Fale com estranhos

As conversas que temos com desconhecidos, ainda que sejam breves, são uma oportunidade para exercitar o nosso olhar delicado e o sentimento de conexão

Débora Zanelato

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Aconversa começou inesperadamente por causa do tênis – talvez um tanto chamativo – que eu usava naquela tarde de setembro. “Gostei dos seus sapatos”, me disse o senhor desconhecido que estava logo à minha frente na longa fila para subir a catedral de Notre Dame, em Paris. Hervin era o nome dele: um homem simpático que usava boné e camisa polo listrada e que morava numa cidade interiorana dos Estados Unidos. Ele e a mulher, Barbara, faziam sua primeira viagem internacional por um motivo importante: comemorar os quase 40 anos de casados. Ali, passando alguns minutos de conversa com aquele casal, estávamos eu e meu marido, com a aliança na mão esquerda havia menos de uma semana. Subir os 422 degraus de uma escada espiralada e estreita era uma atividade que exigia um pouco de esforço. Barbara e Hervin seguiam dedicados, à nossa frente, compartilhando conosco uma certa cumplicidade silenciosa pela vista que esperávamos quando chegássemos ao topo. Na metade do caminho, porém, Barbara estava cansada e precisou parar. Por algum motivo, paramos com eles. Ela aceitou a água que eu tinha comigo e logo seguimos, até o alto da  igreja, onde as gárgulas emolduram a vista da cidade. Tiramos algumas fotos juntos e depois compartilhamos os degraus da descida para, então, entrarmos novamente no mundo dos desconhecidos. Demos um “até logo” que na verdade significa um “tchau para sempre”. É isso o que o sociólogo alemão Valter Benjamin chamaria não de amor à primeira, mas à última vista. Já se passaram alguns anos desse dia, que é um dos tantos encontros com desconhecidos que eu coleciono e levo comigo – provavelmente você também tem alguns desses na memória. Às vezes, foi um diálogo simples com alguém que sentou ao seu lado no metrô e ocupou o espaço do silêncio com alguma alegria. Ou dividiu com você a mesma inquietação pela demora da fila no caixa do banco. Cruzar o tempo todo com desconhecidos é como uma premissa de quem vive em qualquer metrópole. E, junto com isso, a possibilidade de também se conectar com o outro em nossa própria humanidade. “O que as cidades nos oferecem de mais atraente é a chance de vislumbrar constantemente mundos estranhos, que não são os nossos e que podemos vir a conhecer”, me conta a antropóloga Janice Caiafa, que mora no Rio de Janeiro e se dedica a estudar como acontecem essas trocas entre desconhecidos nos meios de transporte coletivo de várias cidades. “Todo ser humano é um estranho ímpar”, escreveu Carlos Drummond de Andrade em seu poema Igual-Desigual. Concordo com ele. Em cada um de nós existe um universo rico para além do passo apressado ou do estresse que o dia a dia nos impõe.

É preciso abrir a porta
 “Não fale com estranhos” deve ser uma das recomendações que as crianças mais escutam. Não seria por menos: os pequenos parecem mais abertos para conhecer o mundo, nutrindo uma curiosidade inocente pelo que está fora, e, sem recursos para se protegerem, estão mais suscetíveis ao perigo do desconhecido. Mas talvez na fase adulta a gente possa equilibrar melhor essa equação. Agora mais habilidosos em medir os riscos que qualquer convívio em sociedade nos coloca, e ainda assim mantendo o interesse e o olhar curioso pelo outro. “É claro que são encontros imprevisíveis, há o risco positivo e o negativo. Falar com essas pessoas é um passo adiante nessa experiência. É uma forma de povoar nossa solidão. É uma atitude criadora”, observa Janice, que vê no contato com o outro uma porta para nos transformarmos internamente. Foi isso o que experimentou o irlandês Stephen Little. Quando criança, ele viajava com a família para o interior do seu país e se impressionava com um fato aparentemente comum pelas localidades por onde passava: as pessoas deixavam a porta de suas casas aberta, mesmo quando não estavam lá. “Aquilo era um sinal de que era um lugar seguro”, lembra ele. “Mais tarde, na minha adolescência, eu pensei nessa metáfora da casa aberta como as melhores trocas que eu tive com pessoas completamente desconhecidas e disponíveis. Como breves amizades de três minutos”, conta Stephen, que hoje vive no Brasil e dá aulas sobre atenção plena e sobre como ter melhores conversas. A verdade é que talvez nem todo mundo tenha o interesse ou mesmo a facilidade para iniciar uma conversa com estranhos com quem está dividindo o mesmo espaço. Mas este texto é apenas para dizer que  a possibilidade existe, e que podemos desenvolver essa prática. O primeiro passo é se disponibilizar, quase como deixar a porta dos nossos olhos e ouvidos aberta para que o outro entre. “Deixar-se afetar por estranhos é de certa forma já mudar ou sair um pouco de si”, observa Janice. Curiosamente, ao mesmo tempo em que a cidade nos revela oportunidades, também acaba por facilitar que a gente se feche e olhe menos para o que está em volta, vivendo de forma um pouco individualista, centrada apenas no nosso eu e nos nossos problemas, deixando de ver – e de se reconhecer – no outro. Um caminho possível para sair desse mundo ensimesmado e contemplar a beleza das outras pessoas tem justamente a ver com a empatia: a habilidade de enxergar o mundo com o olhar do outro. “Nutrir uma curiosidade pelos estranhos é um bom exercício, porque nos faz compreender que há realidades diferentes da nossa. Saímos daquela zona onde vivemos com pessoas que partilham dos mesmos gostos e pensamentos semelhantes”, observa Tati Fukamati, pós-graduada em neurociência e psicologia e estudiosa da empatia. Ela nos ajuda, inclusive, naqueles momentos em que a conversa segue rumo a opiniões opostas. “Vale lembrar que existe um ser humano que também tem medos, sonhos, desejo de ser amado, desejo de ser aceito”, diz Tati. Ou seja, se durante uma conversa a gente se coloca em lados contrários na política, pode tentar observar se mesmo assim o que está por trás não é o desejo comum de viver em um lugar melhor. As conversas também revelam uma oportunidade quase mágica de exercitar um profundo respeito pelo outro. Respeitar significa olhar de novo. Se num primeiro momento nos estranhamos com as diferenças, reparando melhor podemos contemplar a beleza nessas distintas formas de ser e viver. “Conforme vamos dando mais carinho para nós mesmos também nos tornamos mais tolerantes com os outros”, diz Stephen Little.

