Como ser mais criativo

A criatividade mora dentro da gente, às vezes está escondida em algum canto e precisa apenas que você permita que venha à tona. Entenda como trazê-la para perto

Laís Barros Martins

Já pequenos aprendemos a dar respostas (ou ideias) prontas para satisfazer mais ao outro do que a nós mesmos | <i>Crédito: Shutterstock
Já pequenos aprendemos a dar respostas (ou ideias) prontas para satisfazer mais ao outro do que a nós mesmos | Crédito: Shutterstock

Os elefantes coloridos só podiam ser cinza dentro daquela sala de aula. O aluno escolheu pintar de cor-de-rosa o elefante que deveria ser entregue como tarefa escolar. A professora providenciou a correção, e restringiu as respostas de cores a uma única possibilidade aceitável para receber nota dez. Ela não sabia, mas estava formatando uma geração inteirinha em um padrão, e fazendo-a acreditar que elefantes não podem ter a cor que a nossa imaginação quiser. Anos depois, esse mesmo garoto, bem mais velho e já trabalhando, seria incentivado a “pensar fora da caixinha”. E, assim, propor alternativas e novas ideias em seu ambiente de trabalho. Os lápis de cor já estavam havia muito guardados na mochila. As ferramentas para acessar a criatividade agora necessitam de motivação e esforço concentrados em oito horas diárias — e muitos duvidam ter essa capacidade a seu dispor.
Mas, antes que você siga lendo este texto, vale um alerta: ele não é um manual com um passo a passo para você ser mais criativo. Aliás, isso por si só iria na contramão do potencial criativo de cada um, que não é estático ou definitivo. Eu bem que também gostaria de receber esse conteúdo, mas a proposta ultrapassa um guia prático. Enquanto me esforço para que as minhas habilidades criativas se manifestem neste texto, investigarei como ela está presente em nosso dia a dia e como fazer com que se desenvolva. E, assim, ajudá-lo a ser capaz de apresentar outras formas de pensar e agir além do previsível. Spoiler: é possível.

Lixo meio cheio, meio vazio
A combinação entre a imaginação produtiva e a dedicação constante resulta justamente na definição proposta pelo escritor americano Norman Podhoretz: “A criatividade é a união milagrosa da energia desenfreada da criança com o senso de ordem imposto pela inteligência disciplinada do adulto”. O pesquisador em processos criativos Charles Watson concorda com a afirmação, e provoca ao dizer que “criatividade não é só ter ideias, mas também o compromisso com a concretização dessas ideias”. Assim, não bastam técnicas que nos tornem criativos; é preciso também a energia para colocá-las em prática. “Todo mundo quer um atalho, uma pílula ou um curso de como ser criativo em três etapas, mas não existem soluções rápidas. Criatividade é fruto de um investimento considerável por parte do criador em movimento contínuo por regiões desconhecidas — uma espécie de transciência permanente, com a tendência de romper paradigmas —, que gera desdobramentos para além da esfera pessoal e produz algum nível de contribuição concreta, seja qual for seu campo de atuação (ciência, negócios, literatura, música, filosofia, arte)”, comenta o especialista. 
Depois da conversa com Watson, um escocês radicado no Brasil, comecei a avaliar como a criatividade permeia a minha atividade principal: escrever. Ao me tornar profissional autônoma precisei me organizar para dar espaço à construção de uma nova rotina que demanda bastante criatividade, envolvendo energia e disciplina intensas: além do levantamento de possíveis veículos com os quais colaborar e seus contatos, é preciso estar renovada de ideias. São elas o primeiro passo para sugerir uma pauta, que poderá, então, culminar na publicação de uma matéria, como esta que você lê agora. 
A paixão envolvida na minha escolha seria um dos fatores que contribuem para o sucesso nessa empreitada. “Criatividade é o resultado das nossas atitudes enquanto trabalhamos em projetos que são realmente importantes para nós. Não é algo que saímos por aí procurando ou que esteja esperando ser encontrado — ela acontece quando tomamos boas decisões sobre o que fazemos. A maioria das pessoas criativas não está tentando ser criativa. Elas são apenas altamente motivadas com o que amam fazer, o que gera disponibilidade para novas ideias — e para abandonar as antigas —, comprometimento, foco, curiosidade, persistência e sensibilidade para reconhecer informações relevantes entre tantas aparentemente inúteis. Se você escolheu uma atividade que o faz pular da cama de manhã com entusiasmo, e se insistir nela, mesmo ganhando menos ou até sem ganhar nada, metade da batalha já está vencida”, observa Charles, que dá aulas sobre processo criativo na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio.
O mais legal disso tudo é que é, sim, possível, desenvolver a criatividade. O caminho está em trazer mais flexibilidade em nossa forma de pensar. É isso o que defende Juliana De Mari, responsável por orientações dedicadas a mulheres na Prosa Coaching. “A criatividade amplia as possibilidades de usar experiências, recursos e habilidades que a gente já tem para criar contextos bem diferentes. Basta estar aberto a experimentar”, recomenda ela. Na metodologia de coaching, o coach (aquele que orienta) estabelece que o coachee (aquele que é orientado) desenvolva ou fortaleça uma atitude criativa diante do que quer colocar em movimento. Para isso, a pessoa é incentivada a imaginar possibilidades diferentes para a situação que a está incomodando. Para começar esse processo e lidar com o problema, Juliana sugere testar os padrões de comportamento e as ideias fixas que nos acompanham para conseguir respostas além das habituais, e também aprender a colocar mais imaginação na vida, o que pode ajudar a descobrir o que você pode fazer para aproximar seus ideais da realidade. “Com isso, a dúvida, a autocrítica e a rigidez vão dando espaço a surpresas, novos conhecimentos e inspirações”, aponta.
Acostumada aos processos criativos, a artista plástica e arteterapeuta Gabriela Brioschi conduziu um workshop no Museu de Inhotim, em Minas Gerais, com a intenção de fazer brotar a criatividade. A estratégia inclui a prática da meditação como meio de nos conectar com o eixo interno e, a partir daí, “brincar” com a arte e com a natureza do museu. Além disso, foram promovidas dinâmicas para estimular e ampliar o repertório dos participantes. “O objetivo é despertar os sentidos e as emoções para criar experiências que possibilitem insights .”
Se é possível então ser mais criativo, vale anotar as dicas dos especialistas em resumo: energia e disciplina são itens obrigatórios, abertura para coisas novas e flexibilidade podem ser treinados, e o contato com as artes e com a natureza, com você mesmo e com os outros ao redor pode resultar em criatividade. Como adiantamos, não se trata de um manual infalível, por isso esteja disposto a tentar muitas vezes, e a descartar algumas ideias durante as tentativas. Os erros fazem parte, e lixo cheio de papéis amassados é sinal de progresso.

