É hora de sonhar coletivamente

O que faríamos em meio à crise atual se a humanidade inteira tivesse apenas 30 integrantes?

Gustavo Gitti

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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Nnas eleições em São Paulo, no Brasil, nos EUA e agora na França, fica ainda mais evidente o quanto estamos divididos. Somos como uma família de 30 pessoas incapaz de se juntar: em uma bolha, ficam 20 pessoas falando apenas entre si; em outro canto, dez conversam também apenas entre si. Nós nos esbarramos, mas somente nos comunicamos indiretamente por votos, de anos em anos – e às vezes nos assustamos com o que descobrimos. Ainda que seja uma pseudo-escolha, uma eleição é uma aula de interdependência: é como se primos distantes, que sempre ignoramos, decidissem como será construída parte de nossa casa. Precisamos conversar além das bolhas. Se a linguagem usual da política gera atrito imediato, podemos falar de nossos sofrimentos, do que visualizamos para o futuro, de como queremos viver. Se não nos ouvirmos e sonharmos mais juntos, quem vai oferecer sentido para as pessoas talvez seja um político com intenções duvidosas. Ou vamos deixar que um conjunto de corporações organize nossos desejos, direcione nossos olhares, defina nosso futuro. Uma pessoa desconectada de um sonho coletivo é uma pessoa perigosa. Ela não apenas é facilmente manipulada como age sem se sentir parte de uma família. Seu isolamento é a origem de toda a violência – nossa com ela e dela com todos. Observe como estamos recebendo os no
vos humanos: “Bem-vindo! A gente tá meio sem saber o que fazer, então, sei lá, arranja um trabalho, se vira, compra alguma coisa, se distrai, tenta não enlouquecer. Não sei como posso te ajudar, não sei o que é mais prioritário e benéfico para a nossa comunidade e para o mundo. Tô meio sem tempo, ah, olha que engraçado esse vídeo aqui, falamos depois!”. Precisamos oferecer uns aos outros sentidos mais nítidos, caminhos mais possíveis e principalmente uma comunicação emocional com nossos medos e angústias. A surpresa da mídia americana diante do resultado das eleições não foi apenas fruto do engano dos institutos de pesquisa e dos estudiosos, tampouco apenas da ausência de escuta coletiva além das bolhas. Foi também uma ignorância do mundo interno: as pessoas não votam com dados e argumentos, mas com emoções. Mais do que novos projetos, precisamos de continuidade. Mais do que escolher entre grupos, precisamos de uma mente capaz de convergir diferentes movimentos em um sonho ainda mais coletivo. Em vez de criticar o mundo atual, o momento é de reconhecer nossa liberdade de construir um novo mundo. Parece óbvio, mas não temos ideia de nossa força coletiva – ainda nos sentimos impotentes, atados, apáticos. Se fôssemos apenas 30 pessoas, o que faríamos agora? (Continua na próxima edição.) ƒ

GUSTAVO GITTI é coordenador de uma comunidade online de transformação. Seu site é gustavogitti.com

20/06/2017 - 10:30

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