Diversidade como sobrevivência

Precisamos nos inspirar nos cardumes de peixes e nas aves migratórias que compreendem a interdependência que vivemos

Lucas Tauil de Freitas

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Há mais de um ano navego em território não cartografado. Há quem diga que arrisco despencar com barco e tudo em uma cachoeira oceânica. Convencido que a Terra é redonda, sigo no rumo. Aposto em um novo modelo de trabalho apoiado na colaboração e na diversidade. Nosso mundo está a tal ponto orientado ao trabalho que governos e organizações civis tornaram-se miúdos ao lado das corporações transnacionais. Nossa cultura é ditada por gerentes corporativos, e não por políticos. Na Revolução Industrial, o desafio dos trabalhadores era ter acesso aos meios de produção. Na era digital, essa barreira foi superada pela miniaturização e baixo custo de maquinário. O desafio, neste momento, é ter acesso aos mercados. Os desafios tectônicos da atualidade estão mais para sintomas do que para doença. Falta de acesso aos mercados ou aquecimento global não são causas primárias, mas sim resultado de uma cultura. Uma forma de ver a realidade, que cria e perpetua sua visão de mundo. A cultura de consumo, focada no indivíduo, desconsidera a interdependência e as relações entre as pessoas. E tenta reduzir tudo a transações financeiras e equações cartesianas. Nossa realidade, entretanto, não é linear. Por mais hegemônica e devoradora que seja, essa cultura não é única. Há 6 mil línguas no planeta e 6 mil formas diferentes de olhar a realidade. Precisamos atentar para o significado da diversidade. A mídia massificada pinta a diversidade como um ato de caridade: veja que bonito como se cuida dos pobres, como há espaço para as mulheres e para os menos favorecidos. Esse discurso que associa a diversidade à caridade é mortal, mas não para as minorias, e sim para nossa sociedade como um todo. Sair da enrascada em que nos metemos, ignorando o outro e apostando no individualismo depende de uma guinada forte. Um movimento que precisa ser inspirado nos cardumes de peixes e nos bandos de aves migratórias, que compreendem a interdependência em que vivemos. Para encontrarmos equilíbrio e resiliência, que permitam que nossas crianças vivam em um ecossistema saudável, dependemos da diversidade de cada perspectiva, de povos, gêneros, opções sexuais e toda e qualquer variação que possamos imaginar. Esse arco-íris de habilidades e percepções pode criar uma nova prática de trabalho, vida e consumo que altere dramaticamente como nos relacionamos. Essa é a luz que vem da estrela para a qual timoneio. Temos pressa, a cachoeira se aproxima, a prática precisa crescer de forma viral. Vamos sustentar a imagem de uma Terra onde não somos números, mas habitantes, concidadãos, vizinhos e familiares. É hora de colaborar e honrar nossa interdependência e diversidade.

LUCAS TAUIL DE FREITAS aprendeu, depois de velho, a ouvir as pessoas profundamente e a remar junto.

21/11/2016 - 14:21

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Revista Vida Simples