gesto, porque conheço bem o homem com quem vivo. Sei que não se trata de uma proposta de pacto, ao estilo Romeu e Julieta. Há amores que são incêndios, espalham cinzas e destruição ao redor, enquanto outros são feitos do fogo que mudou a história da humanidade, que sela, vitrifica, constrói, assa, cozinha.
Somos cinquentões. Há décadas moramos, trabalhamos e criamos juntos uma família e alguns pensamentos. Se precocemente nos tocar viver um sem o outro, não vemos nobreza na covardia de desistir. Juntos ou separados, nos toca o dever (e o prazer) de seguir adiante, fazendo parte da vida de nossos descendentes, dos amigos e dos colegas. Há transformações do mundo a testemunhar e o exercício da esperança, que, de fato, é a última que morre. A matéria de jornal trazia outras ponderações sobre longevidade e a morte, que é um tema tão nobre como o amor.
Charlie e Francie eram quase nonagenários, sobreviveram a longas jornadas de sofrimento e cuidados mútuos, mas haviam sido comunicados de que lhes restavam poucos e péssimos meses de vida. Ambos foram médicos missionários, viveram juntos por 66 anos, tiveram três filhas. Com uma delas documentaram sua tranquila despedida: queriam que seu ato funcionasse como apoio às organizações legais de morte assistida do estado do Oregon (EUA), onde viviam. Você pode assistir e, escutando os argumentos deles, chegar às suas próprias conclusões, em Living & Dying: A Love Story.
O casal não defende um pacto de suicídio. Isso seria provocar a própria morte, quando estamos saudáveis e autônomos. O suicídio é um ato ao qual somente se recorre quando a esperança foi assassinada previamente. É fruto do desespero extremo, mas acaba sendo uma violência dirigida aos que ficam para trás, que passarão o resto da vida tentando entender por que foram abandonados. Já uma partida escolhida em nome da dignidade, tal como o fazemos ao deixar um “Testamento Vital”, não é algo que deveria deixar ressentimento nos que ficam. 
Na ficção admiramos a morte como um ato de heroísmo, em uma guerra ou um salvamento. Nas paixões, romanceamos os sentimentos trágicos, na esteira dos eternos amantes de Verona. Mas existem vidas e amores que, alheios às histórias que a fantasia tanto estima, podem desembocar na tranquila percepção de que se chegou ao fim. Por isso entendi o gesto do meu amado como um convite para seguirmos adiante juntos; quanto mais longe, melhor. É um romantismo pouco convencional, admito, mas do único tipo que me emociona.

24/05/2018 - 13:36

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Revista Vida Simples