Dilemas: Como escolher um amor

Parece que estamos em busca da felicidade quando descobrimos um novo amor; porém o que nosso radar interno quer mesmo é familiaridade

Texto: Alain de Botton Lettering: Tiago Gouvêa

Como escolher um amor | <i>Crédito: Divulgação/ Vida Simples Digital
Como escolher um amor | Crédito: Divulgação/ Vida Simples Digital

Parece que estamos em busca da felicidade quando descobrimos um novo amor; porém o que nosso radar interno quer mesmo é familiaridade. Assim, frequentemente, escolhemos parceiros com características que conhecemos desde a infância, através daqueles que cuidaram de nós. Entender isso nos ajuda a encontrar uma pessoa para amar

Como escolhemos as pessoas por quem nos apaixonamos? A resposta romântica é a de que nossos instintos nos levam naturalmente a indivíduos legais e bons para nós. O amor é uma espécie de êxtase que acontece quando nos percebemos diante de uma alma bondosa e incentivadora, que satisfará nossas necessidades emocionais, entenderá nossas tristezas e nos fortalecerá para os momentos difíceis da vida. Para encontrarmos nosso amante, devemos nos deixar conduzir por nossos instintos, tomando cuidado para não nos desviarmos por reflexões psicológicas minuciosas demais, ou então por questões como status, riqueza ou linhagem. E, dessa maneria, seguimos acreditando que nossos sentimentos nos avisarão com clareza suficiente quando chegarmos ao nosso destino. Perguntar a alguém por que escolheu uma pessoa em particular é — na visão romântica — um desnecessário e ofensivo mau entendimento sobre o amor: o verdadeiro amor é um instinto que recai de forma precisa e natural sobre aqueles com a capacidade de nos fazer felizes. A atitude romântica soa acolhedora e afetuosa. Seus criadores com certeza imaginavam que ela acabaria com a espécie de relação infeliz anteriormente estabelecida pelos pais e pela sociedade. A única dificuldade é que nossa obediência ao instinto muitas vezes se mostra um desastre. Respeitar os sentimentos especiais que temos por algumas pessoas em boates e estações de metrô, festas e websites, e que o romantismo muito habilmente celebrou nas artes, parece não ter nos levado a ser mais felizes em nossas relações do que um casal medieval algemado a um casamento por duas cortes reais sedentas por preservar a soberania de um pedaço de terra ancestral. O “instinto” pouco tem sido melhor do que a “união arranjada” em garantir a qualidade de nossas histórias de amor. A esta altura, no entanto, o romantismo não desistiria da discussão tão facilmente — atribuiria as dificuldades que frequentemente temos no amor a não termos procurado o suficiente por aquela figura central da fantasia romântica: a pessoa certa. Esse ser inevitavelmente está por aí (cada um tem sua alma gêmea, o romantismo nos garante), nós é que não conseguimos encontrá-lo — ainda. Então devemos continuar a busca, com toda a tenacidade necessária, e, talvez, assim que o divórcio for assinado e a casa, vendida, acertaremos. Entretanto, há outra linha de pensamento, influenciada pela psicanálise, que questiona a noção de que o instinto invariavelmente nos leva a quem nos fará felizes. A teoria insiste que não nos apaixonamos, antes de mais nada, por aqueles que cuidam de nós do jeito ideal, mas sim por quem cuida de nós do jeito familiar. O amor adulto surge de um modelo de como deveríamos ser amados que foi criado na infância e, provavelmente, está entrelaçado com diversos impulsos problemáticos que lutam fortemente contra nossas chances de crescimento. Podemos acreditar que estamos procurando a felicidade no amor, mas o que realmente buscamos é a familiaridade. Estamos procurando recriar, dentro de nossos relacionamentos adultos, as mesmas sensações que conhecemos tão bem na infância — e que raramente se limitavam a apenas ternura e cuidado. O amor que a maioria de nós experimenta no começo se confunde com outra dinâmica, mais destrutiva: sentimentos de querer ajudar um adulto descontrolado, de ser privado do afeto de um pai ou temer sua raiva, ou de não nos sentirmos seguros o suficiente para comunicar nossos desejos mais complexos. Então é lógico que nos vemos, quando adultos, rejeitando candidatos não porque são errados, mas porque são um pouco certos demais — no sentido de parecerem, de alguma forma, excessivamente equilibrados, maduros, compreensivos e confiáveis —, pois, em nosso coração, tal perfeição parece estranha e desmerecida. Corremos atrás de pessoas mais empolgantes, não na crença de que a vida com elas será mais harmoniosa, mas por uma noção inconsciente de que ela será confortantemente familiar em seus padrões de frustração. O processo pelo qual identificamos nosso parceiro é chamado, pela psicanálise, de “escolha de objeto” e recomenda que tentemos entender os fatores que semiconscientemente regem nossas atrações para, dessa maneira, cessar os padrões nada saudáveis que estão em jogo. Nossos instintos — nossos fortes impulsos de atração e repulsão — vêm de experiências complicadas que tivemos quando éramos jovens demais para entendê-los e que perduram nas antecâmaras da nossa mente. A psicanálise não quer sugerir que tudo em nossas atrações será deturpado. Podemos ter aspirações legítimas a qualidades positivas: