Consciência artificial

A nossa inteligência, a nossa capacidade de amar e de cuidar de nós mesmos e da natureza, é que pode trazer as soluções para os dilemas atuais

Lucas Tauil de Freitas

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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Parece enredo de ficção científica. O ano é 2017, a mídia repercute os riscos da iminente criação de máquinas com inteligência artificial. O evento tem nome: singularidade. Capitães da indústria divertem-se ao avaliar que o intelecto do mais brilhante dos humanos é comparável ao de um gato frente ao que está por vir: um sistema inteligente que se autodesenvolve, aprende e melhora por seus próprios meios. Sete bilhões de inteligências biológicas habitam a Terra, a maioria penando para sobreviver; 62 outras, não necessariamente as mais brilhantes, concentram metade da riqueza do planeta. A singularidade não vai nos libertar de nossa ganância, assim como não o fez a Revolução Industrial ou, antes disso, o Iluminismo. Não é apenas a tecnologia que muda a forma como interagimos. A forma como nos relacionamos também cria um tipo de tecnologia. Ergue-se à nossa frente uma onda de problemas tectônicos que ridicularizam nossa capacidade de endereçá-los: crescente desigualdade social, aquecimento global, destruição de biomas pela exploração de recursos. Catatônicos diante da inabilidade das instituições, seguimos nosso cotidiano de consumo e entretenimento. Cada uma dessas ameaças, assim como seus desdobramentos, está emaranhada de forma tão profunda que não pode ser desembaraçada em fatores isolados, forma um sistema. Vis ta sob essa luz, a intrincada teia revela padrões: sua natureza está mais para sintoma do que causa. Se tais ameaças são consequências, e não questões independentes, onde estão as raízes? Não há resposta simples, mas acredito que as perguntas corretas podem apontar um caminho. Qual é a história de fundo que permeia a cultura de consumo? Quais são as falas que forjam o senso comum dessa cultura sem povo ou língua? A quem serve tal narrativa? Estamos tão inseridos em um sistema que reduz tudo a transações e números que não questionamos suas premissas: “Apenas o lucro motiva as pessoas e as faz eficientes” e “Estamos em guerra com a natureza”. Quando nos relacionamos com estratégias de guerra não há outro resultado a não ser a aniquilação do outro. Suprime-se a natureza e tudo o que não sou eu: o indivíduo em guerra. Cada um de nós foi cuidado no mínimo por dez anos na infância. Há milhares de anos a vida floresce na Terra apoiada no cuidar. Uma nova narrativa estruturada na escuta profunda, no reconhecimento do outro, surge em movimentos seminais de mudança nas relações políticas e sociais, como o 15-M, na Espanha, e o Girassol, em Taiwan. A jornada passa por uma rota cheia de privilégios e medo, mas a alternativa é a atual narrativa de guerra. Que nossa força não aniquile, mas crie. Ouvir e cuidar são o cerne da consciência biológica. ƒ

LUCAS TAUIL DE FREITAS cresceu ao som de MPB4, sabe que, quando o muro separa, uma ponte une.

16/12/2016 - 10:37

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Revista Vida Simples