Dilema: A pessoa certa existe?

A partir desta edição, inauguramos uma nova série. A ideia é trazer reflexões sobre assuntos que não aprendemos na escola, mas que fazem parte do nosso dia a dia e geram dúvidas e frustrações. Vamos falar sobre relacionamento, amor, trabalho, família. Começamos com o filósofo Alain de Botton, que escreve sobre um medo corriqueiro: casar com a pessoa errada

TEXTO Alain de Botton TRADUÇÃO Bia Mendes

- | <i>Crédito: Paola Viveiros
- | Crédito: Paola Viveiros
Qualquer pessoa que escolhermos para casar, claro, será um pouco errada para nós. É importante ser devidamente pessimista aqui. A perfeição não está em jogo. A infelicidade é uma constante. Ainda assim, encontramos casais com uma incompatibilidade tão primitiva, esmagadora, que concluímos que existe algo além das decepções e tensões normais em um relacionamento longo: alguns casais simplesmente não deveriam estar juntos. Como os erros acontecem? Com espantosa facilidade e frequência. Isso acontece porque casar com a pessoa errada é o equívoco mais comum,  fácil e caro que podemos cometer. Vou listar, a seguir, os motivos pelos quais isso costuma ocorrer. 

Não nos entendemos 
Quando olhamos pela primeira vez para um parceiro, as exigências que surgem são indefinidas, belas e sentimentais: vamos dizer que queremos encontrar alguém legal, divertido, atraente e aventureiro. Não é que esses desejos sejam equivocados, mas não são precisos o suficiente para representar o que, em particular, nos trará uma chance de sermos felizes – ou, mais precisamente, de não sermos totalmente infelizes. A questão é que, em geral, não entendemos sequer a nós mesmos. Todos nós somos loucos de várias formas. Somos neuróticos, desequilibrados e imaturos, mas não conhecemos profundamente esse nosso lado porque nunca fomos encorajados a fazer isso. Um exercício básico e urgente é cada um conhecer e lidar com a sua forma particular de loucura. É preciso enfrentar suas neuroses, compreender de onde vêm, o que elas nos levam a fazer e, mais importante, o que as provoca ou as acalma. Uma boa parceria não é aquela que existe entre duas pessoas saudáveis (e não há muitas delas no mundo), mas entre duas pessoas doentes que têm a habilidade ou a sorte de encontrar uma adaptação ou acomodação consciente e não ameaçadora entre as insanidades de cada uma delas. O pensamento de que talvez não sejamos tão difíceis como pessoas pode disparar um alarme no companheiro em potencial. A questão é justamente onde os problemas vão surgir: talvez tenhamos uma tendência a ficar furiosos quando contrariados, ou só relaxamos no trabalho, ou não gostamos de intimidade depois do sexo. São essas coisas que, ao longo do tempo, minam os relacionamentos. Por isso precisamos reconhecer as pessoas que podem lidar perfeitamente com esse nosso lado. Uma pergunta que deveria ser feita já nos primeiros encontros é: “Como você é quando está furioso ou irritado?” O problema é que não é tão fácil conhecer nossas neuroses. Pode levar anos. Antes de casar, raramente estamos envolvidos em situações que mostrem nossas loucuras. Quando algo ameaça revelar o lado difícil da nossa natureza, a tendência é culparmos o outro – e fim de papo. E, quando estamos sozinhos e bravos, não gritamos porque não há ninguém para ouvir – e portanto negligenciamos a nossa verdadeira força e capacidade de cólera. Ou trabalhamos sem parar, porque não há ninguém chamando para jantar, e assim usamos o trabalho para ter a sensação de controlar a vida. E, à noite, tudo o que pensamos é como seria gostoso estar abraçado com alguém, mas não temos a oportunidade de enfrentar um lado que não deseja a intimidade, que vai nos deixar frios e estranhos quando nos sentimos envolvidos com alguém. Uma das maiores vantagens de estar sozinho é a ilusão de que somos pessoas fáceis e calmas de conviver. Dessa forma, conhecendo tão pouco nossa personalidade, não é de estranhar que não saibamos que tipo de parceiro devemos procurar.

