Dilemas: A tecnologia ajuda nas relações?

é importante saber que a relação olho no olho ainda é a mais eficiente para que aprofundemos a conexão com as pessoas ao nosso redor e, principalmente, com a gente mesmo

Texto: David Baker Lettering: Tiago Gouvêa

A tecnologia ajuda nas relações | <i>Crédito: Divulgação/Vida Simples Digital
A tecnologia ajuda nas relações | Crédito: Divulgação/Vida Simples Digital

O uso de computadores, tablets, smartphones e aplicativos pode, em muitos momentos, nos aproximar do outro, manter amizades ou ajudar a fazer novas. Mas é importante saber que a relação olho no olho ainda é a mais eficiente para que aprofundemos a conexão com as pessoas ao nosso redor e, principalmente, com a gente mesmo

todos podemos citar os benefícios da tecnologia digital que nos cerca: nos reconectarmos com velhos amigos no Facebook; usar aplicativos para chamar táxi, pedir comida; estudar com os melhores professores universitários em um curso online. No entanto, um novo estudo feito pelo departamento de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, nos eua, confirmou o que muitos de nós já pensamos há algum tempo: existe um lado negativo na revolução tecnológica — e que é mais grave do que imaginávamos. A professora Jean Twenge, que coordenou a pesquisa, avaliando dados recolhidos de mais de 500 mil adolescentes, concluiu que aqueles que gastavam mais tempo com as mídias digitais tinham maior tendência a concordar com frases como “Parece não haver esperança para o futuro” e “Acho que não consigo fazer nada certo”. E aqueles que passavam um tempo menor na internet estavam menos propensos a esse negativismo. Para Twenge, isso pode indicar não uma causalidade, mas uma correlação entre os fatos. “É possível que, em vez de mais tempo online causar depressão, a depressão é que faça a pessoa ficar mais tempo online”, explicou. Vale saber que outros estudos também sugeriram uma relação entre o uso da internet e problemas emocionais. Ou seja, parece, de fato, que a tecnologia está afetando, de alguma forma, a maneira como lidamos com os nossos sentimentos — ou, para usar uma expressão mais usual, a nossa inteligência emocional.

O peso das emoções
Em um mundo que valoriza tanto a inteligência cognitiva é uma tarefa árdua mostrar que as emoções também têm seu peso. Desde a primeira revolução industrial, que revelou a capacidade que as máquinas têm de aumentar a produtividade, tendemos a priorizar aptidões “técnicas”, como resolução de problemas, gerenciamento de projetos e a capacidade de usar recursos de forma eficiente. Assim, habilidades como empatia, compreensão, autoconhecimento, compaixão e resiliência passaram para o fim da lista de prioridades e a ser vistas como menos úteis e menos capazes de contribuir para o crescimento econômico. Isso continuou sendo uma tendência na revolução digital, que adicionou a isso a solidez dos dados. É por essa razão que agora temos aplicativos que (dizem que) irão aumentar nossa felicidade, estimular nosso senso de propósito e nos ajudar a encontrar o amor — áreas da vida que têm mais a ver com a emoção do que com a cognição. Mas, como algumas pessoas que tenham passado algum tempo no Tinder sabem, a tecnologia não tem proporcionado uma solução mágica. E o motivo é que ela (ainda) não é capaz de acessar apropriadamente as emoções. Inteligência emocional envolve aumentar nossa compreensão sobre a maneira como processamos sentimentos como coragem, determinação, ansiedade, felicidade, animação, constrangimento, confiança. A lista é longa e representa uma área inexplorada da nossa mente que a tecnologia tende a neglicenciar em favor do que é mecânico, cognitivo e racional. No entanto, essas emoções são tão reais quanto nossos pensamentos intelectuais e possivelmente mais potentes. E agora, com a inteligência artificial avançando em quase todas as áreas, é hora de encontrarmos maneiras de cultivar melhor também as nossas emoções. Sim, nós podemos cultivá-las. Nossa tendência é acreditar que isso é algo que algumas pessoas têm e outras não, algo nato (“Ela é muito confiante”, “Ele tem tendência à ansiedade”). Mas as emoções são ferramentas que usamos para lidar com o mundo. E elas têm vantagens universais, mesmo num mundo tecnológico em que tantas coisas podem fazer com que a gente se sinta como pequenas engrenagens numa grande máquina digital.

