Dores do corpo e da alma

Cada vez mais profissionais de saúde percebem a importância de olhar não apenas para a doença mas para a pessoa. E é nesse acolhimento do outro que a dor ameniza e o coração aquece

Kátia Camargo

Dores do corpo e da alma | <i>Crédito: Ilustração: Tiago Gouvêa
Dores do corpo e da alma | Crédito: Ilustração: Tiago Gouvêa

Na canção show de estrelas, o músico Marcelo Jeneci se refere às pessoas como 7 bilhões de faróis, a brilhar e brilhar. Quantas vezes, ao temermos uma doença grave, em nós ou em algum de nossos familiares, o que mais buscamos em um médico é que ele seja um farol, que nos ajude em uma direção, que nos indique um caminho e que deixe claro que está junto na batalha? A médica Silvia Brandalise é assim... um farol. Silvia fundou, em Campinas, interior de São Paulo, o Centro Infantil Boldrini — o nome é uma homenagem ao médico Domingos Boldrini. O lugar é um hospital filantrópico e uma referência no tratamento de câncer e hematologia infantil. A ideia de criar um lugar assim surgiu exatamente para iluminar os caminhos de meninos e meninas com câncer. Silvia é dessas pessoas que sabem olhar verdadeiramente para o outro. Na medicina que pratica, a saúde ou a doença não são medidas apenas por exames ou remédios, mas por um olhar, um afago, um tempo dedicado à escuta. “Para mim nunca existiu leito 10, leito 30. Existia André, Maria, Juliana... Fazia questão de saber os nomes, a história de vida das crianças, 
das famílias. É impossível enxergar somente um paciente ou uma doença. Estamos falando de pessoas, de dores, sofrimentos, mas também de vida, de laços de amor, de esperança, de possibilidades de cura”, diz. Silvia é oncopediatra, está com 74 anos, e se aposentou há quase cinco pela Unicamp. Mas segue uma rotina diária, das 7h às 19h, no Boldrini. “Eu sempre negocio mais anos de vida com Deus e só penso em parar quando não existir mais doença”, conta a médica, que no começo da carreira só queria ser pediatra porque tentava se esquivar do que fazia mal para o seu coração. “Me machucava ver as crianças magrinhas e carequinhas com câncer e não poder fazer nada.” No final da década de 1970, quando já atuava como médica, a possibilidade de cura da doença no Brasil não ultrapassava os 5%. Foi a proximidade que teve com dois garotos de 5 anos, ambos chamados André e portadores de leucemia, que mudou tudo. O primeiro André não conseguiu se curar, mas a família pediu que Silvia fosse o “farol” para outros pequenos. Já o segundo André ficou bem, hoje tem um filho e é dentista. Pronto! Foi um caminho sem volta para a médica. Esse olhar diferenciado começou ainda na adolescência. Aos 15, Silvia ficou fascinada ao ler uma reportagem sobre o médico alemão Albert Schweitzer, que se mudou para o Gabão, na África, para montar um hospital (que inicialmente funcionava em um galinheiro) e cuidar da população pobre dali. Essa admiração fez com que ela escrevesse uma carta para Schweitzer dizendo o quanto o admirava. O que o médico nunca soube é que seu exemplo influenciou na escolha profissional dela e a inspirou a fundar um hospital-referência. Silvia lembra com orgulho de ter recebido uma resposta, escrita pela enfermeira que trabalhava com Schweitzer, dizendo que ele se emocionou ao ler palavras tão tocantes de uma criança. Em 1952, ele recebeu o Nobel da Paz e com o dinheiro do prêmio construiu uma colônia para leprosos.

A arte do cuidar
No filme Patch Adams — O Amor é Contagioso o ator Robin Williams representa o médico americano Hunter Doherty, que ficou famoso por uma metodologia na qual o amor tem papel fundamental no processo de cura. Para Hunter, o tratamento de uma enfermidade engloba, por exemplo, tocar nos doentes e olhar nos olhos. Ele acredita que os comprimidos aliviam a dor, mas só o amor alivia o sofrimento. Mais recentemente, surgiu um movimento chamado slow medicine (medicina sem pressa) que também lembra bastante os métodos usados por Hunter Doherty. É uma maneira mais próxima e humana de exercer a medicina e na qual o profissional de saúde se aproxima do paciente, olha com atenção, ouve de verdade, reflete, e (por que não?) constrói relações sólidas com a pessoa que está se tratando, sua família e até com a comunidade ao redor. E tem tempo para estar ali com o outro. O cardiologista italiano Marco Bobbio, autor do livro O Doente Imaginado (Bamboo Editorial), é um grande propagador desse tipo de medicina. O professor do curso de especialização em dor do Hospital Israelita Albert Einstein (SP) e psicólogo especialista em dor crônica José Luiz Dias Siqueira acredita que a slow medicine é um dos grandes desafios para os profissionais da saúde, inclusive da rede pública, mas vê com bons olhos essa tendência. “Por um longo período, a medicina foi se dividindo em partes bem específicas e os médicos foram se especializando. Acredito que enxergar o pedacinho continua sendo importante, mas é fundamental nunca perder o todo”, diz. Ele ainda ressalta que tem visto essa tendência em muitos profissionais especialistas que procuram seu curso. “Vejo que muita gente, inclusive no SUS (Serviço Único e Saúde), está buscando desenvolver projetos interessantes nessa área. Precisamos dessa medicina mais humanizada”, destaca. A psiquiatra Gabriela de Lima Freitas conta que desde a época em que cursava a faculdade se encantou com a medicina tradicional chinesa, porque unia a parte física com a mental. “Por experiência dentro do consultório, vejo que olhar as pessoas de uma forma integral faz diferença na busca da cura. No consultório, os primeiros encontros nunca duram somente uma hora, porque procuro ver muito além da doença, como detalhes que podem ter desencadeado o problema. Precisamos resgatar, não só na medicina mas na vida, o tempo para parar e ouvir as pessoas”, conta. Apaixonada por dançar, Gabriela cursou também dança. “Ter essa visão dos movimentos me ajuda no consultório. Assim como na dança, precisamos estar atentos aos movimentos que fazemos na vida”, diz.

