Hora da faxina

Cada vez mais pessoas optam por limpar a própria casa, sem terceirizar o serviço para empregadas. É uma nova maneira de encarar o trabalho doméstico

Marília Moschkovich

Ao limpar a própria sujeira, Nara descobriu vantagens inesperadas | <i>Crédito: Vida Simples Digital
Ao limpar a própria sujeira, Nara descobriu vantagens inesperadas | Crédito: Vida Simples Digital

Eugenia é uma jovem branca de classe média. Depois de uma temporada estudando fora, ela volta para sua cidade natal e percebe, pela primeira vez, que as empregadas domésticas e babás negras sofrem uma série de abusos por parte de seus patrões. Horrorizada, decide escrever um livro a respeito. Esse é o enredo do filme Histórias Cruzadas, de 2011. Apesar de se passar nos Estados Unidos, nos anos 60, a trama lembra alguns debates que têm ocorrido a respeito do trabalho doméstico no Brasil.
  Em março deste ano, o Senado brasileiro aprovou a chamada "pec das domésticas", que garante aos trabalhadores domésticos (93% dos quais são mulheres, no Brasil, segundo a Organização Internacional do Trabalho) os direitos trabalhistas básicos já garantidos a outras classes profissionais, como licença-maternidade, fgts, férias, jornada máxima e salário mínimo. Assim como ocorreu nos eua nos últimos 50 anos, a perspectiva é de que a contratação de domésticas encareça, e de que o número de lares que utilizam esse tipo de serviço diminua a longo prazo, sobretudo entre a classe média.
  A aprovação da emenda suscitou um debate acalorado. A advogada Regina Mansur, participante do reality show Mulheres Ricas, disse que "a premissa da lei trabalhista é que todo patrão é ruim e todo empregado é vítima. Quando se dá muito direito aos empregados, os empregadores não conseguirão suprir". Já para a presidente do Sindoméstica (Sindicato das Empregadas e Trabalhadores Domésticos) da Grande São Paulo, Eliana Menezes, a aprovação da pec representa a "segunda abolição da escravatura" no Brasil. Entre as duas posições, encontra-se a classe média, que se vê na perspectiva de não ter mais condições de terceirizar o trabalho de limpar a casa. A verdade, porém, é que o número de pessoas que cuida da própria bagunça só tem aumentado. E não só por razões financeiras, mas também por questões éticas. É o caso da socióloga Nara Roberta da Silva, 27. Quando saiu da casa dos pais e foi morar em uma república, a limpeza e a arrumação eram divididas entre as moradoras da casa. Segundo ela, o preço de uma faxineira, em geral, não era exatamente "caro", mas ela e as amigas achavam o preço de mercado muito abaixo do que seria justo para o tamanho das casas no bairro onde moravam. Se não podiam pagar o que considerariam justo, optavam por fazer a limpeza elas mesmas.

Independência

Ao limpar a própria sujeira, Nara descobriu vantagens inesperadas, como a mudança de sua relação com o espaço. "Na cabeça da maioria das moradoras da república, ter uma empregada era algo supérfluo. Entendíamos que era possível cuidar do lugar onde morávamos", diz ela. "Para mim, cuidar de casa sempre foi uma questão de responsabilidade com o espaço e com as pessoas que moram nele. É importante porque evita que nos tornemos pessoas acomodadas, dependentes, mimadas", diz. Essa mudança de perspectiva é relatada por várias pessoas que passam a ser responsáveis por suas próprias casas. Mais atentas, elas reorganizam suas rotinas e o próprio espaço físico, para que seja possível mantê-lo limpo e arrumado sem muito investimento de tempo.
  Alexandre Passos, 26, vive num apartamento com apenas três pratos. "Um para mim, um para meu colega de apartamento, e um para eventuais visitas", conta. O doutorando em ciência da computação realiza parte de sua pesquisa na Universidade de Massachusetts Amherst, e mora na pequena cidade de Northampton, nos eua. No Brasil, porém, não era diferente. "Morava com a minha esposa, e também não tínhamos empregada doméstica ou faxineira. Criamos algumas estratégias para facilitar a manutenção e a limpeza. Aspirávamos a casa semanalmente, lavávamos banheiro e cozinha uma vez por mês", descreve. A divisão de tarefas também exigia alguma criatividade, já que ele em geral tinha muito mais ânimo para cuidar da casa do que sua companheira. "A gente bolou uma coisa ótima para dividir a louça: quem lavava fazia um risco na geladeira com uma caneta piloto. Cada um tinha uma cor. Então quem tivesse menos riscos sabia que tinha de lavar a próxima", lembra.