 Não entendemos o outro 
Esse problema existe porque as outras pessoas têm tão pouco autoconhecimento quanto nós. Entretanto, por mais bem-intencionadas que possam estar, não estão em posição de compreender, muito menos de nos contar, o que há de errado com elas. Naturalmente, fazemos um esforço enorme para conhecer o outro: visitamos a família, vemos fotos, conhecemos os amigos. Tudo isso contribui para criar a sensação de dever de casa feito. Mas é como um piloto novato achando que pode pilotar depois de jogar aviões de papel na sala. Numa sociedade mais sábia, os futuros parceiros fariam um questionário psicológico e passariam pela análise de psicólogos. Precisamos conhecer o funcionamento da psique do outro, seu comportamento ou postura sobre autoridade, humilhação, sexualidade, dinheiro, ter filhos, envelhecer, ser fiel, e centenas de outros temas. Na falta disso, somos levados, na maioria das vezes, pelas aparências. Mas isso é como pensar que uma foto de uma usina de energia pode nos dizer tudo que precisamos saber sobre uma fissão nuclear. Projetamos uma gama de perfeições no ser amado baseada em pequenas evidências. Ao elaborar uma personalidade completa, olhando detalhes pequenos, estamos fazendo com o ser interior do outro o que nossos olhos fazem naturalmente com o desenho de um rosto. Não vemos o desenho como a imagem de alguém sem narinas, sem cílios e com oito fios de cabelo. Sem perceber que estamos fazendo isso, completamos o que falta. O nível de conhecimento de que precisamos para fazer dar certo um casamento é maior do que a sociedade está preparada para reconhecer e apoiar – e portanto nossas práticas no que diz respeito a casamento são bastante equivocadas.

 Não sabemos ser felizes 
Acreditamos que vamos encontrar a felicidade no amor, mas não é tão simples. O que às vezes buscamos de fato é ter alguém ao lado – o que pode complicar nossos planos no que concerne à felicidade. Recriamos nos relacionamentos adultos alguns sentimentos que conhecemos na infância. É nessa fase que aprendemos e entendemos pela primeira vez o que o amor significa. Mas, infelizmente, essas lições podem não ser úteis quando crescemos. O amor que conhecemos quando crianças pode vir junto com outros sentimentos, como controle, humilhação, abandono, falta de comunicação, sofrimento. Quando adultos, podemos rejeitar bons candidatos não porque eles são errados, mas porque são muito equilibrados (maduros, compreensivos, confiáveis), e isso nos parece estranho e nada familiar, quase opressivo. Procuramos, então, candi datos pelos quais no sso subconsciente é atraí do, não porque vão nos agradar, mas porque vão nos frustrar de forma já familiar. Casamos com a pessoa errada porque a certa parece errada – não merecemos; não temos a experiência do saudável, porque, em última análise, não associamos ser amados com sentimentos de satisfação. 

Ficar solteiro é ruim 
É difícil escolher um companheiro de forma racional quando se assume que ficar solteiro é insuportável. É preciso estar em paz com a solidão para ter a chance de desenvolver um bom relacionamento. Ou o ódio por ser solteiro sempre será maior do que o amor pelo parceiro que nos tirou dessa situação. Infelizmente, depois de certa idade, a sociedade define que ser solteiro é ruim. A vida em grupo começa a murchar, os casais se sentem ameaçados pelos solteiros para convidá-los para sair, e o solteiro começa a surtar por ter que ir ao cinema sozinho. Quando o sentido de “companhia” remete somente a casal, as pessoas acabam se juntando a outras somente para não ficarem sozinhas. É hora de tirar o significado de companhia da acepção de casal, e ampliar tanto quanto a liberação sexual prega. 

O instinto é  importante 
No passado, o casamento era um negócio racional, um encontro de interesses. Era frio e não tinha qualquer ligação com a felicidade. Ainda somos traumatizados por isso. O que substituiu o casamento racional foi o romântico. Decretou-se que apenas o sentimento era determinante para se casar. Assim, a coisa mais romântica a se fazer era pedir a noiva em casamento rapidamente, de surpresa, após poucas semanas de relacionamento, num ímpeto de entusiasmo – sem dar a mínima chance para a terrível razão, a responsável pelos infortúnios das pessoas durante tantos anos. Essa despreocupação mostrava que o casamento pode funcionar  precisamente porque a velha segurança de antes era muito nociva para a felicidade das pessoas.

