Hospedagem compartilhada

Confiar no desconhecido e praticar o desapego são as bases que sustentam a hospedagem colaborativa

Carolina Bergier

Cada vez mais comum, dividir a casa com um estranho pode render uma boa experiência | <i>Crédito: Shutterstock
Cada vez mais comum, dividir a casa com um estranho pode render uma boa experiência | Crédito: Shutterstock

Você deve se lembrar: na infância, recomendações como “Não abra a porta para estranhos”, ou “Não leve desconhecidos para casa” eram muito comuns. Afinal, eles quase sempre representavam algum perigo. Na escola, emprestar material era sinônimo de torcer para que o jogo de canetinhas coloridas voltasse inteiro. E compartilhar brinquedos trazia consigo o medo do desaparecimento de uma peça. Nunca fomos muito acostumados a lidar com o desapego e com o desconhecido. Contudo, a lógica que aprendemos quando criança está sendo subvertida junto com as mudanças globais. Se antes abrigar um estranho em casa era algo inimaginável, muitos agora encontram diversos motivos para não só abrir as portas do lar, mas também permitir que usem seus bens mesmo na sua ausência. São pessoas, como eu ou você, que têm acreditado nas gentilezas e apostado no valor da troca de experiências. 
Deixando para trás o ímpeto da desconfiança, apego e medo, nos últimos seis anos, mais de 26 milhões de pessoas já viajaram pelo Airbnb, uma plataforma online que viabiliza a negociação direta entre o turista e o dono do quarto, do apartamento, da casa na árvore, do barco — seja lá onde for, desde que não seja um hotel. O número expressivo dá sinais de que o chamado “consumo colaborativo” tem ganhado força —  e muitos novos adeptos, gente que pensa na troca, no dividir para multiplicar. Por muitos anos, nós valorizamos a compra de bens, a propriedade, o uso exclusivo. Mas agora essa nova forma de pensar nos propõe outro conceito: precisamos do acesso e não da posse. Vale mais o buraco na parede que a furadeira, a mobilidade do que o carro, um lugar para ficar e não apenas um hotel. E isso pode render experiências muito mais especiais e gratificantes.  
O filósofo grego Aristóteles já dizia que “a riqueza está mais no uso que na posse”. Gandhi, séculos depois, afirmou: “há atualmente na Terra recursos suficientes para atender às necessidades de todos, mas eles não serão jamais suficientes para satisfazer os desejos de posse de alguns.” Se já havíamos sido avisados sobre isso, por que nunca aplicamos de verdade esse saber? O escritor e ativista do decrescimento (movimento político, econômico e social fundado em princípios ecológicos e de combate ao consumismo), Charles Eisenstein, em seu livro Sacred Economics (ainda sem tradução, mas com download gratuito disponível em seu site), traz uma reflexão interessante: ele diz que muitos de nós estamos tão feridos que preferimos não interagir e compartilhar mas, sim, nos retrair, optando pela separação e acreditando na ilusão de que não dependemos de outras pessoas. Mas parece que essa falsa ideia já começa a cair por terra. O gritar das crises econômica, social e ambiental pede que acordemos para pensar em soluções criativas e cada vez mais interdependentes, com valores como cuidado e colaboração. Vemos que é preciso restaurar o senso de comunidade, de sociedade. Assim, surgiu o fenômeno do consumo colaborativo, que se aproveita da maturidade da internet e possibilita uma importante transição: da era da posse para a era do acesso. E isso tem ajudado na reflexão sobre o que vale mais: ter ou ser?
Diversas plataformas e movimentos já estão surfando nessa onda (e dizem alguns que quem não surfar pode se afogar). Hoje a maior rede de hospedagem do mundo, o Airbnb, está presente em 190 países com mais de um milhão de espaços anunciados. No Brasil, o serviço se popularizou com a Copa do Mundo, ano passado, e hoje mais de 40 mil pessoas, espalhadas por 22 estados, abrem suas casas por meio dessa ferramenta. Mônica Ribeiro é uma delas. A jornalista mora com uma amiga em um apartamento de dois quartos e, durante a Copa, se mudou para a casa dos pais para que o seu imóvel ficasse à disposição de hóspedes do Airbnb. Ela também conta com o site para melhorar sua renda financeira, alugando um cômodo em todas as vezes que vai viajar. Gostou tanto da brincadeira que na casa já existe um sofazinho que vira cama e está sempre disponível para abrigar amigos ou amigos de amigos. Para receber bem, ela convida seu hóspede para jantar fora pelo menos um dia da estadia. “Faço isso não só para ter uma boa reputação na plataforma, mas também porque acho que é dando que se recebe”, conta. A moça disponibilizou sua casa para tanta gente que agora, confiante no conceito de troca, planeja uma viagem pela Europa, sem gastar nada com estadia. Seu objetivo é oferecer seus talentos em troca de um lugar confortável para ficar.
O que Mônica está fazendo é colocar em ação a chamada Matriz 4D. O termo foi criado por Lala Deheinzelin, especialista brasileira em economia criativa e desenvolvimento sustentável. A ideia é a seguinte: se com os óculos 2D nós só vemos os recursos finitos e tangíveis —  como o dinheiro —  quando olhamos o mundo com as lentes 4D, enxergamos simultaneamente os valores financeiro,  cultural,  social e ambiental. Isso significa perceber mais possibilidades, valores não mensuráveis, mas tão ricos quanto. Assim, ampliamos o escopo possível de trocas, reconhecendo a abundância daquilo que temos: eu te empresto minha barraca de camping e você me oferece uma massagem. Começamos a notar que temos algo a oferecer para além do dinheiro: talentos, contatos, bens e serviços. “Usando as lentes 4D, o Airbnb é o maior hotel do mundo sem levantar uma parede. Também é prova de que as pessoas são confiáveis, fazendo muito pela cultura de paz”, diz Lala.

