Corpo Aberto

É essencial aprender a olhar para o corpo como um organismo povoado por uma fauna complexa, aberto à diversidade. A vida também pode ser assim

Diana Corso

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
A descoberta dos antibióticos foi decisiva para salvar vidas. Tanta foi nossa gratidão que fizemos deles um modo de pensar. Uma vez compreendido que adoecíamos por causa de invasores microscópicos, passamos a depositar a máxima confiança em um ideal de limpeza interior equivalente à assepsia hospitalar. Explicamos às crianças doentes que nelas há um “bichinho” que o remédio exterminará. Só que depois de crescidos ainda sentimos que a saúde é um corpo blindado contra a invasão de seres malignos. Esperançosos, consumimos substâncias incumbidas de aumentar as defesas. A visão que temos do corpo presta-se muito bem à linguagem militar. Porém, nosso intestino abriga um imenso zoológico microscópico. Embora 90% dos espécimes sejam bactérias, há um milhar de espécies e cada um de nós possui sua coleção personalizada delas. Portanto, nosso interior parece-se mais com uma floresta do que com um front de guerra. No ambiente selvagem há habitantes de uma impressionante diversidade entre os quais se estabelecem circuitos de equilíbrio para que o ecossistema continue vivo, variado e rico. Assim, fungos e bactérias organizam-se de modo a que sejamos funcionais e saudáveis. Essa visão está tornando-se popular com o auxílio do livro de Giulia Enders, uma jovem gastroenterologista alemã, autora de um im previsível best-seller sobre o intestino. A Vida Secreta dos Intestinos fala de assuntos que nos fazem torcer o nariz, como fezes, gases e o órgão que os fabrica. Escrevendo com humor e de modo acessível, ela vai despertando nossa simpatia por essa parte povoada e subestimada de nós mesmos. Aprendemos que 95% das bactérias existentes não nos são nocivas e muitas delas são essenciais à sobrevivência. Infelizmente, ao pensar em coisas vivas habitando-nos, a evocação costuma ser terrível: doenças que nos matam ou vermes devoradores de cadáveres. Estar vivo é manter os bichos longe de nós, como se a morte estivesse em qualquer criatura invisível. Está na hora de abandonar o pensamento infantil ou a metáfora militar, isso não é culpa das bactérias, somos planejados para a vida, tanto quanto para a morte. Na falta de condições para compreender a morte, pois não há mente que conceba a própria ausência, a fauna invisível presta-se à encarnação dessa ameaça. Manter o corpo asséptico, fechado, parece ser uma estratégia válida de sobrevivência. Na guerra, em nome da defesa, semeiam-se mortes, da mesma forma que o consumo excessivo de antibióticos acaba por adoecer-nos. Na contramão disso, que tal viver sem medo, pensar no organismo de modo sustentável, aberto à biodiversidade? Somos povoados e sem fronteiras. Sejamos assim de corpo e alma.

 DIANA CORSO é autora do livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista.

22/11/2016 - 17:04

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