Como você se vê - Como os outros o veem

Você é tímido, mas os outros o consideram arrogante. Por que, afinal, existe sempre uma lacuna entre a forma como nos enxergamos e como as pessoas nos veem? Para explicar esses dois pontos de vista, resolvemos lançar mão de dois textos paralelos - e complementares - sobre como nos constituímos. Afinal, entender essas duas versões de nós mesmos pode diminuir nossa necessidade de aceitação e nos tornar indivíduos muito mais completos

Rafael Tonon

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A relação entre essência e aparência, ou entre "quem somos" e "o que mostramos para os outros" é um tema antigo | Crédito: Shutterstock

COMO VOCÊ SE VÊ

Jean-Jaques Castella é um empresário parisiense bem-sucedido que anda desanimado com a vida que tem levado. Seu descontentamento é geral: trabalho, funcionários, casamento - nada parece satisfazê-lo. Certa noite, sua esposa impõe um convite para irem ao teatro, assistir à participação de uma sobrinha em uma montagem de Bérénice, a famosa peça de Racine. Durante o espetáculo, ele fica estarrecido e inquieto quando a atriz principal, Clara, entra em cena. Sem deixar transparecer para a esposa, ele a convence a esperarem a peça acabar para poder conhecer Clara. A possibilidade de conquistá-la, de repente, dá um novo significado para sua vida. Determinado, Castella passa a frequentar o meio artístico do qual ela faz parte, mesmo sendo um universo totalmente estranho a ele. É a partir daí que o filme O Gosto dos Outros, da atriz e diretora francesa Angés Joui, começa a ganhar graça. Em uma das cenas, Castella divide a mesa com o grupo de teatro de Clara e começa a contar piadas escatológicas. Todos riem sem graça. Ele, sem perceber a gafe, gargalha. Enquanto Castella se vê como um cara agradável e determinado, os amigos de Clara - e principalmente ela - veem a presença dele com estranhamento: um homem rústico, sem qualquer repertório intelecto-cultural.

O filme é pródigo em uma questão que perpassa a realidade de todos nós: quem você pensa que é nem sempre condiz com o que os outros acham a seu respeito. Essa assimetria é fonte de vários mal-entendidos durante nossa vida. E, mesmo que saibamos disso, não nos lembramos desse fato o tempo todo - em geral, ele vem, claro e determinante, quando alguém aponta uma característica de nossa personalidade que não reconhecíamos ou que sequer supúnhamos existir. "Egoísta, eu? Poxa, mas sempre coloco os outros como prioridade!" Essa surpresa quase sempre é consequência de uma noção enviesada de autoconsciência que carregamos. Nossa mente consciente não é, como costumamos pensar, o centro da ação no cérebro; ela é apenas a ponta do iceberg, mantendo a maior parte da sua massa (a mente inconsciente) fora de vista. A verdade é que temos pouca consciência de como agimos e pensamos. E isso reverbera no pouco conhecimento que acabamos tendo sobre nós mesmos.

Que nos determinamos mais por partes inconscientes do nosso cérebro já era uma ideia defendida por Freud lá em 1895. Mas, como o psicanalista austríaco viveu décadas antes do florescimento da moderna neurociência, não poderia supor que os estudos recentes seriam capazes de deixar isso mais claro nos dias de hoje. No livro Incógnito, recém-lançado no Brasil, o neurocientista David Eagleman, do Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos, mostra como a emergente compreensão do cérebro alterou profundamente nossa visão de nós mesmos. "A consciência é o participante menos importante nas operações da mente", afirma ele. "Nosso cérebro funciona principalmente no piloto automático, e a mente consciente tem pouco acesso à fábrica gigantesca e misteriosa que funciona por baixo dela." Isso faz com que tenhamos uma noção muito abreviada de quem nós somos, da personalidade que nos forma. É como se só conseguíssemos nos ver através do reflexo de um pequeno espelho, que nos revela bem pouco e esconde o todo. A partir disso, criamos na mente a imagem de quem somos, quando na verdade essa imagem representa apenas alguns fotogramas da película do filme que de fato nos constitui. "Somos observadores incrivelmente ruins de nós mesmos. Acreditamos que estamos vendo o mundo e nossa realidade muito bem, até que chamam nossa atenção para o contrário", explica.

