Impecável

Fazer algo com esmero não significa fazer com perfeição, mas sim movido pelo coração e, dessa forma, dar o seu melhor sempre

Eugenio Mussak

Fazer algo com esmero não significa fazer com perfeição | <i>Crédito: Shutterstock
Fazer algo com esmero não significa fazer com perfeição | Crédito: Shutterstock

Adoro esta palavra: impecável. Em sua origem, ela é um adjetivo, ou seja, uma qualidade de alguém, ou de alguma coisa, que não tem pecado, que é incapaz de pecar. Tem sua origem nos textos religiosos, para indicar pessoas santas, que também eram chamadas de imaculadas, sem máculas ou manchas. Eram, igualmente, ilibadas, qualidade que tem significado de limpeza extrema, e que também se aplica ao caráter de uma pessoa. Com o tempo, a palavra impecável passou a ser usada para designar aquilo que foi bem feito, que se aproxima da perfeição, que é irretocável, que não merece acréscimos nem mudanças. Algo a que não falta nada, nem tem excessos. É impecável, enfim...
Quando aplicado a pessoas, o impecável ganha o significado de que alguém não comete erros, tudo o que faz é bem feito, que não merece reprimendas ou corretivos. Alguém assim ganha rapidamente a admiração dos demais, e também o respeito e a confiança. 
E por que gosto dessa palavra? Não posso dizer que é porque eu me considere impecável. Não mesmo... Sou um pecador, confesso. E quase nunca faço algo que eu mesmo considere impecável, irretocável ou imaculado. Sempre acho que poderia ter feito melhor. Gosto dela pela ideia que contém, de que qualquer coisa que façamos pode ser bem feita e melhorar sempre. 
Não defendo, nem de perto, a obsessão pela perfeição, até porque ela não existe. O impecável não é o perfeito. Impecável é algo que agrada ao espírito, independentemente da porta pela qual entra. Pode ser uma música, um filme, uma comida. Já passei finais de semana impecáveis, fiz viagens e fui a festas impecáveis. Seu melhor uso é quando você gostaria de fazer de novo. Impecável é o lugar onde você gostaria de morar. 
Para Manuel Bandeira, impecável é Pasárgada, onde ele é amigo do rei. Para Thomas More, é a ilha de Utopia, onde há justiça social. Para Paulo Diniz, impecável é Piri Piri, pois, lá, “não há distinção de cor / lá, cada amigo é um irmão / lá, galo canta é madrugada / caminhante faz parada / se apaixona pelo ar”. Para mim, é minha casa, onde os problemas do cotidiano também habitam. O impecável não é divorciado da realidade, das dificuldades, das decepções. O impecável nasce do esforço, da intenção, da insatisfação. O impecável custa. Não vem de graça. 
Impecável não é o melhor do mundo. É o melhor possível. No local, no momento. Recentemente, me hospedei em um hotel boutique em Curitiba. Impecável. Dos lençóis ao café da manhã. Do atendimento à localização. Tudo impecável. E me lembrei de meu primeiro acampamento escoteiro na zona rural da mesma cidade. Dormimos em uma barraca montada com duas lonas, sobre uma cama feita de sapé seco. Era inverno, e as barracas da época não tinham a tecnologia das de hoje. Tratamos de vedar todas as frestas, e, como “luxo”, aquecemos, para cada um, uma pedra redonda na fogueira enquanto preparávamos o jantar, e a colocamos no pé da “cama”. Quando o chefe escoteiro vistoriou as instalações, explicou com uma palavra sua avaliação: “Impecável”. A pedra aqueceu nossos pés. O elogio do chefe, nosso espírito.
O impecável é assim. Quem o recebe fica satisfeito. Quem o fez fica orgulhoso. O impecável agrada a alma, pois nos faz acreditar que tudo é possível, que as coisas vão melhorar, que o futuro é bom. Nos traz alegria, dá a certeza de que tudo vale a pena, quando é feito com o coração. 
Quem faz um pacto com a vida, usando o princípio do impecável, vive melhor, dá sua contribuição para melhorar o mundo e é sempre benquisto. O pacto é assim: “Eu faço o melhor que posso, e você me dá o que eu preciso para melhorar ainda mais. Assim, todos ficamos felizes”. Esse é um pacto que funciona. Observando, me dei conta de que esse pacto é um contrato pessoal, que deve ser obedecido. E não é difícil perceber quem o assinou e quem não. Estou certo de que você conhece pessoas que parecem fazer tudo certo, e para quem tudo parece ser fácil. 
Ao escrever sobre isso, não posso não lembrar da Angélica, uma amiga da primeira juventude. Ela não tinha nada excepcional, mas não se pode dizer que era comum. Atraía os olhares sem ser especialmente bonita. Seduzia sem ser sensual. Sabia das coisas sem ser intelectual. Liderava sem ser a chefe. Dizia muito falando pouco. Angélica não era arrogante nem metida. Também não era do tipo boazinha, não concordava com tudo. Em resumo, a Angélica não era um anjo, mas era impecável. Qualquer um que tentasse encontrar nela um defeito teria dificuldade, além de angariar a antipatia dos demais. Tudo o que ela fazia parecia ser movido por uma força única, constante, que não se esgotava antes de pronto. E ela fazia tudo com facilidade, sem queixas, sem sofrimento. Não encontrava dificuldades nos trabalhos da escola. Não se aborrecia com o controle dos pais. Não parecia preocupada com o futuro. 
A Angélica estava sempre calma e sempre em movimento. Nunca a vi reclamar da falta de tempo ou mesmo do excesso de trabalho ou responsabilidade. Ela simplesmente fazia o que tinha que fazer. E sempre fazia bem feito. Não perfeito, apenas bem feito, e era isso que a fazia parecer perfeita para todos.
Hoje percebo que aprendi com ela o sentido do impecável, que, mais que um resultado, é um meio, um caminho, um estado interior. É possível escrever um texto, receber visitas de modo impecável, vestir-se de maneira impecável. Mas quem faz isso são aqueles que também lavam a louça, arrumam a cama ou limpam a escrivaninha de maneira igualmente impecável. 
Impecável não é o que você faz, mas o que você é. Ser impecável tem a ver com o tal contrato interior, o pacto com a vida. Fazer bem feito de maneira constante e crescente. É um hábito. Um jeito de ser. E de viver. 
Uma vida impecável não está livre de percalços, de insucessos, frustrações e tristezas. Claro que não. Construir uma vida impecável tem a ver com a honestidade de propósito, com a coerência das atitudes, com a constância na busca do certo, do bom e do belo. E não é difícil. Basta decidir e fazer. O impecável não custa caro e vale muito. O impecável não mora no universo da perfeição. Habita, isso sim, o mundo da atenção, do cuidado e do detalhe. 

Eugenio Mussak diz que vive em busca de um texto impecável, e que um dia o fará.

25/06/2018 - 13:16

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Revista Vida Simples