Novos padrões

Esse tipo de estratégia acaba sendo mais frequente para quem mora em outros países, onde a contratação de domésticas é algo raro. Nos Estados Unidos, por exemplo, que tem 313 milhões de habitantes, existem pouco menos de 2 milhões de pessoas trabalhando como domésticas. O Brasil, com cerca de dois terços dessa população, tem mais do que o triplo. Nosso país tem o maior contingente de trabalhadores domésticos do mundo, segundo a oit. Nos eua, desde cedo os sindicatos conseguiram reivindicar mais direitos e garantias, como um número máximo de horas de trabalho e um salário mínimo, o que resultou em uma redução progressiva desse tipo de contratação. Hoje, só tem empregada nos Estados Unidos quem tem muito dinheiro. O mesmo ocorre em países como Holanda, Inglaterra, França, Canadá. Nesses locais, ter alguém para limpar a sua sujeira simplesmente não faz parte da cultura da maioria das pessoas.
  Há quem fique horrorizado com a possibilidade de ter sua cozinha lavada apenas uma vez por mês, claro. Cuidar da limpeza da própria casa acaba mudando, de certa maneira, nosso conceito de "sujeira". Assim, organizamos a casa para que a limpeza dê menos trabalho, mas também mudamos a expectativa sobre o que é limpeza, sobre o que é supérfluo e o que é essencial. Um conjunto de baixelas com jogo de pratos para oito pessoas, para quem sequer gosta de cozinhar, pode não ser uma boa ideia. O truque é adaptar a casa e as tarefas de limpeza à sua rotina, e não o contrário.

Quem faz a faxina?

Alexandre e Nara são jovens, em início de carreira, moram sozinhos e não têm filhos. Assim é fácil, algumas pessoas podem dizer. Mas a professora de francês Chris Janson (nome fictício), 57, prova o contrário. Depois de muitos anos com empregadas, ela decidiu cuidar com sua família da casa onde moram, num condomínio da Granja Viana em Carapicuíba (sp). A casa é grande, tem uma área externa ampla e, além dela, do marido e dos dois filhos, ainda abriga vários cachorros.
  "Primeiro passamos de uma mensalista para uma diarista, duas vezes por semana, por problemas financeiros. Então fui morar na França e convivi com todo mundo cuidando de sua própria casa. Comecei a achar aquilo muito natural. Quando voltei, não quis mais ter mensalista, mesmo depois de ter melhorado a situação financeira. Aí a diarista que tínhamos se demitiu e eu optei por tentar cuidar de tudo com a família", conta. No início, todos precisaram se acostumar a realizar tarefas que sequer sabiam quais eram. Com a orientação de Chris e de seu marido, os filhos também foram incorporando os cuidados com a casa em seus cotidianos. Os benefícios não foram poucos. "A família ficou muito mais unida. Essa coisa de todo mundo estar empenhado em um objetivo comum aproxima as pessoas. Agora cada um sabe o trabalho que dá e colabora para manter limpo", diz.
  Os filhos de Chris são adultos, entre seus 20 e 30 anos de idade. Será que essa organização seria possível com crianças pequenas? A professora de inglês Ariadne Nascimento, 35, tem nada menos do que três filhos - de 11 meses, cinco e seis anos de idade -, e não tem babá, faxineira, nem empregada. "Aprendemos a ser muito organizados. As crianças têm um cartaz com as tarefas e com o momento do dia em que têm de fazê-las. Como não sabem ver horas, eu coloco imagens dos desenhos que elas assistem, para que saibam que depois de tal desenho, por exemplo, é hora de se trocar, ou guardar brinquedos etc.", diz. As tarefas mais pesadas ficam para ela e o marido, que dividem as partes da casa para facilitar a limpeza e também criaram regras próprias para se orientar. "Tenho um cartaz só para mim", brinca. A rotina de Ariadne e do marido é facilitada pelo uso de alguns serviços externos, como creches e escolas. Para que mais pessoas possam dividir o trabalho doméstico, é essencial que esse tipo de infraestrutura se amplie no País.
  Fazer a própria faxina, no fim das contas, não precisa ser um grande drama e nem exige enormes malabarismos. Pode ser um ótimo aprendizado sobre o seu próprio espaço e sua rotina.

13/04/2017 - 14:56

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Revista Vida Simples