inteligência, charme, generosidade... mas também podemos nos sentir inevitavelmente atraídos por tendências mais complexas: alguém frequentemente ausente, ou que nos trata com certo desdém, ou que precisa estar cercado de amigos o tempo inteiro, ou que não consegue controlar suas finanças. Por mais paradoxal que pareça, sem esses comportamentos complicados talvez simplesmente não sejamos capazes de sentir paixão ou  ternura por alguém. Ou, então, podemos ter sido tão traumatizados por uma figura paterna que não conseguimos nos relacionar com ninguém que compartilhe das mesmas qualidades que ela, mesmo que só as boas. No amor, podemos ser totalmente intolerantes com uma pessoa inteligente ou pontual ou interessada em ciências simplesmente porque essas eram as características de alguém com quem tivemos alguns problemas no passado. Para escolhermos nossos amores com sabedoria, precisamos entender como nosso impulso para o sofrimento ou nossa fuga implacável do trauma podem estar se manifestando em nossos sentimentos de atração. Um ponto de partida útil é perguntar a nós mesmos (talvez usando papel e caneta em uma tarde de folga) que tipo de pessoa realmente nos desanima. Repulsa e aversão são boas referências de partida porque provavelmente reconhecemos que algumas características que nos dão arrepios não são exatamente negativas e, mesmo assim, são para nós um tanto brochantes. Podemos, por exemplo, sentir que alguém que quer saber o tempo todo como estamos, ou que é bastante carinhoso ou muito leal, seja um tanto esquisito e assustador, e também podemos reconhecer, ao longo do caminho, que um certo grau de crueldade ou distância pertencem a uma estranha lista de atributos aparentemente necessários para que amemos a pessoa. É difícil evitar a autocensura aqui, mas a questão não é agirmos como pessoas confortadoras e previsíveis, e sim conhecer os traços curiosos de nossa própria psique. Tenderemos a perceber que algumas coisas evidentemente muito boas estão ficando presas em nosso filtro de amor: pessoas eloquentes, inteligentes, confiáveis e otimistas podem fazer o alarme disparar. Esse é um conhecimento vital. Deveríamos fazer frequentemente uma pausa e tentar desvendar de onde vêm as nossas aversões, que aspectos de nosso passado fazem com que seja tão difícil aceitarmos alguns tipos de acolhimento emocional. Toda vez que reconhecemos algo negativo em nós, descobrimos uma associação crucial em nossa mente: estamos notando uma impossibilidade de amar com base em acontecimentos do passado projetados no presente. Outra forma de chegarmos às associações que circulam nos cantos mais obscuros da nossa mente é concluir frases incompletas, que nos convidam a reagir a coisas que podem nos atrair ou afastar de alguém. Conseguimos ver nossas reações mais claramente quando escrevemos sem pensar muito nas respostas, flagrando o trabalho do inconsciente. Por exemplo, podemos anotar a primeira coisa que vem à cabeça quando lemos o seguinte: Se digo a meu amor o quanto preciso dele, ele... / Quando alguém me diz que realmente precisa de mim, eu... / Se alguém não consegue lidar com algo, eu... / Quando alguém me diz para organizar minha vida, eu... / Se eu fosse honesto sobre minhas ansiedades... / Se meu companheiro me dissesse para não me preocupar, eu... / Quando alguém me acusa injustamente, eu... Nossas reações descritas honestamente são também nosso legado. Elas revelam presunções subjacentes que adquirimos sobre como o amor deve ser. E começamos a perceber que nosso ideal do que buscamos em outra pessoa talvez não seja uma referência especialmente boa para nossa felicidade individual ou mútua. Examinando nosso histórico emocional, vemos que não conseguimos nos sentir atraídos por qualquer um. Ao conhecermos o passado, identificamos nossas associações iniciais pelo que são: generalizações que formamos — de forma muito compreensível — com base em apenas um ou alguns exemplos que nos marcaram. Sem saber, acabamos por transformar algumas associações pontuais em regras bastante rígidas, e às vezes intransponíveis, para os nossos relacionamentos amorosos. Mesmo se não conseguirmos mudar radicalmente nosso padrão de escolha, ainda assim é útil saber que estamos carregando esse fardo. Isso pode nos tornar, por exemplo, mais cautelosos quando nos sentirmos extasiados pela certeza de que finalmente encontramos a pessoa certa depois de poucos minutos conversando na mesa de um bar. Essencialmente, seremos liberados para amar pessoas diferentes de nossos “tipos” pré-estabelecidos, porque constatamos que as qualidades de que gostamos, e aquelas que tememos, são encontradas em constelações distintas das que conhecemos nas pessoas que nos ensinaram sobre afeto, há muito tempo, em uma infância que finalmente estamos começando a entender e da qual estamos nos libertando. 

A série Dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”. A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.

Alain de Botton é filósofo, escritor  e um dos idealizadores da The School of Life. É também autor de diversos livros sobre amor, viagens, arquitetura  e literatura. Ele acaba de lançar por aqui O Curso do Amor (Intrínseca).
 

28/12/2017 - 10:32

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