Dilema: Tempo

Como viver com mais calma?

Carl Honoré

- | <i>Crédito: Paola Viveiros
- | Crédito: Paola Viveiros
Encontrar momentos de pausa no dia a dia não é só uma questão de frear ou desacelerar, mas de encontrar o seu tempo interno para fazer as tarefas variadas. E descobrir qual é o seu ritmo das coisas é de uma sabedoria enorme sobre si mesmo e um exercício sobre o que você quer para a sua vida.

Todo pai sabe que as crianças gostam de histórias lidas em um ritmo suave e interessante antes de dormir, mas eu era rápido demais para desacelerar com os Irmãos Grimm. Disparava pelos contos de fada, pulando linhas, parágrafos, páginas inteiras. Minha versão de Branca de Neve só tinha três anões. “O que aconteceu com o Zangado?”, perguntava meu filho de 4 anos. Então, um dia, me vi olhando para uma coletânea de Histórias de Ninar em Um Minuto – pense em Branca de Neve condensada em 60 segundos – e foi aí que o alarme começou a soar. Felizmente, nunca comprei as fábulas de um minuto. Em vez disso, comecei a investigar a possibilidade de desacelerar em um mundo viciado na velocidade. O que descobri é uma boa notícia: cada vez mais e mais pessoas, em lugares e realidades diversas, estão encontrando maneiras de pisar no freio – e ter uma vida mais rica e produtiva como resultado disso. Vamos encarar: precisamos de uma revolução “slow” (devagar, em inglês) mais do que nunca. O mundo está preso na aceleração. Trabalhamos rápido, falamos rápido, pensamos rápido, comemos rápido, brincamos rápido. Até fazemos amor com pressa. Uma revista masculina britânica recentemente publicou a seguinte manchete: “Leve-a ao orgasmo em 30 segundos! Em 1909, um grupo incansável de intelectuais europeus publicou o Manifesto Futurista, que afirmava que “a magnificência do mundo foi enriquecida por uma nova beleza: a da velocidade. Um carro de corrida com seu capô enfeitado com grandes tubos como serpentes com respiração explosiva... um carro com motor rugindo, que parece movido a pólvora, é mais bonito do que a Vitória Alada de Samotrácia” (escultura grega que era colocada na proa dos navios para simbolizar a vitória). Atualmente, essas palavras parecem coisa do século passado. Fazer tudo com pressa claramente é uma loucura. Nossa saúde, dieta e relacionamentos sofrem. Cometemos erros no trabalho. Temos dificuldade em relaxar, aproveitar o momento e até em ter uma boa noite de sono. Nosso vício em velocidade é tão grande que estamos até tentando acelerar coisas que são, por natureza, projetadas para nos desacelerar. Perto de minha casa, em Londres, há uma academia que oferece aulas noturnas de ioga acelerada. Há pouco tempo, um amigo meu, que mora nos Estados Unidos, foi convidado para um funeral com drive-thru! É por isso que o movimento slow, que convida as pessoas a desacelerar, está crescendo rapidamente. No mundo inteiro, cerca de 200 cidades slow oficiais estão colocando a qualidade de vida à frente da proliferação. Milhões de pessoas estão adotando uma abordagem mais lenta à comida e, como resultado, comendo melhor. Veja a ascensão dos mercados de rua e aulas de culinária, ou o renascimento de pães, queijos e cervejas artesanais. O movimento italiano slow food, que defende tudo o que o fast food não representa, já conta com mais de 100 mil membros em 150 países, incluindo o Brasil. Pisando no freio Desacelerar também pode fazer maravilhas entre quatro paredes. Todos rimos quando (o cantor) Sting falou sobre fazer sexo tântrico durante horas sem fim, mas agora casais, em países diversos, correm para workshops para aprender a arte de fazer amor sem pressa. A Itália tem até um movimento chamado slow sex. Outros milhões estão melhorando corpos e mentes com exercícios mais lentos (como ioga, tai chi chuan e levantamento de peso super-slow) e formas de medicina também mais lentas (como reiki, acupuntura e herbalismo). Há um movimento crescente para também deixar as crianças desacelerarem. Afinal, elas precisam de tempo desestruturado para recarregar as baterias, aprender a socializar e a pensar criativamente. Cidades em toda a América do Norte estão realizando dias oficiais de desaceleração, quando as atividades extracurriculares e lições de casa são canceladas para dar às crianças tempo para relaxar, brincar, ficar com os amigos – para serem crianças. De Toronto a Tóquio, muitas escolas estão melhorando os resultados em provas ao reduzir a carga de lição de casa o ano inteiro. Agora há movimentos prósperos para varejo, design, produção, educação, tecnologia e leitura slow. As viagens também estão aumentando à medida que as pessoas procuram maneiras de aproveitar mais a jornada. Até o local de trabalho está adotando a revolução slow. Empresas como as internacionais Boston Consulting Group e a KPMG estão aumentando a produtividade ao estimularem as equipes a passar menos tempo no trabalho. Outras, como Volkswagen, BMW e Puma estão impondo limites ao desligarem seus servidores de e-mail fora do horário de trabalho. Neste ano, a França aprovou uma lei obrigando as companhias com mais de 50 funcionários a permitir que eles desliguem o smartphone depois do trabalho. Um executivo sênior da empresa de tecnologia IBM lançou o que intitulou de movimento e-mail slow para estimular os funcionários a checar menos as caixas de mensagem. Na mesma toada, muitas empresas incentivam os funcionários a fazer pausas durante o expediente. Pesquisas mostram que relaxar ajuda o cérebro a entrar em um modo mais rico e cheio de nuances de pensamento. É por isso que nossas melhores ideias raramente vêm no meio de uma reunião acelerada; vêm quando relaxamos – tomando 

sol na praia ou durante um banho de banheira. Os psicólogos até chamam isso de “pensamento lento”. Mais lento Obviamente, é possível levar essa coisa de desaceleração longe demais. Mais lento nem sempre é melhor. Ir rápido pode ser divertido, liberador e produtivo. A filosofia slow significa fazer tudo na velocidade certa – rápida ou lenta ou o ritmo em que você funciona melhor. Em outras palavras, você não precisa largar a carreira ou jogar o celular para desacelerar. Pode pegar leve, em qualquer lugar. É uma questão de usar o tempo mais sabiamente. Recentemente, a revista inglesa The Economist publicou um conselho para quem espera prosperar na economia global: “Esqueça a aceleração frenética. Dominar o relógio dos negócios é uma questão de escolher quando ser rápido e quando ser lento”. Entrar em contato com o que tenho chamado de “minha tartaruga interna” deu certo para mim. Ainda aproveito a vida na acelerada Londres, mas não sou mais um papa-léguas. Estou mais relaxado, dinâmico e criativo. Eu me sinto mais capaz de desfrutar cada momento. Estou vivendo minha vida em vez de passar correndo por ela. 

A série dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”. A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.


A The School of Life explora questões fundamentais da vida em torno de temas como trabalho, amor, sociedade, família, cultura e autoconhecimento. Foi fundada em Londres, em 2008, e chegou por aqui em 2013. Atualmente, há aulas regulares em São Paulo e no Rio. Para saber mais: theschooloflife.com/saopaulo.

Carl Honoré nasceu na Escócia, é escritor, palestrante e líder do movimento slow no mundo. Seus livros, nos quais fala sobre a importância de desacelerar, foram traduzidos para mais de 30 línguas. Mora em Londres e esteve em São Paulo recentemente a convite da The School of Life.




28/07/2017 - 12:40

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Revista Vida Simples