Felicidade é conexão, mas qual?

Somos felizes não porque nosso coração se abriu para uma ou outra pessoa: somos felizes porque nosso coração se abriu

Gustavo Gitti

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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somos seres de conexão. Mas estamos enganados: acreditamos que felicidade é se conectar com algo ou alguém específico, então passamos muito tempo procurando por pessoas, lugares, objetos, trabalhos que amamos. No entanto, felicidade é ser capaz de se conectar, não importa com o quê, não importa com quem, pode até ser com nosso sofrimento ou com alguém que nos fez mal. Em vez de buscar se conectar com isso ou aquilo, melhor aprofundar nossa capacidade de conexão. Se tem conexão, a pessoa fica feliz só de estar rodeada de ar, só com terra sob os pés (ou pelo menos ouvimos isso de mestres como Thich Nhat Hanh). A felicidade é a própria conexão — e por isso não é nunca isolada, pessoal ou passiva. Tal mente é a melhor fonte para ativismos e revoluções, pois naturalmente abre conexões positivas em todas as direções. O professor budista Tenzin Wangyal Rinpoche, em um ensinamento, disse que adoecemos sempre que perdemos a conexão: com nosso corpo, com nossa respiração, com nossa mente, com as tarefas cotidianas, com a natureza, com a comunidade, com linhagens de sabedoria, com a dor e também com as qualidades sutis do silêncio, do espaço, do calor interno, da alegria... O sofrimento não vem de outro lugar, ele é a própria desconexão! Se deixarmos que o outro defina qual será a nossa conexão, vamos oscilar de acordo com seus movimentos, às vezes nos desconectando, perdendo o interesse, nos magoando e endurecendo. Porém, se mantivermos uma conexão unilateral, autônoma, silenciosa, o outro acabará perdendo o poder de causar sofrimento. Vamos experimentar, mas parece que o único modo de manter uma conexão potente e estável com todo mundo é por compaixão, amor, alegria e equanimidade. Os animais, as folhas, a água, o vento, os sons do mundo… a vida inteira é um constante convite para que a gente se abra (tsewa é uma das palavras tibetanas para coração aberto). O professor indiano Dzigar Kongtrul Rinpoche costuma dizer que, se fechamos o peito em uma situação difícil, isso é escolha nossa, caso contrário ninguém seria capaz de perdoar e transcender histórias que nunca chegaram a se resolver. Uma vez ouvi do lama Padma Samten: tudo bem chorar e se indignar com uma tragédia, apenas não entristeça seu coração. Sabe aquele acolhimento que estamos esperando receber de alguém? Talvez ele só apareça quando nós mesmos o oferecermos aos outros. Não é que vamos dar e depois receber. A abertura para oferecer é o próprio receber. Como também ouvi do lama Padma Samten, o amor em si mesmo já é a recompensa de amar — desejar a felicidade para alguém é inseparável de experimentá-la em nós mesmos. ƒ

GUSTAVO GITTI é coordenador de uma comunidade online de transformação. Seu site é gustavogitti.com

19/04/2017 - 12:10

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Revista Vida Simples