Eu e a serra

Uma viagem de motocicleta e os aprendizados que um caminho cheio de curvas nos proporciona

Eugenio Mussak

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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“então a gente se encontra naquele posto da saída às 11 horas, combinado?” “Claro que sim. Supercombinado, amigo. A gente se encontra lá e vamos pegar a estrada.” E foi o que fizemos, em um sábado de dezembro. O destino? Bem, para quem gosta de viajar de moto, a viagem é que é o destino. Mas, para efeitos práticos, a ideia era sair de Curitiba em direção a Gravatal, uma pequena cidade de águas termais, a cerca de 140 quilômetros depois de Florianópolis, onde passaríamos a noite. No dia seguinte, a glória: a Serra do Rio do Rastro. E lá fomos nós, os Doc Riders, quatro colegas da faculdade de medicina, que se formaram juntos, seguiram sua vida, construíram carreira, tiveram filhos, amadureceram, experimentaram a beleza e as dificuldades da profissão e, 40 anos depois, se encontraram como se ainda fossem aqueles quase adolescentes da faculdade, com a mesma alegria no coração, atraídos por uma paixão comum: as motocicletas. Ao longo dos anos, nos encontramos esporadicamente para pequenas incursões, sempre planejando uma aventura maior. A viagem total, dessa vez, seria de cerca de 2 mil quilômetros, mas o foco são aqueles 34 quilômetros que nos elevam a 1420 metros de altitude, entre os municípios de Lauro Muller e Bom Jardim da Serra, no sul de Santa Catarina. A questão é que não se sobe quase 1500 metros em pouco mais de 30 quilômetros impunemente. Há um preço a pagar, representado por curvas, muitas curvas. Para ser exato, 284 curvas, mais de oito por quilômetro, algumas formando verdadeiros cotovelos. E é nas curvas que encontramos dois protagonistas que com frequência andam juntos: a graça e o perigo. Não saímos cedo de Gravatal. É prudente esperar um pouco, pois muito cedo a neblina ainda cobre a serra, o que impede a visão e aumenta o perigo. Depois de um café da manhã relaxado, degustando o pão e as geleias locais, que seguem receitas originais dos imigrantes, arrumamos as motos com calma e lá fomos nós, excitados. E a serra não decepcionou. Com a sorte de um domingo ensolarado, quase incomum naquele lugar, subimos devagar, parando para deixar a beleza entrar pela retina e invadir a alma. A estrada foi construída no final do século 19 pelos habitantes da região. Vários pequenos municípios haviam surgido no alto da serra a partir de lotes recebidos pelos imigrantes, especialmente alemães e italianos, que começaram a organizar sua vida nesse lado do Oceano Atlântico. Junto com a pouca bagagem, duas coisas os acompanhavam: sonhos no peito e mãos fortes para o trabalho árduo. Naquela época, a única forma de ter alguma conexão com o mundo eram os barcos que aportavam no porto de Itajaí. Era ali que as correspondências chegavam e partiam. Era também a maneira de escoar e receber mercadorias. Era imperioso chegar mais rápido ao litoral. A solução foi construir um acesso através da serra. Hoje, passando pela estrada, ficamos imaginando o tamanho da obra, e é impossível não se admirar com a capacidade quase infinita de realização do ser humano. A estrada da Serra do Rio do Rastro normalmente é lembrada pela beleza natural que se exibe, faceira, aos olhos dos passantes. Mas a obra em si é igualmente imponente, e impressiona os mais observadores. Hoje, uma obra dessas seria entregue a uma grande empreiteira, que utilizaria equipamentos de última geração para mapear o local, desenhar o projeto, e decidir qual a melhor solução de engenharia para aquele tipo de terreno. Provavelmente custaria uma fortuna e depois seria entregue para uma empresa administradora, que cobraria um bom pedágio. Naquela época, o que havia à mão era pouco mais do que se utilizava para rasgar um pequeno trecho de estrada dentro de uma fazenda. O dinheiro era pouco; as ferramentas, rústicas; o projeto, baseado parte em levantamentos topográficos e parte em intuição dos projetistas. Se faltava quase tudo, sobrava vontade. À noite, já acomodados em uma simpática pousada na pequena cidade de Urubici, nos reunimos para jantar, conversar sobre a experiência e planejar o dia seguinte. Entretanto, a conversa entre os quatro amigos derivou bastante, como costuma acontecer. Saiu da pequena estrada da serra, que acabávamos de enfrentar, e pegou um atalho para a grande estrada da vida. Cada um de nós contou algo sobre sua trajetória. Valia qualquer assunto. Podia ser sobre a carreira de médico, sobre a família, conquistas, fracassos, amigos, propriedades, estudos. Nenhum assunto era proibido, mas havia um 
padrão a ser respeitado: as curvas da vida. Depois de um dia inteiro dedicado às curvas, nada mais lógico do que continuar seguindo por aí. Estávamos obcecados pelas voltas da estrada. Hipnotizados pela beleza e pelo mistério de cada curva que se abria após vencida a anterior. Aliás, quando propus que chegássemos ao consenso sobre qual havia sido o grande aprendizado do dia, houve unanimidade: “Após uma curva, existe outra”, disse um dos colegas, de forma mansa, mas definitiva. Não havia como discordar. A Serra do Rio do Rastro foi muito clara em sua pedagogia. Sempre, depois de uma curva, haverá outra. E cada curva nos torna mais preparados para a seguinte. Pobres dos que se negam a enfrentar as curvas da vida, e se contentam com retas planas, definitivas. Planícies nada mais são do que intervalos entre montanhas, e não o contrário. Os quatro percebemos que nossa vida teve muitas curvas, representadas por mudanças, dificuldades, momentos críticos, conquistas especiais e até tragédias pessoais. E concluímos que foram justamente essas curvas que nos tornaram mais humanos, que nos fizeram mais fortes e que nos deram alguma sabedoria. O problema da curva é que ela exige respeito. Não perdoa falta de educação. Você não entra em uma curva com a velocidade da reta, pois a força da velocidade inercial teima em manter a trajetória anterior, o corpo se inclina, a vista fica reduzida, e você nunca sabe o que virá logo a seguir. E é justamente nessa confluência que se encontra a beleza, tal e qual aquela serra catarinense, que insiste em nos lembrar que, depois de uma curva, sempre haverá a seguinte. 

EUGENIO MUSSAK escreveu, em 2014, a pedido da vida simples, o livro A Vida É Cheia de Curvas.

16/02/2017 - 10:48

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