O que vale é a forma

Theodore Zeldin é um filósofo que nasceu na Palestina e acredita que conversas são muito mais do que assuntos que a gente discute. Elas são uma forma de nutrição compartilhada, que permite trocarmos confiança, sabedoria, coragem e amizade. E nem sempre, em uma conversa, o mais importante é o conteúdo do que se diz, mas o contato que a gente alimenta nessa troca. Stephen me diz que gosta de pensar nas conversas como um rio, que é naturalmente fluido e sobre o qual a gente não tenta exercer muito controle, deixando os caminhos abertos. “Tenho várias conversas bobas, nas quais o assunto em si não é o mais importante, mas sim o contato, o fato de que tem um ser humano na minha frente, alguém vivo. Conversas que nem sempre são profundas ou que eu divida da mesma opinião, mas cuja qualidade no final é a de que eu encontrei alguém.” Martin Buber, filósofo e pedagogo austríaco, gostava de incentivar um modelo de diálogo em que não vemos o outro como objeto ou alguém para quem contamos nossas vantagens. Mas uma conversa baseada na ligação entre mim e você, na qual enxergamos o outro, e podemos simplesmente nos maravilhar com a vida ali presente. Buber, que ficou conhecido por sua filosofia do diálogo, também escreveu Eu e Tu (Centauro Editora), considerado um dos livros mais importantes e belos sobre o assunto. Uma boa conversa, para além do que está sendo dito, também tem a ver com estar verdadeiramente presente e inteiro nesse encontro, ainda que breve. “Porque a comunicação não é só palavra. É a musicalidade da sua voz, é a abertura de alguém, a forma como desenrola a conversa e nos mantemos curiosos”, comenta Stephen, que também propõe o exercício de fazer um esforço sutil para reparar no outro, como uma obra viva e manifesta, e que, ao final desse encontro, possamos ser capazes de lembrar da cor dos olhos, dos cabelos ou dos traços desse breve desconhecido. Conversar requer certo treino, e mesmo quem se acha incapaz ou tímido demais pode saber que é possível, aos poucos, aprender essa habilidade. Em suas aulas, na The School of Life, em São Paulo, Stephen sugere alguns começos de conversa que podem ser interessantes. E tem a ver com observar e perceber o outro, saber que há tentativas e erros também. “Você vê que o atendente está com frio, e fala ‘Oh,  está frio, não é?’, ou, se está cansado, ‘O dia foi puxado hoje’. Pode ser que o outro não goste, e diga ‘Você está me analisando’, e a gente precisa entender que nem todo mundo quer contato o tempo todo. Mas pode ser que surja ali uma troca”, diz. Acho que elogios sinceros – e muito respeitosos, evidentemente – também podem ser uma forma valiosa de fazer essa ligação mais próxima. Uma vez fui atendida por uma vendedora cujo cabelo, estilo black power, me deixou maravilhada. Eu disse a ela quão incríveis eram seus fios. Foi quando ela me respondeu que passou a vida inteira insegura em relação ao seus cabelos e libertá-los das chapinhas e cremes alisantes estava sendo um grande processo. Então, nessas pequenas trocas, também podemos nos sentir mais preenchidos naquilo que somos.

Conversas silenciosas

Existe um universo no que é dito em silêncio. E o americano Richmond Shepard sabe exatamente o que é isso. Aos 87 anos, ele é considerado o mímico mais velho do mundo. Shepard se comunica com a plateia sem usar uma única palavra. “Pessoas bem velhas como eu frequentemente se esbarram nas ruas. É uma comunicação silenciosa através do olhar. Como se disséssemos ‘Olha só quão longe nós chegamos, boa sorte para nós’”, comenta ele sobre essa comunicação não verbal que se estabelece entre desconhecidos. Na cidade, parece que os gestos ficam restritos aos que pedem um trocado na rua, e para quem a gente quase não olha. E mãos, rostos e corpos contam uma história. “Muita comunicação pode ser feita em silêncio. Mas você precisa ouvi-la”, diz Shepard. Assim, nosso olhar pode comunicar um “está tudo bem” quando alguém pisa sem querer no nosso pé, ou um sorriso pode falar sobre gentileza quando os guarda-chuvas se esbarram. Aos poucos, através da presença, do olhar ou das palavras, podemos experimentar uma conexão com o outro em um nível muito mais profundo, ainda que seja só para pedir um café. Porque percebemos que, apesar das diferenças, do estilo de vida ou das adversidades, há uma unidade em nós. Onde, por alguns instantes em qualquer cidade por aí, um simplesmente alimenta o outro com a vida.

09/03/2017 - 11:04

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Revista Vida Simples