Há poesia por aí

Quando nos colocamos disponíveis para a leitura dos versos, passamos a enxergar o mundo também de um novo jeito. A poesia sai dos livros e passa a estar em tudo ao redor

Laís Barros Martins

Quando a poesia sai dos livros começamos a perceber tudo com um novo olhar | <i>Crédito: Shutterstock
Quando a poesia sai dos livros começamos a perceber tudo com um novo olhar | Crédito: Shutterstock

Lido com as palavras. Escolho-as cuidadosamente e, depois, vou botando-as de tal forma que possam se transformar em história. Escrevo porque as palavras são potência. Faço isso como jornalista e também como escritora de ficções. Contudo, desconheço a arte de produzir poesia, embora certa carga poética esteja presente nos meus textos. Mas, como leitora de poesia, aproveito a oportunidade de ser de repente tomada por uma combinação de sensações produzidas por essa arte de dar às palavras vida nova. 
Escrever — e ler — é uma via instantânea para encontrar a minha felicidade possível. Por isso investigo como a poesia afeta quem a traz para perto dos seus dias, mesmo que isso aconteça predominantemente por meio das redes sociais, através de uma tela de celular, e não necessariamente em livros e em bibliotecas; ou, ainda, como ela se manifesta em experiências cotidianas para aqueles que sabem percebê-la nos detalhes. Afinal, a poesia não deve ter acesso restrito, dando-se a conhecer apenas àqueles que dominam a senha para entrar. Ela pode estar muito mais acessível do que a gente supõe. E a porta está aberta. Você vem?


Lê-se poesia
Há algum tempo, li uma pesquisa científica, conduzida pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra, destacando que ler poesia é mais útil e eficaz em tratamentos do que livros de autoajuda. Os especialistas observaram que a atividade cerebral é mais intensa quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano. “A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças”, explicava o professor Philip Davis, responsável pelo estudo. Essas informações estimulam a memória afetiva, pois são processadas pelo lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, ajudando a refletir sobre nossas experiências e entendê-las sob outra perspectiva — o estudo sugere, até, que a leitura de clássicos pode ser mais significativa que os livros de autoajuda, e estão estudando mais a fundo o potencial terapêutico da poesia. 
O que os pesquisadores sugerem também  é que a poesia também seria capaz de nos deixar mais atentos ao “estranhamento” das pequenas coisas e a como os grandes temas podem estar nas situações banais. Essa função, que vai além da simples comunicação, foi destacada pelo poeta e livreiro Cesare Rodrigues. Ele reconhece o leitor de poesia como alguém que aceita participar do jogo proposto por essa forma de expressão de regras próprias, ganhando, assim, um novo jeito desordenado de ver o mundo. “Ao se acostumar a uma visão mais lúdica, o leitor de poesia passa a interpretar e a questionar mais em vez de simplesmente aceitar as coisas dadas”, reflete o poeta Cesare.
O encontro com a poesia, acrescenta o professor de filosofia Emilio Terron, pode ser só mais um item na “avalanche de coisas a serem consumidas sem deixar marcas — exceto talvez alguma sedução passageira”, ele diz, mas também pode ser “o impacto de um acontecimento definitivo, que nos apresenta à invenção de sentido e a outras perspectivas”. Ou seja, talvez a poesia nos encante brevemente, mas talvez nos coloque em um novo lugar na nossa percepção do mundo. A linguagem e sua virtualidade que ultrapassa o papel reduzido de veicular informações, clichês, palavras de ordem e reiterar um mundo pronto e acabado seria a responsável por esse fenômeno, segundo Emilio, “impactando aqueles sensíveis ao afeto da poesia com uma espécie de gradativo encanto com o mundo, o mistério, o caos, o bom desassossego”. Em contrapartida, continua, “a pobreza da linguagem encerra nossa vida em valores e crenças que inviabilizam qualquer disposição existencial mais intensa, alegre, pulsante”.
A fórmula para que a magia aconteça parece estar mesmo na forma e no conteúdo da poesia, como nos mostra o estudo e as falas daqueles com quem conversei, confirmando essa importância que a linguagem elaborada também tem para despertar em nós as novas possibilidades da vida. Penso, então, que ninguém deveria estar privado do contato com a poesia e com as artes, por extensão. Como defendia o sociólogo Antonio Candido, uma sociedade justa é aquela que observa a arte como um direito inalienável.  