 Não fomos à Escola do Amor 
Então surge um terceiro tipo de casamento, que batizei de psicológico. Nele, não se casa por interesse, por estar se sentindo só, mas quando o sentimento é submetido a uma análise sob a égide da consciência madura dos envolvidos. Atualmente, decidimos dividir nossa vida com alguém sem qualquer informação: não lemos sobre o assunto, não convivemos com crianças, não interrogamos outros casais nem falamos com sinceridade com aqueles que já se divorciaram. Entramos num casamento sem conhecer as razões que o levam a falhar. Precisamos de novos critérios. Deveríamos querer saber: “Quão louco você é? Como quer criar os filhos? O que podemos fazer para crescer juntos e ainda continuar amigos?” 

Queremos ser felizes sempre 
Temos um desejo urgente e desesperado por fazer só coisas boas, o tempo todo. Queremos comprar o carro que gostamos, queremos viver no país que adoramos visitar. E queremos casar com a pessoa com quem dividimos horas deliciosas. Imaginamos que o casamento é garantia da felicidade que temos com o outro. E que isso nos ajudará a engarrafar esse sentimento, como a felicidade que sentimos quando idealizamos o pedido de casamento: estaremos em Veneza, com o Sol refletindo sobre as águas... Casamos e queremos que essa sensação nunca acabe. Infelizmente, não há uma relação direta de causa e efeito entre casamento e essa sensação, que é produzida por Veneza, pelo dia,  por não estar trabalhando, pela excitação... nada que a relação consiga garantir ou nutrir. O casamento não congela um momento. Na realidade, ele vai levar a vida a dois para um estágio diferente: uma casa na cidade, trânsito difícil, filhos pequenos. E esses não seriam os ingredientes adequados para engarrafar. Os pintores impressionistas do século 19 tinham uma filosofia implícita de transitoriedade que nos aponta para uma direção mais sábia. Eles aceitavam essa fragilidade da felicidade como uma característica inerente à existência, o que nos ajudaria a crescer mais em paz com ela. O quadro de Sisley de uma cena de inverno na França foca um conjunto de coisas atraentes mas fugazes: o entardecer ameniza a secura dos galhos; a neve e as paredes cinza se harmonizam. Mas, em poucos minutos, a noite cairá. O impressionismo está interessado em mostrar que as coisas que mais amamos mudam, duram pouco tempo e então desaparecem. Ele celebra a felicidade efêmera, não a que dura anos. Nessa obra, o céu é lindo naquele momento, mas logo vai escurecer. Esse tipo de arte tem a habilidade de ir além da própria arte: poder aceitar e observar os curtos momentos felizes que temos. 

Nos achamos especiais
 As estatísticas não são animadoras. Todo mundo conhece exemplos de casamentos ruins. E sabemos que boa parte dos relacionamentos enfrenta desafios imensos. Mas, mesmo assim, não usamos essa  experiência na própria vida. Achamos que são regras que servem para os outros e, mesmo que os números mostrem que metade dos casamentos não dá certo, você acha que no seu caso será diferente. O ser amado se sente único. Com tamanha possibilidade de ganhar, o jogo de casar parece controlado. Silenciosamente nos excluímos da generalização. Mas poderíamos nos beneficiar se enxergássemos os fatos. 

Não queremos sofrer
 Antes de casarmos, é provável que tenhamos passado por uma série  de amores turbulentos. Tentamos ficar juntos com pessoas que não gostam da gente, frequentamos festas para encontrar alguém e conhecemos a excitação e as decepções amargas. Com o tempo, cansamos disso. Uma das razões para desejar casar é interromper a opressão que o amor exerce sobre a psique. Estamos exaustos das emoções que levam a lugar nenhum. Desejamos que o casamento possa exterminar a dor do amor que rege nossa vida. Mas ele não pode e não vai: há tanta dúvida, esperança, medo, rejeição e traição na relação a dois como há na vida de solteiro. É só do lado de fora que o casamento parece pacífico, previsível e também monótono. 

Alain de Botton  é filósofo, escritor e ficou conhecido por aplicar conceitos filosóficos para resolver os grandes e os pequenos dilemas do dia a dia. Nasceu  na Suíça e atualmente mora em Londres. É um dos idealizadores da The School  of Life e autor de diversos livros sobre amor, viagens, arquitetura e literatura.

25/04/2016 - 12:21

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