Mais exposição

A relação entre essência e aparência, ou entre "quem somos" e "o que mostramos para os outros" é um tema antigo, que sugere que o problema tem caminhado junto com a humanidade. O que mudou bastante, principalmente nos últimos anos, é a questão da exposição. Hoje, nos mostramos muito mais aos outros - e as redes sociais estão aí para comprovar isso. Sabemos mais da vida alheia, conhecemos mais suas preferências, seus gostos. "Atualmente, é nítido que há mais espaços para a exposição de si mesmo, mas o problema existencial continua", explica Luís Mauro Sá Martino, doutor em ciências sociais pela PUC-SP e professor da Faculdade Cásper Líbero. Afinal, se a aparência está mais visível, a essência, essa linha mestra que nos define, muitas vezes fica para segundo plano, o que leva as pessoas mais a aparentar do que, de fato, ser. E o que somos - ou como achamos que somos - leva em conta, no mundo contemporâneo, um conjunto de características culturais e individuais: gênero, comunidade, afeto, emoção e vínculos políticos, por exemplo. "A moderna noção de pessoa começa no século 18, com o princípio de que todos os seres humanos são livres e iguais. Hoje essa noção ganhou outras dimensões - o afeto, a emoção e o respeito às diferenças, por exemplo", afirma Martino.

Por isso, é quase impossível pensarmos em nós mesmos como indivíduos isolados (conforme você vai saber mais no texto ao lado), porque estamos inseridos em um contexto social que também nos determina. Nossa autoimagem é constituída por nossa consciência crítica com relação ao que somos, mas também com o que absorvemos (ou rejeitamos) do nosso grupo. Aquela sua amiga ciumenta sabe que passa da conta em algumas situações. Mas o fato de a turma de vocês reprovar esse comportamento faz com que ela tente dosar os acessos de ciúme que tem invariavelmente. É essa equação entre o individual e o coletivo, talvez a mais difícil que tenhamos que resolver no decorrer da vida, que nos define. O mais importante nesse caso é que o resultado nunca é o mesmo, ele muda de pessoa para pessoa. "Como nossos filtros são diferentes, nos constituímos pessoas únicas. Esse processo de individualização é que nos torna ricos", diz Rita Khater, professora da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas. Há um movimento constante de desenvolvimento da consciência pessoal, segundo Rita, que muda a partir da aceitação ou não de alguns valores. "Os padrões sociais também mudam. É preciso internalizar o que está imposto até para negá-los, se for o caso." A formação da autoestima está relacionada aos valores pessoais vistos por nós mesmos como positivos - mesmo que nem sempre reconhecidos pelos outros (se você é feliz com seu perfeccionismo, vai querer alimentá-lo, mesmo que nem todas as pessoas o qualifiquem ou o aprovem, por exemplo). A medida é sempre até onde vai nossa vontade de querer seguir os valores do grupo social e, a partir daí, constituir nossa consciência crítica para nos moldar em pessoas autênticas. "Em cada um de nós há um outro que não conhecemos", como disse Jung. Desenvolver essa tal consciência é que vai fazer com que fiquemos mais íntimos dele. b

COMO OS OUTROS O VEEM

Jean-Jacques Castella é um empresário parisiense rico que anda irritado com a vida que tem levado. Sua irritação é geral: trabalho, funcionários, casamento - nada parece agradá-lo. Certa noite, sua esposa faz um convite para irem ao teatro, assistir à participação de uma sobrinha em uma montagem de Bérénice, a famosa peça de Racine. Durante o espetáculo, fica silencioso e interessado desde que a atriz principal, Clara, entra em cena. E insiste com a mulher para que fiquem até o fim da peça para parabenizar a sobrinha e o resto do elenco. Assim que conhece Clara, deixa transparecer seu interesse por ela. E a possibilidade de conquistá-la de qualquer forma, de repente, se torna uma insistência que faz com que ele force sua presença no meio artístico do qual ela faz parte, causando algumas situações embaraçosas ou até estranhas para ela...Não, leitor, não é um déjà vu! A sinopse do filme O Gosto dos Outros, aqui relatada, é quase a mesma da contada no texto que está ali na coluna ao lado. Mas nesse caso, por abordar a forma como as pessoas enxergam Castella, ganha outra interpretação a partir das opiniões que os outros têm dele. Fica nítido para Clara como ele quer, a princípio, se fazer presente em um universo totalmente alheio a ele para agradá-la. Castella percebe que, para ser aceito pela atriz, é preciso ser aceito primeiro pelo grupo de amigos cultos que ela integra. Porque o que está em jogo, ali, não é apenas a aprovação dele, mas a desaprovação dela - algo que Clara não quer pôr em jogo. É fato que o ser humano, como um ser essencialmente social, sempre teve latente o sentimento de pertencer, de fazer parte de um grupo, de ser respeitado, admirado e amado por seus semelhantes. E isso desde que começamos a andar com a postura ereta e organizar nossas caçadas. A psicóloga Judith Rich Harris foi uma das primeiras a defender a teoria de como o meio social influencia nossa personalidade e nossos comportamentos. "As normas sociais estipuladas por nossos semelhantes dominam nossas escolhas sobre aquilo que valorizamos e o que esperamos da vida", escreveu ela em um artigo na Psychological Review que ressignificou entre os acadêmicos o poder dos grupos sociais em nossa formação. Dessa forma, a identificação com um grupo social pode alterar o comportamento das pessoas. Um soldado, por exemplo, vai à guerra por seu pelotão. Dificilmente empunharia uma arma para enfrentar sozinho o exército inimigo. Porque é na estima de seus companheiros que está sua motivação, e é ela que fortalece sua própria identidade como um soldado corajoso. Precisamos estar conectados a um grupo para reforçarmos nossa própria identidade.

