Dormindo com o vizinho

Vínculos dependem de estarmos atentos ao outro e, a partir disso, é possível experimentar uma relação sincera costurada pela felicidade genuína

Diana Corso

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
meu paciente gostou tanto do livro que comprou vários exemplares para dar de presente. Trouxe-me um também, para que pudéssemos falar sobre a história. Por aqueles dias, li várias resenhas de críticos que também sentiram-se tocados pelo lançamento de Nossas Noites (Companhia das Letras), do americano Kent Haruf. O cerne da história é simples: uma viúva, interiorana e convencional, cansada das insônias que chegam com a idade, resolve fazer um convite a seu vizinho, também viúvo há bom tempo. Ela propõe que ele a visite para dormirem juntos, conversarem e se fazerem companhia durante as noites. É assim direto o convite da septuagenária Addie para seu vizinho Louis. Ela acrescenta algo que adultos maduros e crianças sabem bem: as noites são a pior parte. Várias novidades amarram a trama iniciada a partir dessa proposta inusual. A primeira é que ela parte de uma mulher que nunca foi ousada. Conforme a tradição, mulheres não deveriam ser propositivas, pelo menos, não explicitamente. Paradoxalmente, somos consideradas pueris e românticas como crianças, embora reconhecidamente dotadas de pragmatismo. Addie pensou racionalmente sobre um tema que costumamos examinar com a lupa do ressentimento: a solidão. Fazemos isso como quem passa o traço sob as colunas de um livro de contas: rememoramos todos aqueles a quem dedicamos afeto, apoio, escuta e tantas outras abnegações que supomos ter tido. Segue-se a indignação pelo que concluímos terem sido maus investimentos, pois filhos, amigos e parentes costumam ir tratar da própria vida, que nem sempre nos inclui. Resultado, solidão acrescida de autocomiseração. Louis custou um pouco para compreender o convite. Seu estranhamento se entende, pois dormir juntos requer coragem, é partilhar a maior intimidade possível. Fazer-se companhia na hora do sono, quando ficamos desarmados, é um desafio maior do que ter uma relação sexual, a qual não estava nos planos dos dois, a princípio. Mas ele topa e o resto do livro dedica-se ao desenrolar desse encontro, assim como às reações da comunidade e dos filhos de cada um. Adianto que eles acabam vivendo momentos do que poderíamos chamar de felicidade, a genuína, essa que pulsa pequenina e passa desapercebida. Esse livro é um manifesto afetivo, uma lição a ser repassada. A solidão é destino certo para os que supõem que existe o momento de receber o troco pelo que julgam ter dado. Esse ressarcimento nunca chegará. Vínculos dependem de estarmos atentos aos outros e às oportunidades para propor encontros. Louis e Addie conversaram muito, curiosos um do outro. Foram corajosos para ir a lugares que aqueles que resolvem dormir com suas mágoas nunca conhecerão. ƒ

DIANA CORSO é autora do livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista.

16/10/2017 - 16:03

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Revista Vida Simples