Como funcionamos
O primeiro passo para desenvolver a inteligência emocional é começar a olhar para os nossos sentimentos, tomar consciência de cada um deles. Em geral, não damos muita atenção ou não nos dedicamos em pensar sobre as emoções que brotam dentro da gente — exceto quando elas nos inundam, como quando estamos apaixonados, deprimidos ou em pânico. Uma forma de fazer isso é através do mindfulness (ou atenção plena), que consiste em focarmos nos pensamentos e sentimentos que estão transitando pela nossa mente. Outra forma é a psicoterapia, na qual falamos sobre pensamentos e emoções, trazendo-os à tona para, então, observá-los. Uma terceira maneira é escrever — ou filmar, ou gravar — como estamos nos sentindo. Vale fazer isso por dez minutos ao acordar ou depois de um evento que tenha sido especialmente desafiador. Não importa muito qual desses caminhos você escolha. Apenas encontre um que tenha mais a ver com você e faça isso regularmente, pelo menos uma vez por semana. Aos poucos, como qualquer habilidade, isso se tornará automático. Uma vantagem disso é que começamos a entender melhor como funcionamos ao sermos confrontados pelos pequenos desafios cotidianos. Esses exercícios tornam a vida mais agradável e sintonizada com o que queremos. Mas uma segunda — e, na minha opinião, ainda mais poderosa — vantagem é que isso também nos ajuda a entender melhor as outras pessoas. Todos temos inseguranças ou ficamos empolgados quando algo animador acontece; somos duros com a gente mesmo quando achamos que não estamos fazendo algo que deveríamos estar fazendo; e assim vai. É disso que nossos pensamentos e nossa vida emocional são feitos — e todos nós estamos experimentando as mesmas coisas. Quanto mais conseguirmos explorar as experiências emocionais alheias, mais vamos reconhecer os outros como pessoas de fato — em vez de como entidades sem corpo do mundo digital, pessoas que não parecem ter uma vida real, mas cujas opiniões sobre nós, reais e imaginadas, parecem importar. Sabemos que muita gente fica abalada com comentários online, mesmo os de estranhos. E sabemos que o contato olho no olho é muito mais recompensador do que conversar com alguém através de uma tela. Mas a comunicação online é tão atraente, fácil e menos arriscada do que na vida real que não surpreende estarmos todos digitando sem parar. A verdade é que estamos na adolescência da era digital. Estamos empolgados com as possibilidades maravilhosas que as novas tecnologias oferecem e apenas começando a entender o lado negativo. Mas, em vez de combatê-la — porque ela fará cada vez mais parte da nossa vida  —, o mais recomendável é entender nossos sentimentos e como reagimos às adversidades. Isso fará bem para nós e para todos ao redor.

A série Dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”.  A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.

A The School of Life explora questões fundamentais da vida em torno de temas como trabalho, amor, sociedade, família, cultura e autoconhecimento. Foi fundada em Londres, em 2008, e chegou por aqui em 2013. Atualmente, há aulas regulares em São Paulo e no Rio. Para saber mais: theschooloflife.com/saopaulo

David Baker é jornalista, escritor, coach, consultor, professor e um dos fundadores da The School of Life no Brasil. Ele foi, também, um dos criadores da revista Wired no Reino Unido, que trata sobre tecnologia. E escreve regularmente para algumas das mais reconhecidas publicações do mundo.

31/01/2018 - 12:36

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