Repertório em construção
Uma folha em branco não costuma ser preenchida num repente. A criação requer esboços que vão se acumulando. O lixo já estaria transbordando se fosse físico, mas é o cursor de texto do computador que não sossega, deletando trechos ou remanejando frases em busca do melhor resultado. Enquanto tento dominar a escrita, bloqueios temporários e a pressão por encontrar as próximas palavras ameaçam o prazo estipulado para a entrega do material. No entanto, a experiência já me fez entender que pausas são importantes. Por isso, nessas horas, vale ir ao parque, cozinhar ou ler sobre outro assunto.
Além dessas estratégias práticas, a arte pode nos inspirar e contribuir com a geração de respostas mais criativas às questões que nos são colocadas. Para Gabriela, as artes nos ajudam a olhar para dentro de nós e, assim, perceber processos subjetivos e acompanhar a transformação de nossos sentimentos, o que seria uma poderosa ferramenta para a criatividade. Assim, a inspiração para criar algo pode vir depois de ir a uma exposição, de ouvir música ou ler.
Mas, para terminar esta reportagem, senti vontade de saber como a minha rede de contatos se relaciona com a criatividade. Propus uma enquete simples, por uma semana em uma rede social. Em uma amostra de 41 pessoas, a maioria (68%) se considerava criativa. Quem participou: jornalistas, psicólogos, empreendedores e profissionais de moda e cinema, por exemplo. O psicólogo Victor Costa, um dos participantes, explicou por que se considera criativo: “Tenho uma coleção de ideias para aplicativos e soluções tecnológicas, e como psicólogo minha criatividade está sempre presente, principalmente nas analogias e imagens que crio para auxiliar meus pacientes na elaboração de seus sentimentos”, contou. Entre os não criativos, segundo suas percepções, estavam profissionais ligados a engenharia, direito, saúde e até um joalheiro. Thiago Lino justificou-se: “Não me considero criativo em momentos de pressão, quando tenho que criar fora do meu tempo”. 
Para entender melhor o que influencia as percepções de cada um e como podem não coincidir com a do outro sobre nós, pedi ajuda para o especialista Victor: “Para responder se somos ou não criativos, atuam fatores de ordem pessoal (barreiras emocionais e intelectuais) e social (valores, normas e pressupostos cultivados na sociedade). Todos somos requisitados a encontrar soluções, mais ou menos sofisticadas, para os desafios cotidianos”, continua. “Mas, segundo Ernesto Berg, existem algumas características que prevalecem em pessoas criativas: ‘percepção, perseverança e concentração, motivação, originalidade, capacidade de criar e raciocinar por metáforas, fluência, flexibilidade, curiosidade, capacidade de solucionar problemas, de análise e síntese, base de conhecimentos essenciais, abertura para o inconsciente’.” 
A criatividade, enfim, é resultado de um processo intenso capaz de gerar transformações além do senso comum, seja na esfera pessoal, seja na profissional. De certa forma, a criatividade ainda é a caixa de lápis de cor de muitas tonalidades, que podem ser aplicadas a um elefante multicolorido, se você assim quiser, para provar que o mundo pode ser melhor do que uma versão padronizada em cinza.

Laís Barros Martins é jornalista e escritora em busca de espaço para que a criatividade flua livre.

30/05/2018 - 12:30

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