DILEMA: FINANÇAS

POR QUE DAMOS TANTA IMPORTÂNCIA PARA O DINHEIRO?

John Armstrong

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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Às vezes, a preocupação é se teremos recursos para pagar todas as contas no fim do mês. Às vezes, o dinheiro até é suficiente, mas esquentamos a cabeça com o sustento futuro. Tudo isso é legítimo, mas nosso olhar tem que ir além. É preciso entender o que, de fato, dá sentido à vida e baseá-la em valores que ultrapassem os ganhos materiais

De certa forma, parece imensamente prosaico – mas ao mesmo tempo completamente natural – que o dinheiro seja uma presença frequente nos pensamentos de todos nós. Isso acontece porque ele representa segurança e também um meio para conseguir o que precisamos e queremos. Não ter o suficiente significa uma série infinita de aflições, humilhações e privações. Apesar disso, na verdade, nossa obsessão pelo dinheiro tem também alguns aspectos estranhos que revelam características profundas da condição humana moderna. Para entendermos melhor essa relação, precisamos fazer uma diferenciação, logo de cara, entre  problemas com dinheiro e preocupações com dinheiro. Os problemas são dificuldades imediatas e diretas, como, por exemplo, não conseguir pagar uma dívida, uma conta ou coisas das quais você realmente precisa em dado momento. As preocupações, por outro lado, podem afetar até mesmo pessoas que têm o suficiente. Você pode se afligir, por exemplo, por acreditar que não vai ter dinheiro o bastante daqui a cinco ou dez anos; por talvez ter tomado uma decisão ruim há alguns anos, que não o deixou tão tranquilo quanto poderia estar agora; pode se preocupar por (apesar de ter sorte financeiramente) ter gastado muito; por ser financeiramente dependente de seu parceiro (embora ele tenha o bastante para sustentar você); por ter ganhado muito menos dinheiro do que algum colega da faculdade. Como essas preocupações não têm a ver com dificuldades financeiras reais e urgentes, podem facilmente ser consideradas egoístas ou injustas. De um jeito rígido, podemos ficar tentados a dizer a nós mesmos para cessar com essa autocomiseração e ficar felizes por termos o suficiente para nos mantermos. Podemos acabar não apenas inquietos em relação aos nossos ganhos financeiros mas também nos sentindo culpados por nos preocuparmos tanto com isso. Uma estratégia diferente e mais produtiva é não menosprezar as preocupações, mas levá-las muito a sério – dar a elas nossos melhores pensamentos e atenção. Deveríamos tentar entendê-las melhor, em vez de fingir ignorá-las.

 Nosso valor humano
 Nós nos preocupamos com dinheiro por vários motivos importantes – que, estranhamente, não são de natureza essencialmente econômica. Na verdade, as inquietações provocadas com as finanças podem ser definidas como legítimas e importantes e se apresentar inicialmente com um disfarce econômico, mas são, na verdade, ansiedades oriundas de coisas muito diferentes. Um dos principais motivos para nos preocuparmos com nossos ganhos é que eles parecem ser – no mundo moderno – uma medida de nosso valor humano. É uma forma de “pesar nossa alma”. O cristianismo medieval gostava de retratar a ideia do valor da vida de uma pessoa sendo avaliada após a morte. De acordo com essa visão, seríamos colocados (imaginavam) em uma espécie de máquina de pesagem para sermos comparados com outros homens e mulheres. Podemos pensar que somos sofisticados, mas continuamos avaliando nosso valor comparativo, e a balança que usamos tende a ser a financeira. Sentimos que, se ganhamos mais dinheiro, somos pessoas melhores; se ganhamos menos, somos piores. Não aplicamos isso normalmente aos outros. Não imaginamos, por um momento sequer, que toda pessoa rica é um amor e todo pobre é horrível. Reservamos essa medição para apenas um caso – infelizmente, aquele que nos importa mais: nós mesmos. Nós nos julgamos financeiramente não porque somos incrivelmente materialistas, mas sim por um motivo muito mais tocante e curioso: não sabemos ao certo como avaliar nossa própria vida. Parece um pouco estranho admitir isso publicamente, mas queremos muito nos ver como pessoas boas e decentes. Queremos sentir que fizemos um bom uso de nossas qualidades, mas a questão é: que provas poderiam contar em nosso favor? Conhecemos bem demais todas as coisas terríveis: estragamos algumas amizades, não encontramos exatamente um trabalho que podemos amar, nosso histórico de relações passa longe da perfeição. Em termos dos contrapesos ideais, não mudamos o mundo para melhor nem iniciamos uma inovação tecnológica. O dinheiro se torna crucial para nós porque parece uma conquista ao mesmo tempo definitiva e positiva. Podemos, assim, medi-lo. Podemos ter a certeza de que as pessoas ao nosso redor entenderão isso. No passado, havia outros métodos de autoavaliação. Se você fosse muito religioso, poderia julgar sua vida em termos de quão leal foi aos ideais da Igreja. Se fosse um aristocrata, poderia medir seu valor pela grandeza de sua árvore genealógica ou por seus modos impecáveis. Em ambos os casos, a ausência de dinheiro não teria uma importância em particular, porque esses outros ideais eram considerados não apenas por você mas também por muitas outras pessoas, inclusive sociedades inteiras, como superiores às finanças acumuladas. Se tivéssemos sido boêmios vivendo na Paris do final do século 19, poderíamos ter nos avaliado quanto à nossa devoção aos ideais mais altos da arte e da cultura. O problema é que essas atitudes – que diminuem o papel do dinheiro – frequentemente aparentam ser menos persuasivas. Parecem esnobes demais ou um tanto pomposas. O dinheiro se torna a medida do valor de nossa alma não porque somos materialistas cínicos. Na verdade, isso acontece porque não sabemos o que mais poderíamos usar ao pensar em nós mesmos. Queremos dar sentido à nossa existência, ponderar nosso próprio valor humano, mas a sociedade – coletivamente – não nos diz como poderíamos fazer isso de uma forma na qual conseguíssemos realmente acreditar. Há outra opção. Poderíamos tentar avaliar nossa vida em termos do desenvolvimento psicológico: poderíamos ponderar quão sábios ou gentis nos tornamos. Poderíamos vincular nossa própria dignidade não simplesmente às finanças, mas à nossa maturidade. No entanto, ao fazermos isso, geralmente não sabemos a quem pedir ajuda. Não vivemos em um mundo ou tampouco em uma sociedade com uma ideia forte, coerente e clara de como implementar ideias que não estejam relacionadas aos valores financeiros quando se trata de nos avaliarmos. Um dos motivos por trás do autodesenvolvimento – e das aulas que ministro na The School of Life – é exatamente este: destacar ideias (como maturidade, sabedoria, gentileza e gratidão) que possam nos ajudar a entender nossa vida em termos não financeiros.

A série Dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”. A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.

A the school of life explora questões fundamentais da vida em torno de temas como trabalho, amor, sociedade, família, cultura e autoconhecimento. Foi fundada em Londres, em 2008, e chegou por aqui em 2013. Atualmente, há aulas regulares em São Paulo e no Rio. Para saber mais: theschooloflife.com/saopaulo

 John Armstrong é escocês, filósofo e professor da The School of Life em Londres. É, ainda, autor de uma série de livros que tem como objetivo aproximar a filosofia da vida que levamos todos os dias. Entre eles está Como se Preocupar Menos com Dinheiro (Objetiva)

31/05/2017 - 11:16

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