Estranhos sob seu teto
Existe outra forma bem interessante de colocar em prática a tal Matriz 4D, e de forma totalmente gratuita. Fundado em 2003, o Couchsurfing é uma rede social de surfistas de sofás que junta turistas e anfitriões em busca de hospedagem grátis —  e já conta com sete milhões de pessoas em 120 mil cidades do planeta. Um deles é o empreendedor Herman Bessler que, em três anos, abrigou mais de 70 “surfistas” em seu sofá. Herman assume que receber muitas pessoas ao mesmo tempo é complicado, porque mora em um quarto e sala com um mezanino e chega a ter até quatro hóspedes em um lugar com apenas um banheiro. “Mas tudo conciliável e excelente. A grande maioria das pessoas faz um esforço genuíno para evitar muita bagunça”, conta ele, que sempre faz um jantar de boas-vindas e coloca gentilmente os acordos em pauta para deixar o espaço harmonioso: sujou, limpou, cada um compra a própria comida e respeita a todos. Sim, a moeda do couchsurfing costuma mesmo ser a gentileza. Para abrir seu espaço e oferecer o que está lá dentro com segurança e cabeça tranquila, é importante checar a reputação do usuário na plataforma, já que em cada perfil há comentários e avaliações. É claro que só dá para ter certeza da boa fé do outro na prática, mas se precaver um pouco ainda é um bom caminho para poder desfrutar dessa experiência como ela pede: com confiança e desapego.
 Outra entusiasta do couchsurfing, Marcelle Bottini já teve seu sofá ocupado por mais de 30 desconhecidos. “Mas cansei de atender pedidos de pessoas que só queriam um lugar pra ficar depois de perceberem que as vagas em albergues estavam esgotadas”, conta. O movimento, contudo, mudou sua vida. Marcelle ganhou grandes amigos, como o Chris, um inglês que inicialmente passaria só três dias em sua casa, mas acabou ficando dez e virando um parceiro inclusive profissional. Ela trabalhava em uma produtora audiovisual e, depois de receber tantos hóspedes, notou que não só gostava de ensinar português e cultura brasileira, mas que também era boa nisso. Abriu, então, uma empresa com esse foco, a Fala Brasil. E o Chris faz traduções para ela, sem cobrar nada. Ele agora está morando em Madri, onde Marcelle foi encontrá-lo em fevereiro. De novo, sem dinheiro envolvido. Exemplo de que as trocas simbólicas podem também ser bem valiosas.
E novas opções de compartilhamento continuam surgindo. No House Sitting, por exemplo, interessados tomam conta da casa de estrangeiros que vão viajar.  No TrustedHousesitters, os hóspedes se comprometem não só em cuidar do seu lar mas também do bichinho de estimação. À primeira vista, pode parecer estranho ter um desconhecido dentro de casa. Mas, aos poucos, é possível criar uma cultura de crença no outro e de gentileza. De saber que podemos ser generosos e que existem outros homens e mulheres com o mesmo espírito  que o seu.
Mas um ponto emperra na funcionalidade de sites como o Airbnb: ser um locatário, e não proprietário da residência a ser aberta para novos hóspedes. No Brasil, como em muitos outros países, alugar um imóvel que já está sendo locado é uma prática ilegal de sublocação, mas mesmo assim, muito recorrente. Quem se arrisca dessa forma sem o conhecimento do proprietário pode ser surpreendido por uma ação movida por não cumprimento de contrato.

Confiança, a alma do negócio
Talvez você não se sinta seguro para abrir a sua casa, oferecer um sofá ou dividir o mesmo teto com estranhos. Mas existem outras formas de fazer isso e assim aprender a dividir. O site Tem Açúcar é uma ferramenta que defende a troca e o compartilhamento de objetos entre vizinhos ou pessoas do mesmo bairro. Por que todos os apartamentos comprariam  uma furadeira se ela é usada só de vez em quando? A ideia de economia colaborativa vem ganhando tanta força que, com 20 dias de lançamento, o site já contava com mais de 15 mil usuários.  A empreendedora por trás do projeto, Camila Carvalho, acredita que a confiança nos outros é algo natural do ser humano, mas que nossa sociedade impôs crenças como competição e escassez, além de valorizar o “é meu”. “É daí que vem nossa desconfiança: uma criança que ainda não foi afetada por esses valores externos é naturalmente confiante e aberta aos outros”, diz. Quando se fala de economia criativa, também estamos nos referindo a sustentabilidade. A produção de bens materiais poderia ser consideravelmente reduzida se utilizássemos de forma mais proveitosa tudo que temos a mão.
É claro que o crescimento do compartilhamento necessariamente esbarra na capacidade de confiar no outro. Para a inglesa Rachel Botsman, inovadora social e árdua defensora do poder da colaboração, a verdadeira magia por trás disso está em utilizar a tecnologia para construir confiança entre as pessoas, em encorajá-las a fazer conexões realmente significativas e a redescobrirem a humanidade que perdemos em algum momento durante nossa trajetória. Ou seja, dessa maneira conseguimos construir relações mais próximas. O que, no fim das contas, é das coisas mais importantes da vida.

15/02/2018 - 10:45

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