A filosofia sempre tratou de retirar os espinhos dessa questão. Montaigne, por exemplo, sustentava que nosso constante empenho pela aprovação dos outros resulta na maior barreira para nossa paz de espírito. É preciso livrar-se das garras da opinião alheia para não acabarmos corrompidos: ao nos preocuparmos com os julgamentos dos outros, tendemos a imitá-los ou a odiá-los, o que sempre redunda em perturbação. Mas, como seres essencialmente sociais, seria possível abrir mão do que os outros pensam de nós? David Hume, dois séculos depois, sugeriu que as opiniões alheias são uma forma natural e surpreendente de nos ajudar a garantir nosso equilíbrio mental, pois sem elas perderíamos a referência de nós mesmos. "Os filósofos dificilmente concordam entre si quando se trata de afirmar se nossa felicidade pode ser inteiramente independente de qualquer coisa externa", afirma o jornalista e filósofo Hamilton dos Santos, professor do curso A Opinião dos Outros, na Casa do Saber (SP).

Opinião própria

A boa notícia é que, para Hume, se eu não posso fugir dos outros e de suas opiniões, eu ao menos posso remediar a situação pelo gosto, que, para o filósofo escocês, nada mais é senão uma qualidade da mente capaz de abrandar uma série de ansiedades e perturbações. "Como o gosto é uma espécie de instinto calmo e flexível, eu sempre poderei confrontar o meu ao dos outros, isto é, eu posso conformar ou balancear a percepção de mim mesmo à percepção dos outros sobre mim. Como? Confrontando meu gosto (a minha opinião) por pintura, teatro, artes ao gosto padrão (a opinião dos outros)", explica. Aprimorar meu gosto é ter opiniões mais firmes e próprias, não tendo que concordar com tudo o que é imposto. É abrir mão da opinião dos outros para alcançar a paz de espírito. Mas parecemos estar mais presos às apreciações alheias, mesmo nesses tempos em que, pelo menos em teoria, a falta de padrão seria mais aceita. "Em nenhum outro momento da nossa história essa busca pela aprovação do outro foi tão paranoica", diz Hamilton. A cada post no Facebook, a cada foto carregada no Instagram, as pessoas têm uma necessidade maior de serem "curtidas" e valorizadas. Claro que a opinião do outro vale para que eu me constitua da forma como sou, para que eu crie minha identidade. O que não vale é perder a autenticidade em busca de uma aprovação irrestrita sobre meus atos, minhas ideias, meus gostos.

Porque não temos controle sobre o que outros vão achar de nós. "As razões que levam as pessoas a agirem como agem ou pensarem como pensam nos são misteriosas, e temos que preencher os espaços em branco. A interpretação que fazemos é que importa, já que é ela que dita como nos sentimos e agimos perante isso", explica Timothy D. Wilson, professor de psicologia na Universidade de Virgínia e autor do livro Redirect (sem edição no Brasil). Wilson afirma que nossa experiência do mundo é moldada pelas interpretações que fazemos dele, as histórias que ouvimos dos outros. "Nossas interpretações estão enraizadas nas narrativas que construímos sobre nós mesmos e o mundo social e, às vezes, interpretamos as coisas de maneiras pouco saudáveis, que acabam tendo consequências negativas sobre nosso estado de espírito. Poderíamos resolver muitos dos problemas se pudéssemos levar as pessoas a redirecionar suas interpretações em direções mais saudáveis", garante. Isso significa sermos protagonistas da nossa história à medida que nos conhecemos e nos aceitamos, desenvolvendo uma autoimagem e uma autoconfiança que dependam de uma aprovação intrínseca - e não dos outros. Como no caso de Castella, é fazer as pessoas o enxergarem como você é. Assim, fica mais fácil conquistar a mocinha - e, de quebra, os amigos dela. b

AOS MEUS OLHOS

A gente sempre acha que se conhece, mas a história não é bem assim, não: nossa consciência sobre quem de fato somos é apenas uma parte daquilo que nos constitui.

Para nos conhecermos melhor, é preciso nos enxergarmos, também, a partir da ótica alheia e ter disposição para explorar até nossos "pontos cegos": aquelas características que desconhecemos e que só os outros são capazes de perceber em nós

AOS OLHOS ALHEIOS

Buscamos a aprovação dos outros o tempo todo: no trabalho, na família, com a namorada. O problema, nesse caso, é nos moldarmos para agradar as pessoas e acabar deixando de lado aquilo que somos na essência. Quanto mais informações sobre si mesmo você disponibilizar para os outros, maior transparência haverá em suas relações - e menor será sua necessidade de aceitação

02/05/2017 - 14:34

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Revista Vida Simples