Nasce um novo olhar
Raissa Gabaldi aprendeu na prática a diferença do olhar de uma medicina mais humana. Ela e o filho Adriel moravam em Manaus (AM) até o ano passado, quando se mudaram temporariamente para Campinas (SP) em busca de um tratamento para a leucemia do pequeno no Centro Infantil Boldrini, citado no início desta reportagem. Por conta disso, Raissa deixou uma carreira na área de gastronomia, o noivo, a família enfim. “Senti muita diferença entre o tratamento que é realizado no Centro e o que ele fazia em Manaus. Isso se deu desde o momento que fomos acolhidos pelos médicos e por toda a equipe. Dá para perceber o amor que os profissionais têm por cada criança, e a atenção com a família é algo que impressiona”, diz. Ela conta que agora o menino encara diferente o tratamento. “Antes, se sentia obrigado a fazer os procedimentos. Hoje, ele faz com tranquilidade os exames, as consultas e a quimioterapia. Isso porque tudo é feito de forma lúdica, para a criança sofrer o menos possível. Meu desejo é que todos tivessem a oportunidade de ter a opção de um tratamento tão digno e amoroso.” A mãe de Adriel lembra que, em Manaus, o filho estava abatido, mal andava, não tinha disposição. “Agora ele brinca. Voltou a ser o que era antes de ficar doente, porque se sente vivo e cheio de esperança”, conclui. Por conta da distância, mãe e filho moram na Casa Ronald, que mantém as famílias durante o tratamento. “Essa experiência de estar num espaço com outras mães que compartilham dores e angústias me fez amadurecer. Claro que temos que enfrentar perdas, mas não tenho dúvidas de que juntos somos mais fortes. Eu aprendi a me relacionar com todo tipo de pessoas e vi que leucemia não é um bicho de sete cabeças, principalmente se o paciente estiver sendo bem cuidado.” Ela ainda ressalta a esperança que a mantém firme na luta. “Sinto que meu filho sairá curado. Somos parceiros do processo de cura, e não meros receptores. Antes de passar por isso nunca imaginei que existisse essa medicina que nos enxerga como gente”, conta.

Sobre ser um farol
Uma medicina mais humanizada não significa que só existirão finais de contos de fadas. No pacote da vida também vêm junto dores e ausências. A diferença é que você sabe que não está mais caminhando no escuro, tentando tatear para encontrar as melhores escolhas para seguir existindo. De novo, você tem um médico que lhe é luz, farol, que se sensibiliza com a sua dor, acolhe e segue junto. Me recordo quando, em 2012, minha mãe estava na UTI e a vida dela se esvaía a cada minuto. Foram as palavras de um jovem médico que trouxeram a luz de que eu e meus irmãos necessitávamos naquele momento de escuridão emocional: “Vocês precisam deixá-la partir, temos hora para entrar e para sair desta vida. Acredite, um dia vocês irão se encontrar, porque são ligados pelo amor”. Foi com essas frases inesperadas que aquele médico, que não nos conhecia, acalentou meu coração e dos meus irmãos. Já sabíamos que o caso dela era irreversível, mas a forma como nos foi dada a notícia fez toda a diferença para enfrentar a situação. Meia hora depois ela realmente se foi. Em seu livro A Morte É Um Dia Que Vale a Pena Viver (Casa da Palavra) a geriatra Ana Claudia  Quinta Arantes, especializada em cuidados paliativos, resume bem isso. Ana lida com pacientes que estão em seus últimos dias de vida. Ela ajuda a trazer alívio para a dor de quem vai e de quem fica. Em seu livro, ela lindamente escreve: “Penso que todo médico deveria ser preparado para nunca abandonar seu paciente, mas na faculdade aprendemos apenas a não abandonar a doença dele. O médico que foi treinado sob o conceito ilusório de ter poder sobre a morte está condenado a se sentir fracassado em vários momentos da carreira. A infelicidade é uma presença constante na vida do médico que só aprendeu sobre doenças. Já aquele que busca o conhecimento sobre cuidar com o mesmo empenho e dedicação que leva para o curar é um ser humano em permanente realização”. 

KÁTIA CAMARGO está sempre em busca de pessoas que são faróis, seja na medicina, seja na vida.
 

07/12/2017 - 10:48

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