Vende-se poesia
Talvez os benefícios que contei não sejam suficientes para nos afastar da ideia de que ler poesia é algo difícil, cujo entendimento também não é lá muito fluido. Cesare recupera uma citação da escritora inglesa Jeanette Winterson para traçar um paralelo entre o leitor de poesia e alguém evitando uma cidade estrangeira por não entender seu idioma ou não reconhecer suas ruas: “A arte [...] é uma cidade estrangeira, e é engano pensar que ela nos é familiar. Ninguém se surpreende ao constatar que uma cidade estrangeira tem costumes e idioma próprios. Somente um insensível não levaria em conta esses fatores e culparia o lugar pela própria ignorância. É o que acontece com o artista e a arte todos os dias”. Ou seja, é preciso caminhar pelas palavras sem buscar nelas a familiaridade do vilarejo em que andamos de olhos fechados desde pequenos. É como um mundo novo que se abre, e que pede de nós nada mais que entrega e olhares limpos para enxergar com graça aquilo que nos é proposto.
E há um novo cenário de poesia sendo formado, para contradizer as suposições de que poesias não interessam e não se tornam best-sellers. Poetas que publicam pelo Instagram e chegam a milhares de seguidores, como o brasileiro João Doederlein, autor de O Livro dos Ressignificados (Paralela), e a canadense nascida na Índia, Rupi Kaur, que publicou Outros Jeitos de Usar a Boca (Planeta), estão, inclusive, na lista das obras mais vendidas de ficção, no último mês, nas livrarias brasileiras.
Tomado por essa facilidade de acessar e compartilhar informações via redes sociais, o poeta e professor de literatura Saulo Pessato inaugurou uma conta no Instagram na qual intercala textos curtos com vídeos em que declama algumas de suas poesias. Para ele, “poesia é a teia que conecta significados que não pareciam se conectar antes do ver e do dizer diferentes. Essa teia é bela, surpreendente e pegajosa; o leitor é o inseto que se prende nela”. Aproveitando a metáfora da teia, Saulo sabe bem como “prender” seus seguidores no ambiente virtual com reflexos no mercado tradicional: ele acaba de lançar o seu segundo livro, Verso entre Virilhas (Laranja Original). 
A editora Laranja Original, inclusive, atenta a essa expressiva presença da poesia nas redes sociais, tem promovido uma ação de incentivo à leitura desse estilo e à popularização dessa forma de expressão. O movimento inclui a divulgação de frases motivacionais, que podem se transformar em hashtags ao serem compartilhadas: #aquitempoesia e #poesiaéopresente, por exemplo, e se estende também a livrarias e pontos comerciais interessados em literatura, para atrair leitores e alavancar as vendas.
E, se a poesia ultrapassou o papel e alcançou seu público nas redes sociais, ela também se mostra presente nos aplicativos para celular. O PoemApp, por exemplo, traz um mapa colaborativo com os principais pontos onde existe poesia: bibliotecas, editoras, residências de autores, intervenções urbanas, saraus, lançamentos de livros. Enquanto isso, o  Declamaí, do projeto Poemaria, estimula uma comunicação mais afetiva ao viabilizar saraus virtuais em que se pode declamar poesias próprias ou de outros autores. 

Poeme-se
“A poesia é a descoberta das coisas que a gente nunca viu”, conta o escritor Oswald de Andrade sobre as impressões do filho de 10 anos. Acho que ele tem razão; talvez a gente precise mesmo é se permitir aceitar o convite constante da poesia de “reolhar” as eternas novidades da vida para aproveitar os resultados de novas sensibilidades e novos pensamentos.
Para ter poesia perto, Emilio, o professor de filosofia, recomenda considerar poesia tudo aquilo que aponta para o não habitual, que vai contra os ideais tão pisoteados de sucesso, felicidade, mercado, razão, lei, trabalho, dever, mérito, que não nos deixam perceber “a possibilidade de criar realidades bem mais fecundas do que o mundo descrito pelas mídias”, comenta. É como sair daquele universo ao qual estávamos acostumados e enxergar novas possibilidades de mundo. 
Mas como evitar, então, o senso comum e encontrar outra saída através do viés poético? Emilio sugere algumas formas: “Atender ao apelo de um eu-profundo que nos habita e que está em constante construção. Buscar a experiência real, sem acomodação, deslocando-se para o interior, no campo da germinação das coisas, e permitir-se sentir a duração de outras temporalidades, olhando com vagar, embaralhando e cruzando códigos, suspendendo o utilitarismo e a mirada pragmática para o mundo. Não saber de antemão, deixar-se parir pelo encontro, suspender o julgamento, dotar de alma tudo — uma paisagem, animais, existências ínfimas, relações. Enxergar o que ordinariamente não se vê, abrindo-se para o outro e deixando-se transformar por novos pontos de vista. Um verso é capaz de nos erguer de um abismo”.
Em resumo, o filósofo indica: “A poesia, através das palavras, faz ser o que ainda não existe”. Na possibilidade de tamanho devir, eu que, apesar de escrever, não me julgo capaz de poesia, resolvi experimentar uns versos, assim como que para movimentar as correntes e recuperar uma parcela de liberdade: se olho de novo / de repente revejo / o que antes estava aqui / e agora é outro / se olho de novo / de repente percebo / há poesia por aí.

Laís Barros Martins reconhece que a poesia está em toda parte e se alegra quando esbarra com ela, especialmente nos textos que produz

17/04/2018 - 13:44

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Revista Vida Simples