Complexo de lagosta

Precisamos ser menos críticos com nós mesmos, sobretudo nos momentos de fragilidade, como no fim de um relacionamento ou numa demissão

Diana Corso

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mesmo tomando cuidados, é inevitável passar por tempos de perdas, de transformações, depois das quais o jeito que éramos já não serve, não dá conta. O simples ciclo da vida – quando entramos em uma fase na qual nos tornamos estrangeiros ao que éramos – já providencia essas mudanças, sem falar em mortes, doenças, separações, demissões, falências. Nesses momentos de instabilidade, parecemos caracóis sem casco ou lagostas sem carapaça. Essa metáfora, chamada de “complexo de lagosta”, é da psicanalista francesa Françoise Dolto, que a associou ao período da adolescência. Quando a capa protetora desse animal marinho torna-se pequena, ele precisa descartá-la e passar um tempo sem proteção, até que o novo exoesqueleto, agora maior, endureça. Obviamente há peixes cuja iguaria são justamente essas criaturas desprotegidas. Ao longo da vida, existem muitos desses períodos de troca de carapaça, e em todos temos o mesmo comportamento: muito medo de sucumbir. É assim, por exemplo, quando a puberdade acaba com a criança que sabíamos ser, quando nos formamos, quando ficamos desempregados, quando realizamos ou desistimos de um sonho, quando descobrimos que um amor acabou definitivamente, quando temos filhos e quando eles crescem e vão embora, quando nossos pais envelhecem, quando  morre algum contemporâneo ou nossos mais velhos começam a partir. A vida nunca cessa de nos pegar indefesos e com as calças na mão. Para as jovens lagostas que nunca deixamos de ser, o único que não ocorre é que talvez não existam predadores interessados em nossa carne – afinal, sentir-se perseguido é um jeito de achar-se importante. Mas o passado ensina. Lembra, quando você tinha 10, 11, 12 anos, do sentimento de catástrofe iminente? Bastava usar alguma roupa ridícula sem saber, faltar a uma festinha essencial, dizer a coisa errada, ser visto com os pais, ser notado, não ser notado... O “meu mundo acabou” de um jovenzinho é exemplar do jeito como nos sentimos quando perdemos as certezas e defesas que nos serviam. Quando adultos já saímos de várias, estamos vivos e talvez um pouquinho mais espertos, mas o susto está sempre rondando. Nada como lembrar os sofrimentos da puberdade para aprender a redimensionar nossa veia dramática e a tendência à autocomiseração. Assim podemos compreender que nosso maior predador é a autocrítica exacerbada, a onipotência de crer que estão sempre de olho em nós. Mesmo quando andamos por aí mais frágeis e sem carapaça, para nossa sorte, a maior parte dos grandes peixes nem vai notar. São, na verdade, nossos próprios olhos que ameaçam nos devorar.

DIANA CORSO é autora do livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista.

18/04/2017 - 10:05

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