Contos de fadas

As histórias dos livros podem nos ajudar a resgatar a esperança no dia a dia

Diana Corso

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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Devo muito ao Espinosa e ao Mário Conde, entre outros de sua estirpe. Eles são detetives de livro, inventados pelo brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Roza e pelo cubano Leonardo Padura. Sou apaixonada pelo gênero e de tanto em tanto tomo-me de amores por alguma dessas figuras, herdeiras de Sherlock, Poirot, Miss Marple e Maigret, entre os mais populares. A eficiência deles é um contraponto frente à realidade de um mundo injusto, desestruturado, dado a histórias mal contadas e sem um desfecho preciso. Na novela a trama obedece a uma cadência lógica, mesmo que seja criminosa e inevitável, a desgraça recebe a benção de um sentido. Perguntado por que escreve romances noir, Leonardo Padura respondeu: “Porque gosto de contar histórias que tenham princípio e fim, nas quais, diante de tanta falta de justiça e verdade nas sociedades contemporâneas, haja um pouco de senso de justiça, algo que sempre é reconfortante”. Essa explicação partilha da razão pela qual Bruno Bettelheim defendeu a importância dos contos de fadas para as crianças. Suas teses provaram que essas histórias clássicas eram recomendáveis na infância, o que foi decisivo para famílias sempre tão temerosas de errar e traumatizar. Ele acreditava que a presença de figuras ameaçadoras, cruéis e de situações que poderiam assustar seu jovem público era tão imprescindível quanto o desenlace final, no qual o  bem sempre vencia o mal e os protagonistas ficavam felizes para sempre. Ninguém, nem mesmo os bem pequenos, ignora que temos muito pelo que temer. Os bichos-papões de pesadelo preparam-nos para o fato de que o destino, a natureza e o lado obscuro dos homens guardam péssimas surpresas para nós e para nosso mundo. Não são os detetives da ficção que alimentam o medo, os crimes, tampouco as histórias infantis constroem as figuras perversas, monstros, bruxas e ogros que de fato existem. Ao contrário, a ficção nos restitui uma confiança que teima em faltar para seguirmos adiante. Um escritor não manda propriamente em sua história, ela escreve-se nele, através dele. É um tipo de obcecado ao qual seremos eternamente gratos. Sua mente, assim como a nossa, tenta por todos os meios dar contornos ao que insiste em desgarrar-se de toda lógica: o mal e, principalmente, a morte. Há cadáveres nos romances policiais porque gostaríamos que a morte fosse razoável. O mal é rebelde ao bom senso, mas as histórias de detetives devolvem-nos os previsíveis monstros de contos de fadas. É bom escutá-las, lê-las antes de dormir. Nossos sonhos serão ninados pela fantasia de um mundo, embora triste, justo e lógico. Nessas histórias, por vezes tão sombrias, também mora uma pequena e acuada esperança. Essa é a verdadeira fada que vela pelo nosso repouso.

DIANA CORSO é autora do livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista.

14/03/2017 - 12:16

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