Coliving ou moradias compartilhadas

Entenda o que é o coliving, uma nova forma de moradia compartilhada. O tema faz parte do Festival Path, evento de inovação e criatividade que acontece em maio, em São Paulo

Brunella Nunes/Festival Path

O coliving é um jeito de morar que nos remete a ideia das antigas comunidades | <i>Crédito: Festival Path/Divulgação
O coliving é um jeito de morar que nos remete a ideia das antigas comunidades | Crédito: Festival Path/Divulgação

A ideia de juntar as escovas de dentes chega a dar calafrios em algumas pessoas, mas talvez esteja na hora de repensar as escolhas. Dividir o mesmo espaço não (apenas) com um parceiro ou parceira, mas com várias pessoas com interesses semelhantes está voltando à tona.

O tema norteia uma das 350 palestras do Festival Path, evento que também reúne shows, filmes, workshops, feiras e mais atividades nos dias 19 e 20 de maio, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Pioneiro no segmento de festivais de inovação e criatividade do Brasil, o evento busca tendências e discussões relevantes para a transformação positiva da sociedade. Veja toda a programação em www.festivalpath.com.br

Não é um casamento e também não são as bagunçadas repúblicas universitárias. Então, o que é o coliving, afinal? Com umas doses de maturidade, o conceito renova o ato de morar junto a partir de motivações econômicas, profissionais e pessoais, colocando sob o mesmo teto um grupo de seres humanos com propósitos parecidos e dispostos a simplesmente conviver em harmonia. Diferente de uma república, no coliving os inquilinos estão intencionalmente juntos, para desenvolverem ideias, projetos e experiências em conjunto.

A economia compartilhada tem uma participação bem considerável nesse movimento. Com o avanço do empreendedorismo, especialmente jovem, abriu-se um vasto campo entre os praticantes de home office, nômades globais e profissionais liberais. Além disso, é uma solução para crises, seja de moradia, devido ao boom imobiliário e superlotação dos centros urbanos; econômica, pelas condições de um país ou do próprio bolso; e existencial. Indo além do lado financeiro, nota-se que tais grupos se reúnem de forma intencional. Motivados a sair de suas bolhas, por vezes digitais, os milennials encontram um refúgio, acreditando ter um lar e não apenas uma casa para viver.

Enquanto países como Estados Unidos e Holanda já estão com empresas de coliving regulamentadas, no Brasil, a cena é um bocado diferente e, por enquanto, sem tanta interferência de administradoras. O Festival Path 2018 reúne as cabeças de três iniciativas do segmento na mesa "Mi casa, su casa: conheça o movimento coliving": Ana Laura Macedo, da Casoca, Pedro Araújo mendes, da Maracasa, ambas no Rio de Janeiro, e Samuel Gonzalez, da Amorada Ahow, que fica em São Paulo.

Pedro, da Maracasa, é facilitador e educador e participou de vivências na As One Community (comunidade autossustentável onde vivem 180 pessoas), do Japão, e na ecovila Tamera (tida como a “primeira aldeia pela paz”), em Portugal, até se tornar integrante da Maracasa. Ele conta que antes de tudo dividia sua própria casa e tinha a rotina tranquila, porém com muitos desafios nas relações.

Foi durante uma participação na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que veio o insight sobre mudar o modo de viver nas cidades: "Olhando a terra como um sistema vivo, percebi que as cidades são grandes feridas na Terra. São os locais com maior degradação ambiental e social. O nível de consumo alto e insustentável, faz com que ocorra a degradação em outros locais. Assim começamos um projeto piloto. Depois tive a oportunidade de fazer os intercâmbios fora do país e experimentar a rotina de eco-comunidades urbanas, sem regras, chefes, propriedades, etc.", conta.

Fazendo um balanço entre as dores e as delícias de tais práticas, ele cita algumas vantagens, como “viver na prática o ideal de que somos todos um; enorme crescimento pessoal e humano; e uma vida mais simples e mais barata”, e desafios, “ aprender a distribuir poder, a compartilhar e pensar fora da caixa; não entrar em competições, sempre buscando soluções ganha-ganha; e entender que o coletivo não é antagônico ao individual. Ser 100% coletivo e individual ao mesmo tempo.”

Além das casas coletivas, está previsto em São Paulo a construção do primeiro edifício de coliving. Desenvolvido pelo escritório de arquitetura Triptyque, reconhecido por seus projetos modernos, o prédio de 13 andares na Vila Madalena será erguido em madeira certificada e vai abrigar não só moradores, como também um coworking e um restaurante. A previsão é de que fique pronto até 2020.

Em Porto Alegre, a incorporadora Wikhaus estuda moradias colaborativas desde 2014 e está para lançar, enfim, o primeiro cohousing do estado, batizado de Cine Teatro. O imóvel tem studios de 30 a 78 m², equipamentos compartilhados, coworking e área de convivência integrados. Antes mesmo de seu lançamento, já tem 60% de ocupação.

Pedro finaliza a conversa dando dicas para quem quer começar a surfar nessa onda. “Pra se viver em um co-living, o primeiro passo é achar as pessoas que queiram viver juntas. Depois o local, de acordo com as vontades de cada um. Também é preciso ter clareza financeira, espaço para celebrações e convivência, evitar ao máximo regras e focar no social e princípios. Se as relações estão bem e são sustentáveis, o ambiente será sustentável”, argumentou.

Ampliando seus horizontes, até mesmo a terceira idade está criando seus caminhos dentro do coliving. Pessoas acima dos 65 anos já formam comunidades enormes ao redor do mundo, saindo da solidão e dividindo o mesmo teto com os amigos, porém bem longe da imagem melancólica que um asilo costuma passar. Para se ter uma ideia do quanto são vanguardistas, em Santos, litoral de SP, existe uma “república de velhinhos” desde 1995. Em São Paulo há condomínios da CDHU para a melhor idade, mas a escolha de moradores é por sorteio. O conceito evoluiu até que se juntassem os amigos mais chegados para viverem no mesmo endereço, como acontece na residência autogerida Convivir, em Cuenca, na Espanha.

Seguindo uma linha de raciocínio que relaciona tempo, espaço e costumes, é possível dizer que a cada estágio da vida já exista uma solução para não morar só. A república de estudantes dá lugar ao coliving; a família encontra seu próprio espaço e o divide quando quer no cohousing; e os idosos se acomodam junto a pessoas queridas em pequenos condomínios, que não diferem muito de ambos os conceitos citados.

Brunella Nunes é jornalista, adepta do slowliving e une seus esforços para desprogramar o lugar-comum do pensamento. Escreve por amor a causa para sites com propósito.

O Festival Path acontece em São Paulo, nos dias 19 e 20 de maio, em São Paulo. São mais de 350 palestras sobre inovação e criatividade. Informações sobre como se inscrever: https://www.festivalpath.com.br

03/04/2018 - 13:39

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